Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

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MEMÓRIAS CURTAS

Joaquim Mota de Almeida

Inumeráveis foram as vezes em que me questionei sobre o porquê de minha mania de coletar coisas que para os outros são considerados velharias. Eu tinha nove anos e estava fazendo o primário na escola de Piranguinho. Ela localizava-se nas imediações da Estação e ficava próxima de um sobrado onde morava Dona Nicota Gomes e a sua filha Maria José Gomes. Dona Nicota era viúva do Sr. Leonino Gomes que fora comerciante havia muitos anos passados no andar térreo desse sobrado. Num determinado dia, ao sair da escola, vi na rua em frente a esse sobrado um amontoado de papéis e livros que pertenceram ao comércio do Sr. Leonino. Aproximei-me e percebi que aquele amontoado ali estava para ser queimado. Pedi, então, a Dona Nicota que me desses aqueles livros para guardá-los. Ela me respondeu que não, que era velharia e só ocupava lugar. Nesse instante, a sua filha Maria José perguntou-me para que queria aqueles livros. Simplesmente respondi que iria guardá-los; ela sorriu e me deu aquele amontoado todo. Vim buscar a carrocinha de mão em minha casa e pedi ao Zezinho Monteiro, que trabalhava para os meus pais, que me ajudasse trazer aquela papelada. Quando cheguei em casa com o carrinho abarrotado de papéis e livros velhos, minha mãe estrilou e não os deixou entrar. Meu avô, Joaquim Motta, que estava por perto, prontificou-se a buscar em sua fazenda uma canastra grande para que eu guardasse a papelada.

A outra vez em que levei bronca de minha mãe, por causa de papéis e livros velhos, foi em 1950. Para desocupar lugar, o Sr. Sebastião Pereira Machado, ex-Subdelegado de Polícia de Piranguinho entre 1930 e 1945, retirou de seu escritório os papéis e livros de Ocorrências Policiais para incinerá-los. Pedi-lhe, ele sorriu, perguntou-me se eu pretendia criar um museu e me deu o material. Meu avô, Joaquim Motta, arranjou-me outra canastra e guardei mais uma papelada. Não contendo os anseios por coisas do passado, passei a coletar e arquivar os livros borradores dos estabelecimentos comerciais que existiram em Piranguinho: livros de anotações de algumas fazendas da região, dezenas de anotações particulares e várias fotografias antigas.

O desejo de registrar os acontecimentos de Piranguinho foi despertado em mim quando, em 1957, as professoras da Escola Mista, Dona Maria José Caridade Carneiro e Dona Geraldina Carneiro (Dona Lili), me expuseram que a Escola completaria cinqüenta anos no dia 28 de outubro de 1959 e que elas gostariam de prestar homenagens à fundadora Almerinda Valente de Lima. O problema era que não tinham fotografia dela. Dona Lili havia conseguido uma foto da formatura da primeira turma de alunos da Escola, de 1912. A foto encontrava-se em mau estado de conservação, mas dava para ver os alunos formandos na frente e por detrás três adultos: duas mulheres e um homem. Essas mulheres certamente eram as professoras e uma delas seria a Dona Almerinda. Dona Maria disse-me que havia levado a foto para o fotógrafo Noronha, em Brazópolis, para que ele a ampliasse e a tornasse mais nítida, mas ele não dispunha de recursos para atendê-la. Dona Almerinda morreu em 1914 e não existia mais em Piranguinho alguém que a conhecera, mas seria muito significativa para a história da Escola a fotografia de sua fundadora. Fui, então, incumbido de descobrir quem era a Dona Almerinda e ampliar a sua foto.

Na ocasião eu tinha um cinema em Piranguinho e com freqüência ia a São Paulo para contratar os filmes. Numa dessas idas, levei a foto a uma firma especializada “Fototica”. Ela foi ampliada e projetada numa tela. Observei-a atentamente e saí de lá preocupado para meditar um pouco. A minha preocupação era de dar o veredicto final sobre as duas mulheres na foto e qual seria Dona Almerinda. Voltei novamente a observar a foto, pedi que a ampliasse mais, observei que uma das mulheres trajava um vestido comum de nossa região e os cabelos presos por trás em forma de peruca. A outra trajava um vestido com gola alta, usava brincos e tinha as sobrancelhas aparadas, e isso não era comum em nossa região. Outro detalhe que observei foi que esta última não estava olhando para a máquina fotográfica no instante da foto. Já sabia que Dona Almerinda era uma pessoa viajada e que, antes de ter vindo para Piranguinho, morara no Rio de Janeiro e, provavelmente, era acostumada ser fotografada. Decidi-me por essa última. Mandei ampliar a foto, retocá-la, emoldurá-la e a trouxe para Piranguinho. A partir daí tornou-se o retrato oficial daquela que foi uma grande benfeitora de nossa cidade.

Desde então passei a registrar os acontecidos de Piranguinho, coloquei em seqüência as velhas papeladas que eu havia guardado e continuei coletando ainda mais. Meu avô Joaquim Motta passou-me os livros borradores da antiga fazenda do Capote; meu tio Ildefonso Motta emprestou-me o retrato da primeira Igreja de Piranguinho; o tio Neco Motta deu-me o retrato da segunda igreja construída em 1906, e depois, muitos outros retratos dessa época. Entrevistei inúmeras pessoas de idade que sabiam alguma coisa sobre o início de Piranguinho e muitas delas me surpreenderam com objetos e fotos daquela época. Em 1960, mudei-me para São Paulo e estabeleci-me no comércio com uma mini-fábrica de rádios receptores, mas não deixei de levar comigo as papeladas antigas para transcrevê-las.

Em 1964 aconteceu a Revolução e com isso surgiram as greves, instabilidade comercial e falta de segurança. Esses acontecimentos obrigaram-me transferir a mini-fábrica de rádios para Brazópolis e, com a parceria da “Assumitel”, instalei-a num barracão de uma antiga máquina de beneficiar café do Sr. José Aniceto Gomes. O Sr. José Aniceto já idoso, mas lúcido, praticamente nos fazia companhia o dia todo na fábrica de rádios, com assuntos agradáveis. Vivia de rendas de sua fazenda e de seus imóveis urbanos em Brazópolis. Entendia de máquinas, era um hábil torneiro mecânico e gentilmente nos prestava seus serviços. Num determinado dia, contei-lhe que estava registrando os acontecimentos do início de Piranguinho. Ele sorriu e me perguntou se registrara sobre a represa do engenho de serra; respondi-lhe que registrara o que me haviam contado. Novamente ele sorriu e convidou-me para ir a sua casa à noite. Morava num sobrado datado de 1907, nas imediações da estação ferroviária e logo acima de onde estava instalada a fábrica de rádios. Em sua casa, ele mostrou-me inúmeras fotos da represa do engenho de serra, dos barracões de alojamentos dos trabalhadores, das madeiras sendo serradas, das pilhas de dormentes e da grande mata que circundava a represa. Disse-me que conheceu a represa do engenho desde o seu início em 1882, que ele e seu primo Henrique Braz iam todos os sábados e domingos passar o dia e andar de canoa na represa, que ele fora o primeiro da região a fazer uma canoa de alumínio para ficar leve de transportar até a represa do engenho. Falou que a represa era um lugar muito bonito, cercado por árvores, tinha muitos peixes que eles pescavam de canoa e ali mesmo assavam e comiam. Nos fins de semana e dias-santos muita gente de Brazópolis, de Itajubá e das roças ia passear na represa do engenho. Iam muitas moças bonitas, mas iam muitas que eram de “matar com pedras”. Nesse instante ele se calou e observei que se havia emocionado e estava chorando.

Na noite seguinte voltei a sua casa. Ele concluiu o assunto da noite anterior e depois me disse que o seu tio Chico Braz havia comprado as terras do engenho de serra com a concessão da produção de dormentes. Falou-me sobre a Baronesa Leocádia, que era solteirona, bonitona, fina, elegante e muito rica. Em tom de brincadeira ele disse que era moço de vinte e dois anos, mas se casaria com ela. Contou que no sábado de carnaval de 1889 havia bastante gente se divertindo na represa do engenho quando lá chegaram quatro homens da ferrovia e anunciaram que estava para ser construída uma nova estação no Engenho de Serra. Pediram que todos dessem sugestões para o nome dessa nova estação. Disse-me que nesse dia riu bastante ao ouvir quantas besteiras, quantos nomes bestas foram sugeridos, nomes de bichos e nomes que não representavam nada, e que era preferível continuar o nome Engenho de Serra. No dia seguinte, era o domingo de carnaval e a gentarada divertia-se na represa quando os mesmos homens da ferrovia apareceram e deram tiros pra cima para chamar a atenção de todos. Falaram através de campânula: “é coisa séria dar o nome para a nova estação porque depois não poderá ser mudado. Voltamos a pedir para vocês sugerirem esse nome naquela guarita azul ali ao lado.” Aí sim, o pessoal conversou, trocou idéia e surgiu o nome “Piranguinho”, que em tupi significa peixe pequeno: era o que tinha muito lá, e todo mundo aplaudiu. Disse-me que, em 1899, se associou com o tio Chico Braz para a construção e implantação de máquinas para beneficiar arroz e café em Piranguinho, que foi inaugurada em 1901.

Falou-me sobre Maximiana da Costa Manso, como era, porque o seu tio Chico Braz a mandou para Piranguinho e o que aconteceu depois. Contou-me que foi ele quem projetou e administrou a instalação de água encanada em Piranguinho em 1909 e a inaugurou em 1910. Que o seu tio Chico Braz colocou muitos dos seus primos em Piranguinho: colocou o Manoel Gomes da Rocha para zelar da água, Ursulino Gomes para cuidar do Cartório, João Gomes para zelar da limpeza, e outros mais. “Eu acho que tio Chico Braz só cometeu um grande erro: foi em 1913 quando ele passou as suas terras de aforamentos para serem administradas pelo Padre Herculano daqui de Brazópolis. Tio Chico Braz morreu em 1914 e esse Padre apossou-se de todas essas terras.” Continuou: “aqui não se chamava Brazópolis, chamava-se São Caetano da Vargem Grande”. Já era meia noite e meia do dia 4 de dezembro de 1964 quando me despedi do Sr. José Aniceto; abracei-o, agradeci-o muito e me retirei. Registrei tudo da forma como que me contou. Infelizmente, na década de 1970, um incêndio em sua casa destruiu seus pertences e todo seu acervo histórico sobre a região. O que o Sr. José Aniceto Gomes me contou sobre o início de Piranguinho abriu novos horizontes para os meus próprios registros.

