Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

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CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II ser ou não ser, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Patrícia Ribeiro de Castro Abbud

José Murilo de Carvalho é doutor em ciência política pela Universidade de Stanford, foi pesquisador e professor visitante em diversas universidades estrangeiras. Atualmente, é professor titular do Departamento de História da URJF. É membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências. Autor de obras como Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi (1987) e a Formação das Almas: o imaginário da república no Brasil (1990). Em sua obra D. Pedro II ser ou não ser apresenta um perfil do imperador do Brasil de 1940 até 1889, ano da proclamação da República. Realiza uma análise entre dois personagens em constante conflito: um, mais conhecido, é o D. Pedro II, que governou o Brasil por quase um século e o outro é Pedro de Alcântara, cidadão comum, amante das artes, das ciências e das letras, que detestava as pompas do poder e o ofício de imperador.

Para José Murilo, D. Pedro II foi um Habsburgo perdido nos trópicos. Homem de 1,90m, louro, olhos azuis penetrantes, barba espessa e embranquecida, num país de pequena elite branca cercada por um mar de negros e mestiços. Órfão de mãe logo depois de completar um ano de idade, e de pai aos nove, tornou-se o órfão da nação. Recebeu uma educação rígida. Procuravam fazer dele um chefe de Estado perfeito, sem paixões, escravo das leis e do dever, quase uma máquina de governar. Na verdade, foi educado para não se parecer com o pai, ensinaram-lhe a controlar ódios e amores, a ser contido. Contudo, por trás dos rituais da monarquia, havia um ser humano marcado pelas tragédias domésticas, cheio de contradições e paixões, amante das ciências e das letras, herança da mãe e um homem apaixonado pela condessa de Barral. Passou a vida tentando ajustar-se a um modelo de servidor público exemplar, exercendo com zelo um poder que o destino lhe pusera nas mãos.

De acordo com o autor, o imperador incorporou os hábitos da disciplina e pontualidade que lhe incutiram na infância. Ao longo da vida, sempre teve mania de estabelecer horários rígidos para tudo, onde quer que estivesse, no Brasil ou no exterior. Esclarece ainda que o imperador menino devia seguir rigorosamente um regulamento todos os dias como levantar-se às sete horas da manhã. O almoço era às oito horas sempre com a presença de um médico, para evitar comer muito, embora a comida nos palácios fosse considerada ruim, o imperador sempre apresentou ótimo apetite. Das nove às onze e meia deveria estudar, e somente divertir-se até a uma e meia. O jantar era às duas da tarde. A conversa sempre referente a assuntos científicos e de beneficência. Não poderia almoçar com as irmãs e somente frequentava seus aposentos depois do almoço. Havia no fundo uma necessidade de formar um príncipe perfeito, dedicado integralmente as suas obrigações, acima das ações políticas e dos interesses privados.

Frei Pedro de Santa Mariana foi nomeado primeiro preceptor de d. Pedro; além de assistir às lições, devia acompanhar o imperador durante o dia e fazer relatórios diários. Dessa forma, longe dos pais, educado por estranhos, fez dos livros um mundo à parte, em que podia isolar-se e proteger-se. Os deputados acompanhavam de perto a educação do príncipe, e muitas vezes criticavam a falta de exercícios e divertimento. Essas observações retiradas a partir do arquivo histórico do Museu Imperial relatam ainda que ,embora fosse considerado dócil e obediente, não era feliz. Era comum os funcionários acharem o menino pelos cantos choramingando e nesses momentos nada lhe agradava. Provavelmente em virtude de sua grande timidez, sua voz não engrossou, não adquiriu o timbre masculino.

José Murilo utiliza relatos da época de estrangeiros, funcionários e até mesmo de frequentadores dos palácios para constatar que a corte brasileira era uma das mais tristes e que o imperador não passava de uma sombra oculta, visível somente nas cerimônias oficiais. Isso pode ser percebido já nos primeiros anos do segundo reinado devido à insegurança e à inexperiência em relação a políticos calejados. Às vezes causava uma impressão desagradável por falar muito pouco, cumprimentar ou responder com a cabeça, além de aparentar um tanto quanto enfadonho.

Entretanto, para o autor, um fator que contribuiu poderosamente para o amadurecimento do imperador foi o casamento realizado em 1843. Com a maioridade, as negociações para a realização de um casamento começaram, mas d. Pedro não era bom partido. A família imperial não era rica, o Brasil era um país distante, exótico e sem importância. E ainda havia um agravante: o mau precedente de d. Pedro I. Casou-se por procuração com Tereza Cristina, irmã do rei das Duas Sicílias. Apesar de uma frustração inicial, gerada porque ela era quatro anos mais velha, baixinha, sem beleza e manca, o casamento contribuiu para dar segurança ao jovem de dezoito anos. Tornou-se mais confiante e mais expansivo nas funções oficiais e na vida social. A cidade alheia ao drama pessoal do jovem imperador comemorou as bodas por nove dias.

Em relação à questão política, o autor destaca o relacionamento do imperador com os ministros como um fato delicado até o fim do império. Na verdade as relações entre ele e os ministros estavam estreitamente ligadas às personalidades destes últimos. Mas havia duas regras básicas, a discussão em conselho ou com os ministros individualmente ou o direito de fiscalização. O imperador informava-se sobre tudo o que acontecia seja através de jornais, seja pelas audiências públicas diárias; era freqüente vê-lo em visitas à escola, repartições públicas e hospitais. De acordo com José Murilo, o diário imperial registra a convivência ao longo da vida com Caxias, seu conselheiro em matéria política e militar. A maioria dos ministros mantinha uma posição ambígua. Buscavam o prestígio do poder, mas consideravam excessiva a intromissão do monarca nos negócios do governo.

Nos arquivos da família imperial consta ainda uma grande quantidade de cartas, sobretudo do imperador para a condessa de Barral, provavelmente o grande amor da sua vida. Muitas cartas desapareceram porque o próprio imperador as destruía. De acordo com os relatos, a condessa responsável pela educação das filhas do imperador não apresentava muita beleza, mas d. Pedro ficou fascinado pela inteligência e pela cultura, de modo que tinha o costume de assistir às aulas das filhas inclusive as ministradas pela tutora. As cartas revelam que mantiveram uma correspondência de onze anos; além disso, revelam também o abatimento do imperador por usar pela primeira vez a força policial contra o povo ainda que Barral chegasse a ficar irritada com a falta de segurança do Palácio e a excessiva liberdade de imprensa. A convivência da condessa com a família real durou nove anos, despertou a paixão de d. Pedro, a amizade das princesas e o ódio da imperatriz.

O autor reconstrói todo o cotidiano da família imperial na maioria das vezes pelos textos do diário do próprio imperador, pelas cartas já mencionadas e pelos relatos dos visitantes, em sua maioria estrangeiros, que consideravam a realeza brasileira como uma monarquia sem corte. Isso porque o imperador era avesso às festas, eram poucas as recepções e os jantares considerados uma verdadeira calamidade. A comida era ruim, servida muitas vezes fria e por empregados malvestidos. Geralmente, os palácios eram mal iluminados, sem funcionários e sem a mais elementar etiqueta. Assim, a monarquia brasileira não produziu uma sociedade de corte; esse descaso constituiu um fator de isolamento social aliado ao isolamento político em relação à elite.