As minhas conversas com os mais velhos permitiram-me não apenas recolher fatos que pude comprovar em arquivos como os da ferrovia, em Cristina, em cartórios e livros das paróquias de Piranguinho e Brazópolis, mas também outras histórias que, em minha saudade, imaginei serem interessantes apenas para mim. Instado pelos integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica, resolvi torná-los públicos agora, para serem utilizados por quem deles se interesse. Dos casos mais recentes, eu próprio fui testemunha ou participei. Às vezes as memórias parecem compor um anedotário, mas se referem a situações que “de fato” interferiram na vida e no sentimento do povo. Começo falando sobre assombrações que assustaram muitos dos antigos moradores dessa cidade, cujos descendentes ainda vivem e podem ou não comprovar o que narro.

Fantasmas são espíritos de pessoas mortas que se manifestam com seus antigos aspectos aos vivos. Comumente os fantasmas se manifestam nos locais de sua existência anterior. Muitos, por convicção, crêem e respeitam a presença e manifestações dos fantasmas. A idéia mais aceita é de que estas estranhas aparições de fantasmas se dão por algumas situações injustas não resolvidas quando em vida e que deveriam ser remediadas antes de partirem para o repouso definitivo. Assombração e fantasma são palavras de muitos significados, usadas em vários contextos. Suas conotações expressam admiração, abalo, medo, pavor e curiosidade que fascinam a todos. Portanto, os fantasmas e as assombrações, em termos metafísicos, ocupam o estágio entre a vida e a vida após a morte. Assim, os fantasmas manifestam um tipo de vida após a morte, proporcionando alívio para a aflição humana de, um dia, deixar de existir. Para aqueles que temem a morte, a visão de fantasmas serve de consolo já que prova a sobrevivência do espírito e, de certa forma, deixa aberta a possibilidade de uma futura dimensão da vida. Além de qualquer crença na sua existência sobrenatural, os fantasmas expressam em muito a natureza humana. Não abandonam as antigas lembranças e comportamentos, pois suas características mais importantes são as memórias. Os fantasmas são projeções temidas, porém desejadas, por expressarem a segunda chance que todos desejam.

Em Piranguinho foram registradas várias ocorrências de fantasmas. Na época do engenho de serra e do advento da ferrovia, entre 1882 e 1904, os trabalhos nos desaterros e aterros dos leitos das linhas eram feitos manualmente por muitos trabalhadores braçais e a terra era transportada em zorras puxadas por bois e cavalos. Devido ao grande número de trabalhadores, ocorriam muitos acidentes, às vezes fatais. A ferrovia mantinha uma farmácia com ambulatório nas imediações dos trabalhos para atendimento aos acidentados menos graves. Como não havia cemitério nessa região, os acidentados fatais eram sepultados nas imediações da projetada linha férrea. Durante muitos anos, as pessoas diziam ver fantasmas caminhando, em diferentes horas da noite, pela linha férrea, entre o pontilhão onde existia o engenho de serra até a ponte de ferro sobre o Rio Sapucaí. Em 1948, os moradores pediram ao padre de Brazópolis que encomendasse as almas daqueles infelizes para que eles tivessem paz. O padre atendeu aos pedidos e, seguido por uma multidão, simbolicamente transladou os restos mortais desses fantasmas de onde foram enterrados para o cemitério local. Desde então, afirmaram os moradores, os fantasmas desapareceram.

Ficou famoso o caso do “Fantasma da Baronesa”, ocorrido entre os anos 1907 e 1918. Nessa época, com freqüência, entre as 16:00 e 22:00 horas, o fantasma da “Baronesa” Leocádia de Lourenço era visto caminhando com a sua bengala pela linha férrea próximo ao engenho de serra e ali permanecia mesmo com o tráfego dos trens ou da presença de pessoas. Esse relato foi feito por várias pessoas idôneas, que testemunharam o fenômeno. Entre elas se encontram: Dona Júlia Cândida, Dona Negrinha esposa do Sr. José Pedro da Silva; Sr. Antonio Gomes e Sr. Francisco Corrêa. Dona Leocádia de Lourenço era proprietária dessas terras e tinha participação na produção do engenho de serra. Ela morava em sua fazenda dos Mourões, no município de Itajubá, e mandara construir uma barca no Rio Sapucaí para sua travessia. Com freqüência vinha passar o dia no engenho de serra para acompanhar a produção. Esse percurso entre sua fazenda e o engenho era feito a cavalo ou de liteira. Em 1888, ela vendeu essas terras juntamente com a concessão do engenho ao Coronel Francisco Braz Pereira Gomes e nessa ocasião fez construir uma ampla e requintada casa para sua residência na praça central em Itajubá. Em 1901, essa nova casa passou a ser sua residência permanente. Sua fazenda e suas terras eram administradas por um administrador de sua inteira confiança que lhe foi indicado pelo seu falecido pai Augusto Caetano de Lourenço. A “Baronesa” Leocádia, que era solteira, adoeceu em 1903 e fez o testamento deixando seus bens para serem divididos entre os negros que eram seus escravos e que permaneceram a seu serviço após 1888, sem exceção. Faleceu em março de 1905, em Itajubá, e não deixou família. Seu sepultamento se deu no cemitério daquela cidade. Seu desejo não foi cumprido; o testamento foi negado aos beneficiários e acabou sendo destruído pelo incêndio ocorrido no Fórum de Itajubá.

Esses fenômenos tornam-se oportunidades para investigarmos fatos passados. Alguns deles ocorrem ainda hoje. Desde há muito tempo ocorre um fenômeno interessante na Rua de Baixo (Gregório Motta) e na Rua da Ponte de Zinco (Paulo Carneiro). Esse fenômeno vem sido observado por muitos desde a década de 1920 e na atualidade já foi presenciado por muitos moradores dessas ruas. Em certas noites, ouvem-se tropéis de cavalos sem nada ser visto, geralmente após as 22 horas, mas já foi observado por muitos entre as 19 e 23 horas. Em outubro de 1982, tive a oportunidade de observar o fenômeno pela primeira vez às 22:30 aproximadamente. Eu estava em casa, um sobrado na Rua Gregório Motta, 32, e comigo estava meu empregado João da Silva (Pampinha). Estávamos conversando quando ouvimos persistentes tropéis de cavalos na rua em frente. Subimos para o andar de cima da casa e saímos à janela; nada víamos, mas continuávamos a ouvir os tropéis. João da Silva ficou receoso e afastou-se da janela; eu permaneci a observar. O som era semelhante ao de vários cavalos a galope que estariam a uns quarenta metros de minha casa. Pareciam estacionados naquele lugar, mas lentamente se deslocavam pela rua. Fiquei aguardando passarem em frente a minha casa. Tive receio, mas pude controlá-lo; nada vi além de ouvir os sons dos tropéis.

Já tinha ouvido muita gente falar desse fenômeno, inclusive meu pai, meu avô Joaquim Motta, tio Chico Almeida, Sebastião Machado e o antigo morador da Rua de Baixo, Miguel Januário, mas nenhum deles dissera como o fenômeno se apresentava. Nessa noite pude observá-lo e constatar a sua veracidade. Sempre julguei os comentários como frutos da imaginação ou superstições. O curioso desse fenômeno é que não se sabe quando ele se manifestará; acontece, quando menos se espera. Baseando-me na experiência possível, que se pode manifestar no tempo e no espaço através da intuição sensível e segundo as leis do entendimento, equipei-me com câmera fotográfica, filmes de infravermelho, gravador de som e fiquei na expectativa para fotografá-lo e gravar os sons dos tropéis. Procurei indagar dos atuais moradores da Rua Gregório Motta, se já tinham ouvido, à noite, algo estranho e semelhante nessa rua. Muitos disseram que não e poucos disseram que sim inclusive o Sr. José Simplício, morador nessa rua por mais de dez anos. Ele afirmou que por duas vezes esteve para se levantar a fim de afugentar uns cavalos que ficavam troteando em frente a sua casa. Perguntei-lhe porque não se levantou para ver o que era. Respondeu-me que era quase meia-noite e estava chovendo nas duas vezes, e quando ia se levantar, os cavalos saíram trotando rua abaixo.

Mais algum tempo se passou quando novamente ouvi os tropéis: foi num sábado após às 22 horas. Havia quermesse da festa de Santa Isabel e tinha bastante gente na praça. Em frente a minha casa morava o Comandante do Destacamento Policial de Piranguinho, Sargento Venturelli. Na janela, preparei a câmera fotográfica e o gravador de som. Os tropéis vieram se aproximando lentamente em minha direção; pus o gravador a gravar e iniciei a bater fotos com filme de infravermelho. Os tropéis passaram em frente e tomaram a esquerda em direção à atual Rua Paulo Carneiro. Logo em seguida, o Sargento Venturelli saiu na janela, viu-me e perguntou se eu sabia quem estava trotando nos cavalos aqui na frente. Respondi-lhe que no dia seguinte comentaria com ele. O filme foi revelado e nada registrou, mas os sons foram gravados.

Interessei-me pelo fenômeno e passei a investigar sua origem. Sem abordar o fato, entrevistei alguns moradores antigos de Piranguinho: Agostinho Honório, Luiz Ferreira e José Pinto de Oliveira (Barão). Perguntei-lhes se sabiam de algum acontecimento marcante do passado nas ruas de Baixo e na da Ponte de Zinco e que envolvesse cavalos. O Sr. Luiz Ferreira respondeu-me que ainda era um menino de onze anos, em 1918, quando aconteceu um acidente na Rua de Baixo no qual morreu o cavaleiro arrastado por cavalos. Existiam, em Piranguinho, desde há muito tempo, vários mercadores de cavalos e burros. Eles negociavam animais nos currais que existiam nas imediações da Estação Ferroviária. Um desses mercadores se chamava Manoel Augusto Siqueira, que morava próximo da ponte de zinco (onde atualmente se encontra o barracão da Prefeitura) e conduzia os animais presos uns aos outros por cabrestos de sua casa até aos currais na Estação. De lá, para sua casa, ele os conduzia da mesma forma. Trazendo-os de volta, numa noite de agosto de 1918, ao passar pela Rua de Baixo, os animais estouraram e saíram a galope pela rua abaixo. Ele ficou preso no cabresto do cavalo em que estava montado e foi arrastado e mutilado. Partes de seu corpo foram encontradas na Rua de Baixo e na Rua da Ponte de Zinco. Os pedaços foram recolhidos num saco e sepultados nessa mesma noite. Após ter ouvido o relato do Sr. Luiz Ferreira, perguntei-me: haveria relação entre o fenômeno dos tropéis de cavalos e esse acidente?