Para comprovar a modesta vida da família imperial, José Murilo recorre aos dados das viagens ao exterior, todas, sem exceção, custeadas com empréstimos porque d. Pedro se recusava a usar o dinheiro público. Por não entesourar, ao ser exilado teve de continuar a pedir empréstimos, que ainda não estavam pagos por ocasião de sua morte. Nessas viagens, apresentava-se com uma vontade insaciável de conhecer novos lugares e pessoas. Escreveu diários de quase todas as viagens, contudo, as do Brasil tinham um sentido político. Livre das cerimônias oficiais, que mal suportava, o imperador se dedicou ao que se tornou marca registrada de suas andanças: visitar igrejas, fábricas, conventos, hospitais, escolas. Em relação ao Brasil, deixou de conhecer somente terras que correspondem atualmente às regiões Norte e Centro-Oeste.

Embora não tivesse previsto um conflito armado com o Paraguai e estivesse totalmente despreparado para uma guerra, o governo brasileiro reagiu de imediato atendendo aos apelos da opinião pública à invasão do território nacional. Com a vitória na guerra, os militares voltaram cheios das ideias republicanas e passaram a fazer críticas ao regime monárquico e ao poder pessoal do imperador, divulgando através do Manifesto Republicano a incompatibilidade da monarquia com a democracia. Mas não fazia nenhuma referência à questão da abolição da escravidão. O imperador não deu muita atenção ao manifesto e ao movimento. Na verdade revelava-se um grande admirador das ideias republicanas e dizia que se o povo não o quisesse como imperador, seria professor.

Na parte central do livro, José Murilo da Carvalho realiza uma seleção por meio de fotos da trajetória do Imperador d. Pedro II como em suas viagens, a família imperial, cenas do cotidiano do Brasil, charges da época e pessoas destacadas na obra.

Uma paixão marcou tanto a vida de Pedro de Alcântara como o do imperador d. Pedro II: a paixão pelo Brasil, possibilitando que o homem que os obrigava a se dedicar integralmente à tarefa de governar o Brasil por meio século, realizasse com os valores republicanos, com a minúcia de um burocrata e com a paixão de um patriota. Foi respeitado por quase todos, mas não foi amado por quase ninguém.

A obra é indicada para todas as pessoas; não se restringe a um grupo específico. O leitor encontrará um imperador bem diferente de tudo que já foi escrito, livre dos pudores e da etiqueta obrigatória, mas aquele amante das ideias e das mulheres, avesso às festas e às cerimônias oficias consideradas enfadonhas. Pode-se esperar um imperador moderno para época, favorável às ideias abolicionistas, simpatizante das ideias republicanas e que viveu o exercício do poder como um verdadeiro fardo.

BURKE, Peter. A Invenção da Biografia e o Individualismo Renascentista, 1997.

Peter Burke é professor de História da Cultura na Universidade de Cambridge e escreve mensalmente para a seção “Autores” do suplemento “Mais!”, do jornal Folha de São Paulo. Dentre suas publicações em âmbito nacional destacam-se: História social da linguagem (Ed. UNESP), A arte da conversação (Ed. UNESP), Cultura popular na Idade Moderna (Companhia das Letras), Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet (Jorge Zahar), entre outras. “Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot”, originalmente publicado no ano de 2000 e traduzido para a língua portuguesa em 2003, resultou de uma série de conferências promovidas pela Universidade de Croningen, na Holanda. No artigo “A Invenção da Biografia e o Individualismo Renascentista”, com tradução de José Augusto Drummond em 1997 http://www.cpdoc.fgv.br, o autor revela sua insatisfação com a visão tradicional sobre o tema e sua sensação de estranhamento e certo desconforto ao ler as Biografias do Renascimento.

Burke esclarece que os estudiosos do Renascimento sabem que Jacob Burckhardt afirmou que no Renascimento ocorreu “um desabrochar do indivíduo”, e sabem que ele ilustrou sua afirmação com o fenômeno da ascensão da biografia (inclusive a autobiografia). Outro fato quase tão conhecido é que depois de Burckhardt aconteceu uma “revolta dos medievalistas” contra a visão negativa que ele teve da Idade Média, incluindo-se aí a idéia de que faltou a esse período histórico um sentido de individualidade. Para ele o problema é que essas biografias não são (ou não são inteiramente) biografias no sentido que damos ao termo. Elas não discutem o desenvolvimento da personalidade, freqüentemente ignoram a cronologia e em geral introduzem materiais aparentemente irrelevantes, dando uma impressão de ausência de forma. O que mais desconcerta o leitor é que esses textos estão repletos de topoi, anedotas sobre uma pessoa já contadas sobre outras pessoas. Os historiadores ficam desconcertados quando manuseiam esses textos do passado, mas certamente deveriam evitar – e nem sempre evitaram – a tentação de desprezar seus autores como incompetentes. O desafio é dar uma interpretação positiva aos aspectos da biografia renascentista até agora considerados negativos (fatos sem relevâncias, falta de sensibilidade à mudança.).

A estratégia adotada pelo autor neste artigo será a de seguir os pensamentos de Robert Darnton, usar nossa sensação de estranhamento como um ponto de partida para “captar a condição do outro”, para explorar certas diferenças entre o presente e o passado, inclusive a mutante “categoria da pessoa”.

Depois de uma breve revisão da ascensão da biografia na Europa do Renascimento, Peter Burke discute as regras contemporâneas do gênero e sua relação com a cultura mais ampla, para concluir com a análise de alguns poucos textos, com certo nível de detalhamento e com alguma profundidade.

Desde Burckhardt, foram relativamente poucos os estudos feitos sobre a biografia renascentista – por oposição à autobiografia. De toda forma, esse período histórico testemunhou um perceptível aumento do interesse tanto pela escrita quanto pela leitura de biografias, primeiro na Itália e depois em outros lugares. Na Itália do século XVI, a biografia se tornou um componente ainda mais importante da paisagem cultural. A essa altura, no entanto, o gênero biográfico estava crescendo rapidamente também fora da Itália.

A primeira convenção: quem eram as pessoas cujas vidas eram consideradas tema apropriado para uma biografia? No mundo antigo predominaram governantes e filósofos, mas havia também um pequeno espaço disponível para generais e literatos. No Renascimento, como vimos, foram escritas biografias de governantes como Alfonso de Aragão e Cosimo de Medici, de escritores como Dante e Petrarca, de filósofos como Ficino e Pico e de condottieri como Niccolo Piccinino e Braccio Montone. O repertório agora se expandia para incluir mulheres e artistas e incluíam ainda indivíduos de outras culturas. As convenções das biografias renascentistas variavam de acordo com o seu contexto. Nesse período, tal como na antiguidade clássica, a morte de uma pessoa famosa era freqüentemente uma oportunidade para uma oração fúnebre que mais tarde talvez fosse publicada, o equivalente ao obituário nos dias atuais.

Entretanto, o contexto da biografia ao qual o autor enfatiza tem sido curiosamente ignorado pelos estudiosos. A partir de fins do século XV, eram freqüentes que as vidas dos escritores fossem escritas e publicadas como prefácios de suas obras. Esta questão ilustra a ascensão do conceito da individualidade da autoria, o pressuposto de que as informações sobre um escritor nos ajudam a entender suas obras. Ainda destaca cinco pontos relativos às convenções da biografia renascentista. Primeiro, embora algumas biografias tivessem organização cronológica, a estrutura normal era temática ou tópica. Segundo, as profecias sobre a grandeza futura do herói era um tema recorrente nas biografias renascentistas, tal como nas vidas dos santos medievais ou dos grandes homens da antiguidade. Terceiro, era dispensada uma atenção considerável pelas biografias a eventos que os historiadores modernos (pelo menos até recentemente) deixariam de lado como “meros rituais”. Quarto, existem paralelos entre o estilo da biografia renascentista e o estilo da ficção do período, objetivo era revelar dados sobre a personalidade dos biografados. Quinto, enfatiza o lugar ocupado em muitas biografias desse período pelas falas dos personagens e especialmente pelo diálogo. Contudo, o diálogo se torna cada vez mais freqüente e dramático nos textos do século XVI.