No final de setembro de 1991, às 21:30 aproximadamente, os tropéis foram novamente observados na Rua Gregório Motta. Nessa oportunidade, foi presenciado também pelos soldados militares Paulino da Silva Oliveira e José Luiz Dias dos Santos. Por saber do que se tratava, observei-o com mais naturalidade, mas os demais ficaram atônitos e em silêncio até que tudo acabasse. Logo em seguida, comentamos sobre o acontecido. Paulino e José Luiz Dias foram até a Rua Paulo Carneiro na expectativa de saberem aonde esses tropéis iriam, mas nada conseguiram.

Antes de abandonar lembranças que beiram o sobrenatural, quero registrar aqui dois casos muito comentados nos velhos tempos. O primeiro diz respeito à famosa pedra da Laje. Contavam que, em 1908, no local onde atualmente se localiza o Bairro Laje, havia um sítio de propriedade de Jorge Gonçalves da Silva, viúvo que morava com os filhos João e Lucas. O filho mais velho, Lucas, planejou matar o pai para se tornar dono absoluto do sítio. Para realizar seu intento, pegou uma espingarda carregada com chumbos grossos e, de madrugada, foi aguardar de tocaia sobre uma pedra a passagem de seu pai. Quando seu pai se aproximava conduzindo as vacas leiteiras, para garantir a pontaria do tiro, ajoelhou-se numa laje de pedra. No instante em que puxou o gatilho, seu joelho direito e os dedos do pé cravaram-se na pedra. O tiro não atingiu o pai, mas o atirador ali ficou inerte, agonizante até a morte. Desde então esse fenômeno passou a atrair visitantes curiosos, cientistas e religiosos. O fluxo de visitantes era tanto que os administradores do ramal ferroviário de Piranguinho a Paraisópolis fizeram construir, em 1916, um ponto de trem próximo ao local, que recebeu o nome de Parada Henrique Braz. Eu mesmo, quando na escola, participei de uma excursão organizada por Dona Maria José Caridade e pude colocar meu joelho e meu pé nas marcas famosas. A pedra da laje deixou de ser visitada quando, em 1958, foi soterrada pela construção da rodovia MG-295.

O segundo fato está relacionado a um misterioso profeta. No ano de 1919, veio passar temporada em Piranguinho um homem desconhecido na região que se apresentou como Sebastião Mello. Aqui permaneceu por mais de cinco anos e nesse período demonstrou ser um qualificado arquiteto e pintor de telas embora não exercesse mais essas atividades. Era pessoa culta e comunicativa, razão pela qual conquistou a amizade e a simpatia de muitos moradores. Seu português era clássico, sabia o francês e dominava o latim. Seus assuntos eram elucidativos e relacionados ao social, normas de vida e princípios religiosos que partiam do Alcorão. Seu assunto preferido era o futuro, por isso apelidaram-no de Profeta. Por fazer severas críticas às imposições do Papa Gregório XIII e à alteração do calendário ocorrido em 1582, acabou provocando também a antipatia dos muitos moradores e do pároco de Brazópolis. Suas previsões foram comprovadas com o passar dos tempos e as que mais marcaram foram: 1) no início da década de 1920 haveria escassez na agricultura devido à prolongada seca que assolaria todo o país; 2) nessa mesma década a maioria dos fazendeiros do país faliria com as suas lavouras; 3) aconteceria um levante revolucionário com a participação de todos os estados e esse levante mudaria o conceito do Brasil; 4) por questões políticas, Minas Gerais teria que se defender com luta armada; 5) antes da metade do século, aconteceria uma grande guerra que envolveria o mundo todo.

De suas previsões, a primeira aconteceu no ano de 1922, quando o Brasil sofreu a maior seca até então registrada na sua história, e houve escassez na agricultura. A segunda previsão aconteceu no ano de 1929 quando houve a crise do café devido à quebra da Bolsa de Nova York, e muitos fazendeiros do Brasil quebraram. A terceira aconteceu em outubro de 1930 com o movimento político-militar que derrubou o presidente Washington Luiz, levando ao poder Getúlio Vargas, e, radicalmente, o projeto sócio-econômico do Brasil foi modificado. A quarta aconteceu nos meses de julho a outubro de 1932, com a revolução constitucionalista, e Minas Gerais teve que travar luta armada para impedir a invasão dos paulistas em seu território. A quinta previsão, por fim, aconteceu nos anos de 1939 a 1945, com a segunda guerra mundial desencadeada na Europa, da qual o Brasil participou. Sobre esse personagem, Sebastião Mello, ninguém soube dizer de onde era, de onde veio e nem para onde foi. Soube-se que era uma pessoa de relativa posse financeira, por ficar hospedado na Pensão de Dona Maria Cândida durante todo esse tempo, pagando pontualmente sua hospedagem.

Desses casos todos, quero destacar a insistência da “Baronesa” em continuar visitando os lugares em que viveu. Ela me faz pensar no papel das mulheres na construção de nossa cidade. Poderia falar de Dona Almerinda e de tantas outras, mas recordo aqui o que meu avô falava daquela mulher forte que quase caiu no esquecimento total. Não nos esqueçamos que, além de mulher – o que já não conta muito para os livros de história –, era negra. Segundo o meu avô, Joaquim Pereira Motta Sobrinho, quando, em 1901, Maximiana da Costa Manso liderou a construção de pau-a-pique da primeira igreja católica em Piranguinho, ela poderia tê-la construída pomposamente de tijolos e coberta com telhas, pois dispunha do apoio do Coronel Francisco Braz Pereira Gomes para fazer o que fosse preciso no arraial. Mas Maximiana determinou que fossem os próprios negros, ex-escravos, que construíssem sua igreja, pois assim se sentiriam orgulhosos de realizar uma obra para eles mesmos. Não nos esqueçamos que a imagem de São Benedito para essa igreja foi esculpida em madeira também por um descendente de escravo chamado Candinho Siqueira da Cruz.

Alguns outros personagens foram responsáveis pela formação de certos costumes em nossa cidade, pelo menos durante algum tempo. No início de 1900, mudou-se cá, vindo de São Bento do Sapucaí, Daniel José Pedro (Danielzinho) com sua família. Ele era fogueteiro e estabeleceu-se no comércio com uma mini-indústria de fogos de artifícios. Diariamente, ele fazia estourar alguns de seus fogos para testá-lo e assim os moradores contraíram a mania de soltar foguetes por quaisquer motivos. Soltavam foguetes quando começava a construção de uma casa e soltavam também quando a terminava. Soltavam foguetes em aniversários, nos casamentos e nos batizados. Soltavam foguetes nas festas religiosas, nas procissões e nos dias santos. Soltavam foguetes nas competições esportivas e soltavam também quando Piranguinho recebia visitas ilustres: era um constante e desvairado foguetório. Os novos moradores, que para cá se mudaram em 1922, profundamente irritados, solicitaram intervenção policial para que se diminuísse o entusiasmo dos fogueteiros. Para atender a solicitação foi destacado para cá, em 1923, um Cabo da Polícia Militar, chamado Gervásio Medeiros. O cabo tentou coibir o uso de foguetes, mas a proibição não foi acatada e aumentou ainda mais o foguetório. Cabo Gervásio ficou no Distrito apenas uma semana e, ao partir, foguetes estouraram por cima do trem como despedida.

A mania de foguetes continuou até quando foi deflagrada a revolução de 1930 e o Exército proibiu terminantemente quaisquer estouros. Danielzinho fogueteiro morreu em 1944 e deixou a mini-indústria para o filho José Benedito da Silva (José Daniel) e a nora Emiliana Maria da Silva. José Daniel, que se tornou sacristão da paróquia, continuou com o ofício do pai juntamente com sua esposa e os filhos Luiz Floriano, Lamaneres (Nésio), Isabel e Vanda da Silva. A mini-indústria foi extinta na segunda metade da década de 1950.

As duas Revoluções, no início dos anos 1930, misturam-se na cabeça dos mais velhos. A proximidade de São Paulo e a presença de soldados aqui trouxeram medo à população, mas também provocaram fatos que durante muito tempo fizeram parte da memória do povo. O Exército havia colocado sua tropa dentro de Piranguinho e conta-se que, um dia, ocorreu uma confusão danada. Na madrugada de 22 de agosto, alguém fez uma brincadeira de mau gosto para assustar os soldados. Uma bateria de bombas estourou no pontilhão da estrada de ferro, próximo ao atual Marco Zero. Ao investigar o fato, um grupo de soldados pensou que a tropa paulista estava atacando e disparou contra outro grupo. Estava escuro e, no tiroteio, três soldados da mesma tropa foram mortos. Somente muito tempo depois se ouviu dizer que fora o Ernesto da Maria Caetana quem havia estourado as bombas no pontilhão.

Uma outra história aparece no JORNAL DE PIRANGUINHO (Órgão Oficial da Intendência Municipal) com a data de 1º de Maio de 1963 – número 9, impresso na última página do Jornal BRAZOPOLIS (Órgão Oficial dos Poderes Municipais) de 12 de maio de 1963, número 2.004. Alguém recorda ali: “Voltou-nos à memória, então, o dia histórico em que Piranguinho foi palco de um combate militar. Foi em 1930, num dia do outubro fatídico. Em nossa cidade de Piranguinho havia alguns voluntários armados de revólveres e de espingardas de caça. Foi quando surgiu do outro lado da ponte da Rede, um trem militar, conduzindo soldados do Exército. Dali há (sic) pouco retumbava um tiroteio medonho. O Sr. Garrido, construtor da Igreja, estava trabalhando pacificamente, trepado no último andaime. Ao ouvir assoviar, sinistramente, as primeiras balas, não teve tempo de procurar um refúgio melhor, deitou-se aí mesmo no andaime, protegido pela grossura dos muros e esperou acabar o tiroteio. Não durou muito. No final, a Igreja tinha tomado algumas balas que riscaram seus tijolos, sem causar dano de monta.”

A ferrovia e seus trens também deixaram histórias. Em 1902, ocorreu o descarrilamento da locomotiva de número 98 no Km 105, nas imediações da fazenda do Capote. O aterro do leito da linha férrea cedeu e a locomotiva caiu numa lagoa próxima. Todos os esforços das pessoas que estavam por perto e dos trabalhadores da fazenda para evitar que ela afundasse foram inúteis; o fundo da lagoa era de argila e areia movediça. Os técnicos da ferrovia tentaram recuperá-la, mas decidiram abandona-la e lá ela permanece até então. Segundo os depoimentos das pessoas que colaboraram fornecendo laços e cabrestos para amarrar a locomotiva à espera do socorro da Ferrovia, esta lagoa encontra-se na direção reta da casa da fazenda do Capote ao Rio Sapucaí. Depois desse incidente, os encarregados da ferrovia alteraram o curso da linha férrea instalando-a próximo à Capela do Capote.