O autor revela que a origem do termo em inglês e em francês, biography ou biographie são termos pós-renascentistas, adotados no final do século XVII. Na Alemanha, Biographie é do fim do século XVIII, embora Lebensbeschreibung possa ocasionalmente ser encontrado no século XVI. No entanto, a idéia de uma vida “escrita” pode ser encontrada na Idade Média. O termo biographia foi cunhado na Grécia no fim do período antigo. Antes disso, falava-se em escrever “vidas”.

A afirmação de Plutarco, tão relevante para o conceito do indivíduo único, é o tema central do restante do artigo. A distinção feita por Plutarco entre história e biografia foi freqüentemente reafirmada nesse período. Gesta Ferdinandi de Lorenzo Valla (1445-6) foi criticado pelos contemporâneos por fazer referências às gargalhadas do rei e aos roncos de outro rei, sob o argumento de que ele deveria estar escrevendo história, que deveria ser mais dignificada que a biografia. No entanto, o entusiasmo dos renascentistas por Plutarco exige um comentário. Pode-se dizer que a época era propícia a redescobertas – mas talvez também houvesse condições propícias nos séculos XII e XIII. O livro de Plutarco era ao menos um estímulo para escrever daquela maneira, legitimando o interesse pela vida privada, a personalidade única e a aparência física dos indivíduos.

Para Burke duas diferenças principais se destacam entre as categorias renascentistas e as nossas: em primeiro lugar a noção de exemplaridade. A prática renascentista de se referir aos príncipes em particular como um “novo Augusto”, um “segundo Carlos Magno”, e assim por diante, mostra claramente essa tendência. Em segundo lugar, o pressuposto de que a personalidade é estática, o produto fixo de um equilíbrio de humores e, para alguns escritores, o resultado inevitável de uma constelação de fatores ligados ao nascimento. Características aplicadas em geral às biografias do século XVII. Só no século XVIII se vislumbra uma mudança, com a noção de que a personalidade passa por um processo de desenvolvimento.

O artigo de Peter Burke é indicado para todas as pessoas que têm interesse em assuntos referentes ao Renascimento e a origem das biografias. Por apresentar um vocabulário de fácil entendimento torna-se acessível e destacam-se dados e fatos curiosos da vida privada. O autor realiza inovações na medida em que apresenta as características bem como analisa as primeiras biografias e suas finalidades.

A educação para além do capital, autor István Mészáros, editora Boitempo, 2005.

Benedito Carmo da Silva Junior

A certeza de que o caminho para uma vida melhor passa pela educação é hegemônica na atualidade. O simples fato de um país, seja no oriente ou no ocidente, independente de sua crença religiosa, estar inserido num mundo altamente interligado pelas relações comerciais que chamamos de globalização, coloca o desafio de preparar seu povo para uma competição sem fronteiras.
Com certeza também esta idéia hegemônica não foi moldada pela escola, por um governo ou um grupo de pessoas em um determinado país de caso pensado e esquematizado para conceber o mundo desta forma. Entretanto, esta idéia circula pela sociedade formando um processo que o autor chama de internalização de um saber disseminado e apreendido pelas pessoas, independente da educação formal.

Sem dúvida, existiram ao longo dos séculos do capitalismo tentativas e esforços de implementar e consolidar a acumulação de capital em benefício de uma classe dominante. Seria inconcebível romper a lógica de uma estrutura social pela simples conjunção de forças reformadoras no seu tempo. Assim como no exemplo da ordem feudal, onde servos não poderiam subverter a ordem dominante dos senhores pelas regras reformistas do feudalismo, a lógica do capital não pode ser rompida pelas limitações impostas pelo seu domínio dentro da sociedade mundial atual. Isso implica que o capital é irreformável e sempre procura se adequar às mudanças ocorridas ao longo de suas crises.