Outro caso de descarrilamento proporcionou uma boa história de suspense e mistério, um enredo a ser apresentado em quatro atos. Conforme relatos dos antigos moradores, na noite de 02 de agosto de 1902, nas imediações do quilômetro 101 da ferrovia entre Piranguinho e Pimenteiras, um trem que transportava valores da Companhia Inglesa Seleers, empreiteira da construção da ferrovia nesse trecho do Sul de Minas, descarrilou. Os valores destinavam-se aos pagamentos de seus empregados e das desapropriações das terras no curso da linha férrea. Nessa noite chovia torrencialmente e, por força das circunstâncias, o trem aí teve que pernoitar. Sem que os encarregados do transporte percebessem, esses valores que estavam acondicionados em quatro malas de couro foram furtados. O Comando Policial Militar de Três Corações foi acionado e intensas buscas foram realizadas nos leitos dos rios, lagoas, matas e nada foi encontrado. Permaneceu na região por mais de vinte dias, vistoriou todas as casas, tulhas, cisternas, fossas, quintais, plantações, e interrogou a população. O registro policial cita que os valores contidos nessas malas eram em libras esterlinas e pesavam aproximadamente oitenta e seis quilos. Pelo peso e o formato das malas seria necessário quatro pessoas no mínimo para transportá-las. A ocorrência foi arquivada.

Anos depois, em meados de 1942, muitos moradores das imediações do quilometro 101 afirmaram ter encontrado um homem desconhecido na região, alto, loiro, aparentando sessenta anos, de pouca prosa e de palavreado estrangeiro. Outros tantos moradores afirmavam terem visto esse mesmo homem rondando as Santas Cruzes existentes nas imediações. As pessoas que conversaram com o desconhecido relataram que ele lhes mostrara algumas moedas parecidas ser de ouro e lhes perguntara se conheciam dessas moedas. Os relatos causaram muitos comentários associando esse desconhecido ao furto do trem no quilômetro 101. Depois desses comentários, o desconhecido não mais foi visto na região.

No final de setembro de 1945, Oscar Bibiano da Cruz, morador de Piranguinho, casado, pedreiro e conhecido na região, afirmou ter sido contratado por um senhor idoso, loiro e estrangeiro para lhe prestar um serviço extra após a hora de seu trabalho. Na noitinha de 29 de setembro, ele acompanhou esse senhor para lhe prestar o tal serviço que ele nunca especificou. Ao chegarem ao lugar determinado, apercebeu-se de que se tratava de algo que estava enterrado. Já estava escuro e ele só dispunha no momento de um lápis e um pedaço de papel de saco de cimento; fez então o esboço do local e retornou para sua casa. No dia seguinte, à noite, no armazém de Maurício Gomes da Rocha, ele comentou o fato com amigos e lhes mostrou o esboço que havia feito. O fato espalhou-se como sendo o mapa do esconderijo dos valores roubados do trem no quilômetro 101. No dia primeiro de outubro aconteceriam as eleições para Presidente da República entre os candidatos Eurico Gaspar Dutra e Brigadeiro Eduardo Gomes. Quando Oscar Bibiano, eleitor em Brazópolis, viajou para lá, sua casa foi arrombada e o esboço que fizera do suposto escondido, desapareceu. A ocorrência foi registrada na Delegacia de Polícia, na presença do Subdelegado Sebastião Pereira Machado. Aconteceu que Oscar Bibiano teve morte súbita e suspeita, diagnosticada como causada por intoxicação alimentar, logo no início de outubro. Seis meses depois, o esboço reapareceu em mãos de alguém e foi apreendido pelo então Subdelegado de Polícia João Carvalho de Castro (João Soldado). Acabou sendo arquivado juntamente com a ocorrência do arrombamento da casa do falecido. Nessa ocasião, os moradores de Piranguinho iam até a Delegacia para ver e conhecer o tão comentado esboço do esconderijo.

Em 1958, eu, João Aparício e Harley de Almeida nos propusemos decifrar o tal esboço. Consideramos que ele fora feito à noite, com pouca luminosidade e quem o esboçara era pedreiro e dispunha de um pedaço de papel de saco de cimento e lápis do tipo carpinteiro. Certamente não necessitaria de maiores detalhes por ser ele mesmo que iria desenterrar o que estava ali escondido. Partindo-se dessa hipótese, admitimos que um dos desenhos desse esboço fosse de uma Santa Cruz no alto de uma estrada. O outro desenho com o escrito “oliu” certamente seria uma árvore de Óleo Pardo comum nessa região. O desenho com o escrito “Per” poderia ser uma árvore Pereira. O desenho com uma seta apontando para um círculo ligado a um outro círculo menor, provavelmente seria uma pedra maior próxima a uma outra pedra menor demarcando o local do esconderijo. Na época desse acontecimento, existiam várias Santas Cruzes nas imediações de Piranguinho. A mais próxima delas localizava-se no início da estrada para a fazenda dos Neves; uma outra encontrava-se no fim da reta da estrada de ferro, próxima do sítio do Sr. José Pedro; outra localizava-se na estrada para a fazenda dos Rennós; outra na estrada para o Capote; outra no início da estrada para Itajubá e outras duas se encontravam na estrada para o Mato Dentro.

Consideramos que estas Santas Cruzes, construídas desde antes de 1900, sempre nas margens das estradas e nos pontos mais altos para serem avistadas de todos os lados, eram locais apropriados para se esconder o “tesouro”. Seus terrenos, medindo quatro braças de frente por sete braças de fundo, cercados com arame farpado, eram considerados sagrados e neles se sepultavam os defuntos das fazendas próximas. Apesar de nossas brilhantes deduções e de intrincados esforços, não conseguimos identificar o local. Os valores roubados nunca foram encontrados, mas não descarto a possibilidade de continuarem escondidos nalgum lugar nessa região.

Pensando no passado, não resisto à tentação de fazer uma comparação com o presente. A atual população piranguinhense desfruta dos avanços tecnológicos conquistados nos últimos trinta anos, mas muitos já se esqueceram como era difícil a vida nos velhos tempos. De 1910 a meados da década de setenta, havia um único telefone em Piranguinho. Ele era público, acionado por manivela e dependia de telefonista para fazer as ligações. A central telefônica ficava em Itajubá e de lá partia uma única linha que interligava Piranguinho, São José do Alegre e Pedralva, de forma que, quando uma dessas localidades estava utilizando o telefone, as demais tinham que aguardar. Uma ligação telefônica de Piranguinho para outra localidade próxima demorava de uma a duas horas. Ligações telefônicas para lugares distantes eram mais demoradas e apresentavam ruídos interferentes que dificultavam as comunicações.

A energia elétrica, que abastecia a localidade desde 1910 até meados da década de sessenta, era fornecida pela Companhia Sul Mineira de Eletricidade de Itajubá, e a usina geradora era a de São Bernardo, nas imediações de Piranguçu. Havia um único e insuficiente transformador distribuidor de energia elétrica para o abastecimento de toda Piranguinho, de forma que, durante o dia, quando se ligavam os motores das máquinas beneficiadoras de arroz, o abastecimento elétrico residencial era insuficiente para fazer funcionar um rádio-receptor. Aos domingos e feriados, o fornecimento elétrico era interrompido entre 6 e 13 horas, a fim de racionar a água da represa que acionava a usina geradora. Nenhuma residência possuía geladeira ou chuveiro elétrico. Os fogões eram à lenha e muitos deles eram adaptados com serpentinas para aquecimento central de água, a fim de abastecer chuveiros e banheiros. O abastecimento de água encanada existia desde 1910. Era municipal e tornou-se insuficiente a partir da década de cinqüenta, em virtude do crescimento populacional e do aumento de consumo. Para contornar a escassez de água, a maioria das casas possuía cisternas.

Na década de cinqüenta, já em minha juventude, recordo os entretenimentos noturnos da moçada: ver os trens de passageiros na estação, reunir-se no jardim da praça para conversar e ouvir músicas pelo alto-falante do cinema, ouvir rádio-novela ou ler livros. Havia um cine-teatro, onde eram exibidos filmes nas quartas-feiras, sábados e domingos, se não faltasse energia elétrica. Muitos jovens trabalhavam durante o dia e outros tantos cursavam o ginasial em Itajubá e em Brazópolis. Eles iam para os estudos nos trens da madrugada e voltavam nos trens da tarde ou da noite.

O primeiro receptor de televisão foi implantado no final da década. Era novidade e muita gente vinha conhecê-lo. Na época, só existiam duas emissoras de televisão no Brasil: TV Tupi de São Paulo e TV Rio do Rio de Janeiro. As transmissões eram de meio período por dia e em preto e branco. A TV Tupi era a única que alcançava Piranguinho e, para captá-la, foi necessária a implantação de antenas especiais no pico dos Dias e antena rômbica no receptor. Mesmo assim, a recepção era instável em dias normais; quando chovia, ventava ou relampejava, o sistema apresentava pane e o sinal era interrompido.

O assunto predominante da rapaziada era o presidente ambicioso que governava o Brasil, cujo slogan era realizar em cinco anos o que não foi realizado em 50. O seu governo estava realizando obras faraônicas, mas também estava contraindo dívidas faraônicas; até mesmo havia lançado mão dos recursos do INPS. Numa época em que o Brasil era carente de estrutura básica para seu crescimento industrial, carente de energia elétrica, de meios de comunicação, de educação e de assistência à saúde, o governo, sem abalizar as conseqüências, estava construindo Brasília num lugar onde não havia estrada, água, nem energia elétrica. Os materiais eram transportados por aviões sem considerar os altos custos; ainda mais, ele havia abandonado as necessárias conservações do sistema ferroviário do país. Seu governo durou até 31 de janeiro de 1961 e os que o sucederam enfrentaram altas dívidas, inflação galopante e o povo descontente.

Nessa época eu já conversava muito com os mais velhos e recolhia a papelada velha que hoje compõe o meu arquivo pessoal. Sem muita formação histórica, sentia que uma cidade é formada por seu povo e suas memórias. Por isso, encerro estas lembranças com um pouco de nostalgia, na esperança de que o conhecimento do passado ainda seja útil para a formação das pessoas.

Ai que saudades das festas de outrora em Piranguinho! Havia festas de São Sebastião, de Nossa Senhora Aparecida e de Santa Isabel. Havia as barracas da festa e cada uma delas tinha seu nome e sua cor. As moças e rapazes que trabalhavam nessas barracas eram uniformizados com suas cores. Havia concursos de bonecas e as candidatas eram selecionadas entre as meninas mais comunicativas e engraçadinhas de Piranguinho. A Igreja era decorada com flores e outras tantas ornamentações pelas moças e senhoras da Liga Católica: Inácia Pedroso, Nicota Carneiro, Fia Moreira, Isabel Colorado Motta, Júlia Vilas Boas, Nicota Gomes, Maria José Gomes, Nuria de Almeida, Zizica de Almeida, Ciloca Machado, Terezinha Antunes e Samaritana Antunes.

Essas festas eram realizadas nos primeiros domingos do mês e nove dias de antecedência havia novenas a noite com rezas de terços pelo “Sô Danielzinho”. Durante a novena, as barracas da festa, montadas ao lado da Igreja, funcionavam e a praça ficava animada com muita gente. Nós, garotada, brincávamos no jardim e balançávamos nas barquinhas dos parques de diversões que aqui se instalavam nessas ocasiões. No domingo da festa, a gente já acordava no raiar do dia com som da banda de música fazendo alvorada. A gente levantava cedinho, vestia roupa nova, calçava sapatos também novinhos e saía para ver a banda de música e as barraquinhas que se instalavam na praça. Encontrava os colegas de escola e, juntos, visitávamos todas as barraquinhas. Iniciávamos pela que vendia brinquedos, ioiôs, bilboquês, joguinhos, quebra-cabeças e relógios-fantasias de pulso. Era grande a variedade de produtos que essas barraquinhas vendiam, nelas se encontravam artigos religiosos, material de costura, adornos femininos, perfumes, bijuterias, chapéus, meias, relógios, ferramentas de carpintarias e agrícolas. Havia barraquinhas de pastéis feitos na hora, de jogos de roletas, de jogos de dados, de fura-fura e de sorteios.

A cerimônia religiosa iniciava às 8 horas com celebração da Missa pelo Padre Joaquim de Oliveira Noronha (Quinzinho). Às 10 horas iniciava-se o leilão no coreto todo enfeitado com bandeirolas coloridas e cartuchos com quitandinhas e doces. Os leiloeiros eram os senhores Alípio da Silva e Benedito da Silva (Sô Garcia). Os assados de leitoas e frangos eram os primeiros a serem leiloados; depois eram as roscas, pães folhados com chocolate, cartuchos e prendas. O desenrolar do leilão era abrilhantado pelo som da banda de música. Os leilões de gado e cabritos realizavam-se às 14 horas nos mangueiros cedidos por Joaquim Pereira Motta Sobrinho e Sebastião Pereira Machado. Às 15:30 horas realizava-se a procissão dos fiéis conduzindo os andores pelas ruas centrais; o andor de São Benedito ia na frente da procissão, em seguida era o de Menino Jesus, por último era o do santo festeiro e no fim da procissão ia a banda de música. O que nós, garotada, gostávamos mesmo era de acompanhar o “Sô” Danielzinho bem na frente da procissão, soltando os seus foguetes de vara. O encerramento da festa se dava com queima de fogos pirotécnicos e a banda de música tocando o dobrado “Até outra vez”.

Pensando bem, é difícil acreditar que tudo mudou e que estejamos vivos até hoje! Nos últimos anos houve uma desmedida explosão de inovações, e tendências… As mercadorias dos armazéns e os remédios não tinham lacres especiais de segurança e nem data de validade, e ninguém morreu por isso! A gente bebia água de chuva, de poço, da torneira e tinha boa saúde! Nossos intestinos nunca se encheram de bichos estranhos… No máximo, a gente tomava purgante contra vermes e fortificava com óleo de fígado de bacalhau! Se a gente gripasse, se curava com chás de alho e alguns comprimidos… Os vírus não eram tão contaminadores e resistentes! A gente construía os brinquedos e se divertia com eles!

Na escola, a gente tinha que saber a tabuada de cor e salteada, resolver as quatro operações fundamentais sem calculadora! As professoras eram dedicadas e exigentes, não davam moleza… Castigavam se fosse necessário e não eram recriminadas por isso! A gente saía de casa e brincava o dia todo, nossos pais nem sempre sabiam onde estávamos, mas tinham a certeza de que não estávamos usando drogas!

A gente comia muitas frutas do mato, brincava na poeira e nas palhas do arroz, tomava chuva e pisava na lama… Mas ninguém ficava doente e nem contraía alergia… Nem se falava em alergia!A gente dividia uma garrafa de guaraná entre dois ou três colegas; bebíamos no próprio bico e sem gelo… Ninguém se contaminava com isso! A gente nadava no rio e bebia de sua água… Eles não eram poluídos pelos esgotos… Nem se conhecia micose! Nossas iniciativas eram “nossas”, mas as conseqüências também, e ninguém se escondia atrás do outro! Nossos pais nos colocavam de castigo e nos batiam se desobedecêssemos às regras… Mas nenhum deles era preso por isso! A gente sabia e obedecia; quando nossos pais diziam “Não” era “Não” mesmo!

A gente ganhava brinquedos no Natal e no aniversário, e não todas as vezes que queríamos… Nossos pais nos davam presentes por amor e não por dever! Não existia gravador de fitas, não tinha televisão, nem videocassete, nem computador, nem Internet… Tínhamos bons amigos e bons livros! A gente ia à casa dos amigos, entrava e conversava… sozinhos num mundo sem medo e sem maldade! A gente levantava cedinho para ver e ouvir a passarada cantar na praça… Não existia o mata-mato que envenena as sementeiras que a passarinhada come!

A gente ficava nas beiras das matinhas para ver os coelhos do mato transitarem e brincarem… Não envenenavam as matinhas e nem as queimavam! Aos 17 e 19 anos, a gente procurava o primeiro contato sexual em uma zona de meretrício, e sem camisinha… Ninguém se contaminava com doenças sexuais… AIDS não existia! A gente namorava, mas era somente namorar! A gente ia a casamentos, mas com a certeza que o primeiro filho daquele casal só nasceria depois de nove meses! A mãe da gente era “Mãe” mesmo… Não agredia a gente no seu útero com ultra-som para saber o nosso sexo!

A gente veio de uma geração que produziu inventores, artistas, amantes da música, das artes e da cultura. Tínhamos liberdade, sucesso, algumas vezes problemas e desilusões, mas tínhamos responsabilidade e sabíamos resolver tudo isso… sozinhos. Se você também é um destes sobreviventes… Parabéns! Você curtiu os anos mais felizes da sua vida.

MEMÓRIAS CURTAS

Joaquim Mota de Almeida

Inumeráveis foram as vezes em que me questionei sobre o porquê de minha mania de coletar coisas que para os outros são considerados velharias. Eu tinha nove anos e estava fazendo o primário na escola de Piranguinho. Ela localizava-se nas imediações da Estação e ficava próxima de um sobrado onde morava Dona Nicota Gomes e a sua filha Maria José Gomes. Dona Nicota era viúva do Sr. Leonino Gomes que fora comerciante havia muitos anos passados no andar térreo desse sobrado. Num determinado dia, ao sair da escola, vi na rua em frente a esse sobrado um amontoado de papéis e livros que pertenceram ao comércio do Sr. Leonino. Aproximei-me e percebi que aquele amontoado ali estava para ser queimado. Pedi, então, a Dona Nicota que me desses aqueles livros para guardá-los. Ela me respondeu que não, que era velharia e só ocupava lugar. Nesse instante, a sua filha Maria José perguntou-me para que queria aqueles livros. Simplesmente respondi que iria guardá-los; ela sorriu e me deu aquele amontoado todo. Vim buscar a carrocinha de mão em minha casa e pedi ao Zezinho Monteiro, que trabalhava para os meus pais, que me ajudasse trazer aquela papelada. Quando cheguei em casa com o carrinho abarrotado de papéis e livros velhos, minha mãe estrilou e não os deixou entrar. Meu avô, Joaquim Motta, que estava por perto, prontificou-se a buscar em sua fazenda uma canastra grande para que eu guardasse a papelada.

A outra vez em que levei bronca de minha mãe, por causa de papéis e livros velhos, foi em 1950. Para desocupar lugar, o Sr. Sebastião Pereira Machado, ex-Subdelegado de Polícia de Piranguinho entre 1930 e 1945, retirou de seu escritório os papéis e livros de Ocorrências Policiais para incinerá-los. Pedi-lhe, ele sorriu, perguntou-me se eu pretendia criar um museu e me deu o material. Meu avô, Joaquim Motta, arranjou-me outra canastra e guardei mais uma papelada. Não contendo os anseios por coisas do passado, passei a coletar e arquivar os livros borradores dos estabelecimentos comerciais que existiram em Piranguinho: livros de anotações de algumas fazendas da região, dezenas de anotações particulares e várias fotografias antigas.

O desejo de registrar os acontecimentos de Piranguinho foi despertado em mim quando, em 1957, as professoras da Escola Mista, Dona Maria José Caridade Carneiro e Dona Geraldina Carneiro (Dona Lili), me expuseram que a Escola completaria cinqüenta anos no dia 28 de outubro de 1959 e que elas gostariam de prestar homenagens à fundadora Almerinda Valente de Lima. O problema era que não tinham fotografia dela. Dona Lili havia conseguido uma foto da formatura da primeira turma de alunos da Escola, de 1912. A foto encontrava-se em mau estado de conservação, mas dava para ver os alunos formandos na frente e por detrás três adultos: duas mulheres e um homem. Essas mulheres certamente eram as professoras e uma delas seria a Dona Almerinda. Dona Maria disse-me que havia levado a foto para o fotógrafo Noronha, em Brazópolis, para que ele a ampliasse e a tornasse mais nítida, mas ele não dispunha de recursos para atendê-la. Dona Almerinda morreu em 1914 e não existia mais em Piranguinho alguém que a conhecera, mas seria muito significativa para a história da Escola a fotografia de sua fundadora. Fui, então, incumbido de descobrir quem era a Dona Almerinda e ampliar a sua foto.

Na ocasião eu tinha um cinema em Piranguinho e com freqüência ia a São Paulo para contratar os filmes. Numa dessas idas, levei a foto a uma firma especializada “Fototica”. Ela foi ampliada e projetada numa tela. Observei-a atentamente e saí de lá preocupado para meditar um pouco. A minha preocupação era de dar o veredicto final sobre as duas mulheres na foto e qual seria Dona Almerinda. Voltei novamente a observar a foto, pedi que a ampliasse mais, observei que uma das mulheres trajava um vestido comum de nossa região e os cabelos presos por trás em forma de peruca. A outra trajava um vestido com gola alta, usava brincos e tinha as sobrancelhas aparadas, e isso não era comum em nossa região. Outro detalhe que observei foi que esta última não estava olhando para a máquina fotográfica no instante da foto. Já sabia que Dona Almerinda era uma pessoa viajada e que, antes de ter vindo para Piranguinho, morara no Rio de Janeiro e, provavelmente, era acostumada ser fotografada. Decidi-me por essa última. Mandei ampliar a foto, retocá-la, emoldurá-la e a trouxe para Piranguinho. A partir daí tornou-se o retrato oficial daquela que foi uma grande benfeitora de nossa cidade.