O processo de internalização do saber se dissemina na sociedade pelo pressuposto que a educação é contínua e dinâmica ao longo de tida a vida de uma pessoa, da juventude à velhice, e isso ultrapassa os limites de uma educação institucionalizada. Pois bem, se ocorre isto qual é o papel da escola frente a este processo? Muito simples, a escola não oferece condições, seja por falta de interesse, ou desconhecimento, para ser um espaço para romper o processo de internalização da lógica do capital dentro da sociedade. Deste modo, não consegue formular uma alternativa que possa contrabalançar e irradiar novas perspectivas para conceber o mundo, em outras palavras não contribui (ou contribui muito pouco) para a formação crítica na vida das pessoas.

A escola perdeu ou está perdendo a oportunidade de contribuir para ser este espaço ao reproduzir a lógica do capital dominante. Não por culpa dela mesma, mas por ser conduzida por uma sociedade extremamente internalizada pelo espírito individualista e de competição.

Há uma necessidade de se elevar o nível intelectual do debate acerca deste processo de dentro para fora da escola, para que este se espalhe pela sociedade e faça com que a escola cumpra uma função social. As maneiras de se alcançar este objetivo passa pelo desafio da educação continuada, onde a educação deixa de ser vocacional, orientada para um fim utilitarista e geral onde se trabalha algumas habilidades de pensamento, ambas são de cunho paternalista e não visam a emancipação do sujeito como agente histórico.

Fazer com se abra uma nova perspectiva de encarar o mundo é a proposta de uma Educação para além do capital destruindo qualquer possibilidade de aceitar reformas no sistema capitalista e de acabar com a auto-alienação do trabalho. O acesso aos bens produzidos através da autogestão (livre associação de trabalhadores) pode fazer romper o círculo vicioso do capital, onde as crises e a exclusão social são alimentadas pelas superproduções, desperdício e escassez para a satisfação de uma classe cada vez mais rica e reduzida que se beneficia desta lógica perversa. Sendo assim, defende o autor, a educação deve ser transformadora e emancipadora de modo a reverter o processo de internalização que permeia a sociedade. Estas premissas são inseparáveis e devem estar em associação uma com a outra. Caso contrário, a educação fica suspensa no ar, separadas do contexto pós-moderno que atravessa a sociedade. Ainda adverte o autor, ou a educação avança por este caminho ou fracassa como mola motora de mudança social.

Mais do que tratar de um tema complexo e de desdobramentos polêmicos acerca do papel da educação na atualidade, o livro nos faz refletir sobre a postura do educador frente a crescente mercantilização do saber numa sociedade internalizada pela lógica capitalista. Da privatização dos espaços até a transformação do conhecimento em mercadoria, o capital se transforma e supera crises, transmutando-se para proteger o lucro, utilizando inclusive a educação formal ou outras formas mais violentas para isso. Mesmo que no Brasil as formas de disseminação de sua lógica sejam mais sutis, assistimos de dentro da escola, a pressão sobre um sistema público educacional para o sucateamento e a privatização do saber através do crescimento das escolas particulares.

O incrível é que temos a total liberdade dentro da escola pública para uma educação emancipadora e transformadora, mas a conjunção de fatores torna o espaço escolar cada vez menos essencial para a educação continuada e para a vida. A impressão que vejo como educador é que em algumas comunidades a internalização da lógica de mercado prevalece e se torna cada vez mais sedutora para jovens, onde tudo acontece muito rápido e refletir sobre seu papel num mundo cada vez mais desigual é pura perda de tempo, afinal tempo é dinheiro.

CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: Uma Discussão Conceitual, 1995.