Desde então passei a registrar os acontecidos de Piranguinho, coloquei em seqüência as velhas papeladas que eu havia guardado e continuei coletando ainda mais. Meu avô Joaquim Motta passou-me os livros borradores da antiga fazenda do Capote; meu tio Ildefonso Motta emprestou-me o retrato da primeira Igreja de Piranguinho; o tio Neco Motta deu-me o retrato da segunda igreja construída em 1906, e depois, muitos outros retratos dessa época. Entrevistei inúmeras pessoas de idade que sabiam alguma coisa sobre o início de Piranguinho e muitas delas me surpreenderam com objetos e fotos daquela época. Em 1960, mudei-me para São Paulo e estabeleci-me no comércio com uma mini-fábrica de rádios receptores, mas não deixei de levar comigo as papeladas antigas para transcrevê-las.

Em 1964 aconteceu a Revolução e com isso surgiram as greves, instabilidade comercial e falta de segurança. Esses acontecimentos obrigaram-me transferir a mini-fábrica de rádios para Brazópolis e, com a parceria da “Assumitel”, instalei-a num barracão de uma antiga máquina de beneficiar café do Sr. José Aniceto Gomes. O Sr. José Aniceto já idoso, mas lúcido, praticamente nos fazia companhia o dia todo na fábrica de rádios, com assuntos agradáveis. Vivia de rendas de sua fazenda e de seus imóveis urbanos em Brazópolis. Entendia de máquinas, era um hábil torneiro mecânico e gentilmente nos prestava seus serviços. Num determinado dia, contei-lhe que estava registrando os acontecimentos do início de Piranguinho. Ele sorriu e me perguntou se registrara sobre a represa do engenho de serra; respondi-lhe que registrara o que me haviam contado. Novamente ele sorriu e convidou-me para ir a sua casa à noite. Morava num sobrado datado de 1907, nas imediações da estação ferroviária e logo acima de onde estava instalada a fábrica de rádios. Em sua casa, ele mostrou-me inúmeras fotos da represa do engenho de serra, dos barracões de alojamentos dos trabalhadores, das madeiras sendo serradas, das pilhas de dormentes e da grande mata que circundava a represa. Disse-me que conheceu a represa do engenho desde o seu início em 1882, que ele e seu primo Henrique Braz iam todos os sábados e domingos passar o dia e andar de canoa na represa, que ele fora o primeiro da região a fazer uma canoa de alumínio para ficar leve de transportar até a represa do engenho. Falou que a represa era um lugar muito bonito, cercado por árvores, tinha muitos peixes que eles pescavam de canoa e ali mesmo assavam e comiam. Nos fins de semana e dias-santos muita gente de Brazópolis, de Itajubá e das roças ia passear na represa do engenho. Iam muitas moças bonitas, mas iam muitas que eram de “matar com pedras”. Nesse instante ele se calou e observei que se havia emocionado e estava chorando.

Na noite seguinte voltei a sua casa. Ele concluiu o assunto da noite anterior e depois me disse que o seu tio Chico Braz havia comprado as terras do engenho de serra com a concessão da produção de dormentes. Falou-me sobre a Baronesa Leocádia, que era solteirona, bonitona, fina, elegante e muito rica. Em tom de brincadeira ele disse que era moço de vinte e dois anos, mas se casaria com ela. Contou que no sábado de carnaval de 1889 havia bastante gente se divertindo na represa do engenho quando lá chegaram quatro homens da ferrovia e anunciaram que estava para ser construída uma nova estação no Engenho de Serra. Pediram que todos dessem sugestões para o nome dessa nova estação. Disse-me que nesse dia riu bastante ao ouvir quantas besteiras, quantos nomes bestas foram sugeridos, nomes de bichos e nomes que não representavam nada, e que era preferível continuar o nome Engenho de Serra. No dia seguinte, era o domingo de carnaval e a gentarada divertia-se na represa quando os mesmos homens da ferrovia apareceram e deram tiros pra cima para chamar a atenção de todos. Falaram através de campânula: “é coisa séria dar o nome para a nova estação porque depois não poderá ser mudado. Voltamos a pedir para vocês sugerirem esse nome naquela guarita azul ali ao lado.” Aí sim, o pessoal conversou, trocou idéia e surgiu o nome “Piranguinho”, que em tupi significa peixe pequeno: era o que tinha muito lá, e todo mundo aplaudiu. Disse-me que, em 1899, se associou com o tio Chico Braz para a construção e implantação de máquinas para beneficiar arroz e café em Piranguinho, que foi inaugurada em 1901.

Falou-me sobre Maximiana da Costa Manso, como era, porque o seu tio Chico Braz a mandou para Piranguinho e o que aconteceu depois. Contou-me que foi ele quem projetou e administrou a instalação de água encanada em Piranguinho em 1909 e a inaugurou em 1910. Que o seu tio Chico Braz colocou muitos dos seus primos em Piranguinho: colocou o Manoel Gomes da Rocha para zelar da água, Ursulino Gomes para cuidar do Cartório, João Gomes para zelar da limpeza, e outros mais. “Eu acho que tio Chico Braz só cometeu um grande erro: foi em 1913 quando ele passou as suas terras de aforamentos para serem administradas pelo Padre Herculano daqui de Brazópolis. Tio Chico Braz morreu em 1914 e esse Padre apossou-se de todas essas terras.” Continuou: “aqui não se chamava Brazópolis, chamava-se São Caetano da Vargem Grande”. Já era meia noite e meia do dia 4 de dezembro de 1964 quando me despedi do Sr. José Aniceto; abracei-o, agradeci-o muito e me retirei. Registrei tudo da forma como que me contou. Infelizmente, na década de 1970, um incêndio em sua casa destruiu seus pertences e todo seu acervo histórico sobre a região. O que o Sr. José Aniceto Gomes me contou sobre o início de Piranguinho abriu novos horizontes para os meus próprios registros.

As minhas conversas com os mais velhos permitiram-me não apenas recolher fatos que pude comprovar em arquivos como os da ferrovia, em Cristina, em cartórios e livros das paróquias de Piranguinho e Brazópolis, mas também outras histórias que, em minha saudade, imaginei serem interessantes apenas para mim. Instado pelos integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica, resolvi torná-los públicos agora, para serem utilizados por quem deles se interesse. Dos casos mais recentes, eu próprio fui testemunha ou participei. Às vezes as memórias parecem compor um anedotário, mas se referem a situações que “de fato” interferiram na vida e no sentimento do povo. Começo falando sobre assombrações que assustaram muitos dos antigos moradores dessa cidade, cujos descendentes ainda vivem e podem ou não comprovar o que narro.

Fantasmas são espíritos de pessoas mortas que se manifestam com seus antigos aspectos aos vivos. Comumente os fantasmas se manifestam nos locais de sua existência anterior. Muitos, por convicção, crêem e respeitam a presença e manifestações dos fantasmas. A idéia mais aceita é de que estas estranhas aparições de fantasmas se dão por algumas situações injustas não resolvidas quando em vida e que deveriam ser remediadas antes de partirem para o repouso definitivo. Assombração e fantasma são palavras de muitos significados, usadas em vários contextos. Suas conotações expressam admiração, abalo, medo, pavor e curiosidade que fascinam a todos. Portanto, os fantasmas e as assombrações, em termos metafísicos, ocupam o estágio entre a vida e a vida após a morte. Assim, os fantasmas manifestam um tipo de vida após a morte, proporcionando alívio para a aflição humana de, um dia, deixar de existir. Para aqueles que temem a morte, a visão de fantasmas serve de consolo já que prova a sobrevivência do espírito e, de certa forma, deixa aberta a possibilidade de uma futura dimensão da vida. Além de qualquer crença na sua existência sobrenatural, os fantasmas expressam em muito a natureza humana. Não abandonam as antigas lembranças e comportamentos, pois suas características mais importantes são as memórias. Os fantasmas são projeções temidas, porém desejadas, por expressarem a segunda chance que todos desejam.

Em Piranguinho foram registradas várias ocorrências de fantasmas. Na época do engenho de serra e do advento da ferrovia, entre 1882 e 1904, os trabalhos nos desaterros e aterros dos leitos das linhas eram feitos manualmente por muitos trabalhadores braçais e a terra era transportada em zorras puxadas por bois e cavalos. Devido ao grande número de trabalhadores, ocorriam muitos acidentes, às vezes fatais. A ferrovia mantinha uma farmácia com ambulatório nas imediações dos trabalhos para atendimento aos acidentados menos graves. Como não havia cemitério nessa região, os acidentados fatais eram sepultados nas imediações da projetada linha férrea. Durante muitos anos, as pessoas diziam ver fantasmas caminhando, em diferentes horas da noite, pela linha férrea, entre o pontilhão onde existia o engenho de serra até a ponte de ferro sobre o Rio Sapucaí. Em 1948, os moradores pediram ao padre de Brazópolis que encomendasse as almas daqueles infelizes para que eles tivessem paz. O padre atendeu aos pedidos e, seguido por uma multidão, simbolicamente transladou os restos mortais desses fantasmas de onde foram enterrados para o cemitério local. Desde então, afirmaram os moradores, os fantasmas desapareceram.

Ficou famoso o caso do “Fantasma da Baronesa”, ocorrido entre os anos 1907 e 1918. Nessa época, com freqüência, entre as 16:00 e 22:00 horas, o fantasma da “Baronesa” Leocádia de Lourenço era visto caminhando com a sua bengala pela linha férrea próximo ao engenho de serra e ali permanecia mesmo com o tráfego dos trens ou da presença de pessoas. Esse relato foi feito por várias pessoas idôneas, que testemunharam o fenômeno. Entre elas se encontram: Dona Júlia Cândida, Dona Negrinha esposa do Sr. José Pedro da Silva; Sr. Antonio Gomes e Sr. Francisco Corrêa. Dona Leocádia de Lourenço era proprietária dessas terras e tinha participação na produção do engenho de serra. Ela morava em sua fazenda dos Mourões, no município de Itajubá, e mandara construir uma barca no Rio Sapucaí para sua travessia. Com freqüência vinha passar o dia no engenho de serra para acompanhar a produção. Esse percurso entre sua fazenda e o engenho era feito a cavalo ou de liteira. Em 1888, ela vendeu essas terras juntamente com a concessão do engenho ao Coronel Francisco Braz Pereira Gomes e nessa ocasião fez construir uma ampla e requintada casa para sua residência na praça central em Itajubá. Em 1901, essa nova casa passou a ser sua residência permanente. Sua fazenda e suas terras eram administradas por um administrador de sua inteira confiança que lhe foi indicado pelo seu falecido pai Augusto Caetano de Lourenço. A “Baronesa” Leocádia, que era solteira, adoeceu em 1903 e fez o testamento deixando seus bens para serem divididos entre os negros que eram seus escravos e que permaneceram a seu serviço após 1888, sem exceção. Faleceu em março de 1905, em Itajubá, e não deixou família. Seu sepultamento se deu no cemitério daquela cidade. Seu desejo não foi cumprido; o testamento foi negado aos beneficiários e acabou sendo destruído pelo incêndio ocorrido no Fórum de Itajubá.

Esses fenômenos tornam-se oportunidades para investigarmos fatos passados. Alguns deles ocorrem ainda hoje. Desde há muito tempo ocorre um fenômeno interessante na Rua de Baixo (Gregório Motta) e na Rua da Ponte de Zinco (Paulo Carneiro). Esse fenômeno vem sido observado por muitos desde a década de 1920 e na atualidade já foi presenciado por muitos moradores dessas ruas. Em certas noites, ouvem-se tropéis de cavalos sem nada ser visto, geralmente após as 22 horas, mas já foi observado por muitos entre as 19 e 23 horas. Em outubro de 1982, tive a oportunidade de observar o fenômeno pela primeira vez às 22:30 aproximadamente. Eu estava em casa, um sobrado na Rua Gregório Motta, 32, e comigo estava meu empregado João da Silva (Pampinha). Estávamos conversando quando ouvimos persistentes tropéis de cavalos na rua em frente. Subimos para o andar de cima da casa e saímos à janela; nada víamos, mas continuávamos a ouvir os tropéis. João da Silva ficou receoso e afastou-se da janela; eu permaneci a observar. O som era semelhante ao de vários cavalos a galope que estariam a uns quarenta metros de minha casa. Pareciam estacionados naquele lugar, mas lentamente se deslocavam pela rua. Fiquei aguardando passarem em frente a minha casa. Tive receio, mas pude controlá-lo; nada vi além de ouvir os sons dos tropéis.

Já tinha ouvido muita gente falar desse fenômeno, inclusive meu pai, meu avô Joaquim Motta, tio Chico Almeida, Sebastião Machado e o antigo morador da Rua de Baixo, Miguel Januário, mas nenhum deles dissera como o fenômeno se apresentava. Nessa noite pude observá-lo e constatar a sua veracidade. Sempre julguei os comentários como frutos da imaginação ou superstições. O curioso desse fenômeno é que não se sabe quando ele se manifestará; acontece, quando menos se espera. Baseando-me na experiência possível, que se pode manifestar no tempo e no espaço através da intuição sensível e segundo as leis do entendimento, equipei-me com câmera fotográfica, filmes de infravermelho, gravador de som e fiquei na expectativa para fotografá-lo e gravar os sons dos tropéis. Procurei indagar dos atuais moradores da Rua Gregório Motta, se já tinham ouvido, à noite, algo estranho e semelhante nessa rua. Muitos disseram que não e poucos disseram que sim inclusive o Sr. José Simplício, morador nessa rua por mais de dez anos. Ele afirmou que por duas vezes esteve para se levantar a fim de afugentar uns cavalos que ficavam troteando em frente a sua casa. Perguntei-lhe porque não se levantou para ver o que era. Respondeu-me que era quase meia-noite e estava chovendo nas duas vezes, e quando ia se levantar, os cavalos saíram trotando rua abaixo.

Mais algum tempo se passou quando novamente ouvi os tropéis: foi num sábado após às 22 horas. Havia quermesse da festa de Santa Isabel e tinha bastante gente na praça. Em frente a minha casa morava o Comandante do Destacamento Policial de Piranguinho, Sargento Venturelli. Na janela, preparei a câmera fotográfica e o gravador de som. Os tropéis vieram se aproximando lentamente em minha direção; pus o gravador a gravar e iniciei a bater fotos com filme de infravermelho. Os tropéis passaram em frente e tomaram a esquerda em direção à atual Rua Paulo Carneiro. Logo em seguida, o Sargento Venturelli saiu na janela, viu-me e perguntou se eu sabia quem estava trotando nos cavalos aqui na frente. Respondi-lhe que no dia seguinte comentaria com ele. O filme foi revelado e nada registrou, mas os sons foram gravados.

Interessei-me pelo fenômeno e passei a investigar sua origem. Sem abordar o fato, entrevistei alguns moradores antigos de Piranguinho: Agostinho Honório, Luiz Ferreira e José Pinto de Oliveira (Barão). Perguntei-lhes se sabiam de algum acontecimento marcante do passado nas ruas de Baixo e na da Ponte de Zinco e que envolvesse cavalos. O Sr. Luiz Ferreira respondeu-me que ainda era um menino de onze anos, em 1918, quando aconteceu um acidente na Rua de Baixo no qual morreu o cavaleiro arrastado por cavalos. Existiam, em Piranguinho, desde há muito tempo, vários mercadores de cavalos e burros. Eles negociavam animais nos currais que existiam nas imediações da Estação Ferroviária. Um desses mercadores se chamava Manoel Augusto Siqueira, que morava próximo da ponte de zinco (onde atualmente se encontra o barracão da Prefeitura) e conduzia os animais presos uns aos outros por cabrestos de sua casa até aos currais na Estação. De lá, para sua casa, ele os conduzia da mesma forma. Trazendo-os de volta, numa noite de agosto de 1918, ao passar pela Rua de Baixo, os animais estouraram e saíram a galope pela rua abaixo. Ele ficou preso no cabresto do cavalo em que estava montado e foi arrastado e mutilado. Partes de seu corpo foram encontradas na Rua de Baixo e na Rua da Ponte de Zinco. Os pedaços foram recolhidos num saco e sepultados nessa mesma noite. Após ter ouvido o relato do Sr. Luiz Ferreira, perguntei-me: haveria relação entre o fenômeno dos tropéis de cavalos e esse acidente?

No final de setembro de 1991, às 21:30 aproximadamente, os tropéis foram novamente observados na Rua Gregório Motta. Nessa oportunidade, foi presenciado também pelos soldados militares Paulino da Silva Oliveira e José Luiz Dias dos Santos. Por saber do que se tratava, observei-o com mais naturalidade, mas os demais ficaram atônitos e em silêncio até que tudo acabasse. Logo em seguida, comentamos sobre o acontecido. Paulino e José Luiz Dias foram até a Rua Paulo Carneiro na expectativa de saberem aonde esses tropéis iriam, mas nada conseguiram.

Antes de abandonar lembranças que beiram o sobrenatural, quero registrar aqui dois casos muito comentados nos velhos tempos. O primeiro diz respeito à famosa pedra da Laje. Contavam que, em 1908, no local onde atualmente se localiza o Bairro Laje, havia um sítio de propriedade de Jorge Gonçalves da Silva, viúvo que morava com os filhos João e Lucas. O filho mais velho, Lucas, planejou matar o pai para se tornar dono absoluto do sítio. Para realizar seu intento, pegou uma espingarda carregada com chumbos grossos e, de madrugada, foi aguardar de tocaia sobre uma pedra a passagem de seu pai. Quando seu pai se aproximava conduzindo as vacas leiteiras, para garantir a pontaria do tiro, ajoelhou-se numa laje de pedra. No instante em que puxou o gatilho, seu joelho direito e os dedos do pé cravaram-se na pedra. O tiro não atingiu o pai, mas o atirador ali ficou inerte, agonizante até a morte. Desde então esse fenômeno passou a atrair visitantes curiosos, cientistas e religiosos. O fluxo de visitantes era tanto que os administradores do ramal ferroviário de Piranguinho a Paraisópolis fizeram construir, em 1916, um ponto de trem próximo ao local, que recebeu o nome de Parada Henrique Braz. Eu mesmo, quando na escola, participei de uma excursão organizada por Dona Maria José Caridade e pude colocar meu joelho e meu pé nas marcas famosas. A pedra da laje deixou de ser visitada quando, em 1958, foi soterrada pela construção da rodovia MG-295.

O segundo fato está relacionado a um misterioso profeta. No ano de 1919, veio passar temporada em Piranguinho um homem desconhecido na região que se apresentou como Sebastião Mello. Aqui permaneceu por mais de cinco anos e nesse período demonstrou ser um qualificado arquiteto e pintor de telas embora não exercesse mais essas atividades. Era pessoa culta e comunicativa, razão pela qual conquistou a amizade e a simpatia de muitos moradores. Seu português era clássico, sabia o francês e dominava o latim. Seus assuntos eram elucidativos e relacionados ao social, normas de vida e princípios religiosos que partiam do Alcorão. Seu assunto preferido era o futuro, por isso apelidaram-no de Profeta. Por fazer severas críticas às imposições do Papa Gregório XIII e à alteração do calendário ocorrido em 1582, acabou provocando também a antipatia dos muitos moradores e do pároco de Brazópolis. Suas previsões foram comprovadas com o passar dos tempos e as que mais marcaram foram: 1) no início da década de 1920 haveria escassez na agricultura devido à prolongada seca que assolaria todo o país; 2) nessa mesma década a maioria dos fazendeiros do país faliria com as suas lavouras; 3) aconteceria um levante revolucionário com a participação de todos os estados e esse levante mudaria o conceito do Brasil; 4) por questões políticas, Minas Gerais teria que se defender com luta armada; 5) antes da metade do século, aconteceria uma grande guerra que envolveria o mundo todo.

De suas previsões, a primeira aconteceu no ano de 1922, quando o Brasil sofreu a maior seca até então registrada na sua história, e houve escassez na agricultura. A segunda previsão aconteceu no ano de 1929 quando houve a crise do café devido à quebra da Bolsa de Nova York, e muitos fazendeiros do Brasil quebraram. A terceira aconteceu em outubro de 1930 com o movimento político-militar que derrubou o presidente Washington Luiz, levando ao poder Getúlio Vargas, e, radicalmente, o projeto sócio-econômico do Brasil foi modificado. A quarta aconteceu nos meses de julho a outubro de 1932, com a revolução constitucionalista, e Minas Gerais teve que travar luta armada para impedir a invasão dos paulistas em seu território. A quinta previsão, por fim, aconteceu nos anos de 1939 a 1945, com a segunda guerra mundial desencadeada na Europa, da qual o Brasil participou. Sobre esse personagem, Sebastião Mello, ninguém soube dizer de onde era, de onde veio e nem para onde foi. Soube-se que era uma pessoa de relativa posse financeira, por ficar hospedado na Pensão de Dona Maria Cândida durante todo esse tempo, pagando pontualmente sua hospedagem.