Patrícia Ribeiro de Castro Abbud

José Murilo de Carvalho é professor titular do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de obras como “A Formação das Almas” que retrata a República através de textos e imagens, a tradução fidedigna das batalhas travadas na construção de uma identidade para um novo estado republicano no Brasil, e “Forças Armadas e Política no Brasil”, onde busca investigar características organizadas e aspectos internos da instituição militar, o que abriu um novo debate público sobre a organização militar e seu papel na sociedade. Em seu trabalho “Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: Uma Discussão Conceitual”, apresentado no simpósio “Nation-Building in Latin-American: Conflict Between Local Power and National Power in the Nineteen Century”, analisa a terminologia usada para discutir o poder local desde o Período Colonial até a Primeira República. O enfoque será nos conceitos de mandonismo, coronelismo e clientelismo, ressaltando as noções de feudalismo e patrimonialismo.

A grande proposta do autor ao desenvolver o artigo está relacionada exatamente ao uso incorreto de alguns conceitos básicos como o mandonismo, o coronelismo e o clientelismo. Existem muitas imprecisões e equívocos sobre esses três conceitos. Agora a questão da relação entre poder local e o poder nacional vai além de discussões conceituais, Carvalho diz que esta questão torna-se um problema de análise, pesquisa e conceituação. Existe segundo ele, uma discordância entre esses conceitos básicos porque tais conceitos são complexos, uma vez que clientelismo e patrimonialismo são conceitos mais universais e coronelismo e mandonismo são conceitos mais específicos.

A partir da obra de Victor Nunes Leal houve a difusão do conceito do coronelismo. No entanto, mesmo tendo essa obra como referência, alguns autores o utilizam em sentindo distinto. O texto vem esclarecer ao leitor de forma clara, prática e, acima de tudo, inovadora, que alguns conceitos são relacionados, mas não são sinônimos, de modo que cada um possui sua especificidade além de representarem períodos diferentes de evolução.

Murilo esclarece inicialmente o conceito de coronelismo, como um sistema político nacional que envolve desde o poder local municipal, até o poder federal, numa verdadeira rede de troca de favores. Isso aconteceu em virtude da implantação do federalismo pela República, proporcionando o fortalecimento do governador de Estado apoiado pelas oligarquias locais representadas pelos coronéis. Coexistiam vários coronéis, desde latifundiários até comerciantes, médicos e padres. Nem sempre isolados, alguns envolvidos em comércio de exportação como os coronéis baianos da Chapada Diamantina, envolvidos tanto na política estadual como na federal. O poder federalista se consolidou na gestão de Campos Sales (1898) com a Política dos Governadores. Segundo ele era dos Estados que se governava a República, “A política dos Estados é a política nacional”.

Essa transformação ocorrida na Primeira República, de 1889 a 1930, permitiu o domínio dos cargos públicos por parte dos chefes locais apoiados pelo governo estadual, sobretudo na forma de votos. É a perda do controle econômico que leva o coronel a necessitar do apoio do governo para continuar como classe dominante. Assim, de acordo com o autor, o Estado reduz suas tarefas à mera coleta de impostos, abrindo precedente para a distribuição irregular dos cargos públicos que ficavam a mercê dos donos do poder. O coronelismo determina uma fase longa de relacionamento entre os fazendeiros e o governo, fenômeno declinante somente a partir da década de 30 sendo extinto com o Estado Novo e conseqüentemente com a queda de Flores da Cunha (último caudilho gaúcho).

Em contrapartida está o mandonismo, conceito que mais se aproxima do caciquismo. Existe desde o período do Brasil enquanto colônia e ainda permanece em regiões mais remotas do país. Segundo o autor, é uma característica da política tradicional e um fenômeno que sempre existiu. O chefe ou o mandão geralmente personificado na pessoa do coronel é aquele que em função da posse da terra exerce sobre a população um domínio pessoal e ilícito que a impede o acesso a sociedade política. Percorre uma trajetória sistematicamente decrescente. Quando os cidadãos fizerem uso de seus direitos políticos e civis, sua atuação estará comprometida, daí a necessidade da formação da cidadania.

De acordo com Carvalho outro conceito muito usado pela literatura internacional e confundido com o coronelismo é o clientelismo. Ao contrário do mandonismo, pode aumentar e diminuir ao longo da história, já que é característica predominante em toda a história política do país. Alguns autores o vêem como um tipo de coronelismo urbano. O diferencial das relações clientelísticas é a ausência da figura do coronel, pois esse fenômeno se ampliou com o fim do coronelismo. A partir do enfraquecimento dos chefes políticos locais, o governo passa a tratar diretamente com os eleitores.

O autor destaca as críticas ao conceito de coronelismo de Leal. Sendo que a mais contundente foi realizada por Cammack, este nega o poder dos coronéis ao controlar voto e transformá-lo em mercadoria política. Acusa ainda Leal de não ver os coronéis como classe social. Sobre o compromisso político se há falha é apenas formal. Primeiro porque a entrega dos cargos públicos tem um sentido muito mais que político, na medida em que a justiça está a serviço dos mandões e que o controle do cargo público se torna um instrumento de dominação. Em segundo lugar porque os interesses dos donos do poder não eram desafiados pelos governos ou pelos trabalhadores. Não se colocava em questão o poder dos coronéis como classe.

No Brasil, a justiça se caracterizava por estar a serviço dos interesses dos mandões. O aspecto político está ligado ao aspecto econômico. Para Murilo até mesmo uma professora primária era importante para conservar valores indispensáveis à sustentação do sistema. O controle do cargo público é instrumento de dominação e o emprego público fonte de renda. Nesta época não havia movimentos organizados de trabalhadores, existia o messianismo e o cangaço que foram reprimidos. Até a independência os coronéis eram hostis ao poder do governo, depois passaram a controlar a política nacional, submetendo o Estado aos seus desígnios. No império, a Guarda Nacional, criada durante a Regência como força paralela ao exército, foi a grande instituição patrimonial que ligou proprietários rurais ao governo. As autoridades patrimoniais serviam gratuitamente. Estavam a serviço do sistema imperial como delegados de polícia e ainda pagavam do bolso suas fardas, assim a justiça estava nas mãos de poucos, a Igreja dava seu aval. Depois do patrimonialismo ocorre a burocracia do Estado, já gestada no Império, na República a manutenção da ordem passa a ser burocrática como no caso dos delegados, dos funcionários públicos, por isso surgiram as polícias militares no lugar da Guarda Nacional, a Igreja se separa do estado e ocorre o registro civil, o coronelismo aparece com o recuo do patrimonialismo e o avanço da burocracia.

Para Murilo, o Estado é privatizado na medida em que age em função dos interesses da classe proprietária e o importante na discussão não é se houve dominação ou não, pois isso é fato. Mas qual a origem dessa dominação? Existe uma discordância entre os historiógrafos quanto à natureza da dominação brasileira, há os que dizem que ela foi gerada no conflito de classes. Na sociedade de mercado que surgiu na transformação do feudalismo na moderna sociedade industrial via representação de interesses, partidos políticos, liberalismo político. Outros, dizem que ela foi gerada na expansão lenta do poder do Estado que aos poucos penetra na sociedade e engloba as classes via patrimonialismo, clientelismo, coronelismo, populismo e corporativismo.

A leitura é mais indicada para um público específico como professores e historiadores, na medida em que exige conhecimentos prévios sobre o assunto e tende a aprofundá-los. Em relação ao poder das oligarquias no Brasil, traz algumas inovações como o poder que emanava dos diversos estados, principalmente dos mais poderosos; a decadência econômica dos fazendeiros acarretava o enfraquecimento do poder político dos coronéis frente aos rivais e dependentes; domínio dos cargos públicos, principalmente entre famílias rivais; a existência de coronéis comerciantes e do coronelismo urbano.