Desses casos todos, quero destacar a insistência da “Baronesa” em continuar visitando os lugares em que viveu. Ela me faz pensar no papel das mulheres na construção de nossa cidade. Poderia falar de Dona Almerinda e de tantas outras, mas recordo aqui o que meu avô falava daquela mulher forte que quase caiu no esquecimento total. Não nos esqueçamos que, além de mulher – o que já não conta muito para os livros de história –, era negra. Segundo o meu avô, Joaquim Pereira Motta Sobrinho, quando, em 1901, Maximiana da Costa Manso liderou a construção de pau-a-pique da primeira igreja católica em Piranguinho, ela poderia tê-la construída pomposamente de tijolos e coberta com telhas, pois dispunha do apoio do Coronel Francisco Braz Pereira Gomes para fazer o que fosse preciso no arraial. Mas Maximiana determinou que fossem os próprios negros, ex-escravos, que construíssem sua igreja, pois assim se sentiriam orgulhosos de realizar uma obra para eles mesmos. Não nos esqueçamos que a imagem de São Benedito para essa igreja foi esculpida em madeira também por um descendente de escravo chamado Candinho Siqueira da Cruz.

Alguns outros personagens foram responsáveis pela formação de certos costumes em nossa cidade, pelo menos durante algum tempo. No início de 1900, mudou-se cá, vindo de São Bento do Sapucaí, Daniel José Pedro (Danielzinho) com sua família. Ele era fogueteiro e estabeleceu-se no comércio com uma mini-indústria de fogos de artifícios. Diariamente, ele fazia estourar alguns de seus fogos para testá-lo e assim os moradores contraíram a mania de soltar foguetes por quaisquer motivos. Soltavam foguetes quando começava a construção de uma casa e soltavam também quando a terminava. Soltavam foguetes em aniversários, nos casamentos e nos batizados. Soltavam foguetes nas festas religiosas, nas procissões e nos dias santos. Soltavam foguetes nas competições esportivas e soltavam também quando Piranguinho recebia visitas ilustres: era um constante e desvairado foguetório. Os novos moradores, que para cá se mudaram em 1922, profundamente irritados, solicitaram intervenção policial para que se diminuísse o entusiasmo dos fogueteiros. Para atender a solicitação foi destacado para cá, em 1923, um Cabo da Polícia Militar, chamado Gervásio Medeiros. O cabo tentou coibir o uso de foguetes, mas a proibição não foi acatada e aumentou ainda mais o foguetório. Cabo Gervásio ficou no Distrito apenas uma semana e, ao partir, foguetes estouraram por cima do trem como despedida.

A mania de foguetes continuou até quando foi deflagrada a revolução de 1930 e o Exército proibiu terminantemente quaisquer estouros. Danielzinho fogueteiro morreu em 1944 e deixou a mini-indústria para o filho José Benedito da Silva (José Daniel) e a nora Emiliana Maria da Silva. José Daniel, que se tornou sacristão da paróquia, continuou com o ofício do pai juntamente com sua esposa e os filhos Luiz Floriano, Lamaneres (Nésio), Isabel e Vanda da Silva. A mini-indústria foi extinta na segunda metade da década de 1950.

As duas Revoluções, no início dos anos 1930, misturam-se na cabeça dos mais velhos. A proximidade de São Paulo e a presença de soldados aqui trouxeram medo à população, mas também provocaram fatos que durante muito tempo fizeram parte da memória do povo. O Exército havia colocado sua tropa dentro de Piranguinho e conta-se que, um dia, ocorreu uma confusão danada. Na madrugada de 22 de agosto, alguém fez uma brincadeira de mau gosto para assustar os soldados. Uma bateria de bombas estourou no pontilhão da estrada de ferro, próximo ao atual Marco Zero. Ao investigar o fato, um grupo de soldados pensou que a tropa paulista estava atacando e disparou contra outro grupo. Estava escuro e, no tiroteio, três soldados da mesma tropa foram mortos. Somente muito tempo depois se ouviu dizer que fora o Ernesto da Maria Caetana quem havia estourado as bombas no pontilhão.

Uma outra história aparece no JORNAL DE PIRANGUINHO (Órgão Oficial da Intendência Municipal) com a data de 1º de Maio de 1963 – número 9, impresso na última página do Jornal BRAZOPOLIS (Órgão Oficial dos Poderes Municipais) de 12 de maio de 1963, número 2.004. Alguém recorda ali: “Voltou-nos à memória, então, o dia histórico em que Piranguinho foi palco de um combate militar. Foi em 1930, num dia do outubro fatídico. Em nossa cidade de Piranguinho havia alguns voluntários armados de revólveres e de espingardas de caça. Foi quando surgiu do outro lado da ponte da Rede, um trem militar, conduzindo soldados do Exército. Dali há (sic) pouco retumbava um tiroteio medonho. O Sr. Garrido, construtor da Igreja, estava trabalhando pacificamente, trepado no último andaime. Ao ouvir assoviar, sinistramente, as primeiras balas, não teve tempo de procurar um refúgio melhor, deitou-se aí mesmo no andaime, protegido pela grossura dos muros e esperou acabar o tiroteio. Não durou muito. No final, a Igreja tinha tomado algumas balas que riscaram seus tijolos, sem causar dano de monta.”

A ferrovia e seus trens também deixaram histórias. Em 1902, ocorreu o descarrilamento da locomotiva de número 98 no Km 105, nas imediações da fazenda do Capote. O aterro do leito da linha férrea cedeu e a locomotiva caiu numa lagoa próxima. Todos os esforços das pessoas que estavam por perto e dos trabalhadores da fazenda para evitar que ela afundasse foram inúteis; o fundo da lagoa era de argila e areia movediça. Os técnicos da ferrovia tentaram recuperá-la, mas decidiram abandona-la e lá ela permanece até então. Segundo os depoimentos das pessoas que colaboraram fornecendo laços e cabrestos para amarrar a locomotiva à espera do socorro da Ferrovia, esta lagoa encontra-se na direção reta da casa da fazenda do Capote ao Rio Sapucaí. Depois desse incidente, os encarregados da ferrovia alteraram o curso da linha férrea instalando-a próximo à Capela do Capote.

Outro caso de descarrilamento proporcionou uma boa história de suspense e mistério, um enredo a ser apresentado em quatro atos. Conforme relatos dos antigos moradores, na noite de 02 de agosto de 1902, nas imediações do quilômetro 101 da ferrovia entre Piranguinho e Pimenteiras, um trem que transportava valores da Companhia Inglesa Seleers, empreiteira da construção da ferrovia nesse trecho do Sul de Minas, descarrilou. Os valores destinavam-se aos pagamentos de seus empregados e das desapropriações das terras no curso da linha férrea. Nessa noite chovia torrencialmente e, por força das circunstâncias, o trem aí teve que pernoitar. Sem que os encarregados do transporte percebessem, esses valores que estavam acondicionados em quatro malas de couro foram furtados. O Comando Policial Militar de Três Corações foi acionado e intensas buscas foram realizadas nos leitos dos rios, lagoas, matas e nada foi encontrado. Permaneceu na região por mais de vinte dias, vistoriou todas as casas, tulhas, cisternas, fossas, quintais, plantações, e interrogou a população. O registro policial cita que os valores contidos nessas malas eram em libras esterlinas e pesavam aproximadamente oitenta e seis quilos. Pelo peso e o formato das malas seria necessário quatro pessoas no mínimo para transportá-las. A ocorrência foi arquivada.

Anos depois, em meados de 1942, muitos moradores das imediações do quilometro 101 afirmaram ter encontrado um homem desconhecido na região, alto, loiro, aparentando sessenta anos, de pouca prosa e de palavreado estrangeiro. Outros tantos moradores afirmavam terem visto esse mesmo homem rondando as Santas Cruzes existentes nas imediações. As pessoas que conversaram com o desconhecido relataram que ele lhes mostrara algumas moedas parecidas ser de ouro e lhes perguntara se conheciam dessas moedas. Os relatos causaram muitos comentários associando esse desconhecido ao furto do trem no quilômetro 101. Depois desses comentários, o desconhecido não mais foi visto na região.

No final de setembro de 1945, Oscar Bibiano da Cruz, morador de Piranguinho, casado, pedreiro e conhecido na região, afirmou ter sido contratado por um senhor idoso, loiro e estrangeiro para lhe prestar um serviço extra após a hora de seu trabalho. Na noitinha de 29 de setembro, ele acompanhou esse senhor para lhe prestar o tal serviço que ele nunca especificou. Ao chegarem ao lugar determinado, apercebeu-se de que se tratava de algo que estava enterrado. Já estava escuro e ele só dispunha no momento de um lápis e um pedaço de papel de saco de cimento; fez então o esboço do local e retornou para sua casa. No dia seguinte, à noite, no armazém de Maurício Gomes da Rocha, ele comentou o fato com amigos e lhes mostrou o esboço que havia feito. O fato espalhou-se como sendo o mapa do esconderijo dos valores roubados do trem no quilômetro 101. No dia primeiro de outubro aconteceriam as eleições para Presidente da República entre os candidatos Eurico Gaspar Dutra e Brigadeiro Eduardo Gomes. Quando Oscar Bibiano, eleitor em Brazópolis, viajou para lá, sua casa foi arrombada e o esboço que fizera do suposto escondido, desapareceu. A ocorrência foi registrada na Delegacia de Polícia, na presença do Subdelegado Sebastião Pereira Machado. Aconteceu que Oscar Bibiano teve morte súbita e suspeita, diagnosticada como causada por intoxicação alimentar, logo no início de outubro. Seis meses depois, o esboço reapareceu em mãos de alguém e foi apreendido pelo então Subdelegado de Polícia João Carvalho de Castro (João Soldado). Acabou sendo arquivado juntamente com a ocorrência do arrombamento da casa do falecido. Nessa ocasião, os moradores de Piranguinho iam até a Delegacia para ver e conhecer o tão comentado esboço do esconderijo.

Em 1958, eu, João Aparício e Harley de Almeida nos propusemos decifrar o tal esboço. Consideramos que ele fora feito à noite, com pouca luminosidade e quem o esboçara era pedreiro e dispunha de um pedaço de papel de saco de cimento e lápis do tipo carpinteiro. Certamente não necessitaria de maiores detalhes por ser ele mesmo que iria desenterrar o que estava ali escondido. Partindo-se dessa hipótese, admitimos que um dos desenhos desse esboço fosse de uma Santa Cruz no alto de uma estrada. O outro desenho com o escrito “oliu” certamente seria uma árvore de Óleo Pardo comum nessa região. O desenho com o escrito “Per” poderia ser uma árvore Pereira. O desenho com uma seta apontando para um círculo ligado a um outro círculo menor, provavelmente seria uma pedra maior próxima a uma outra pedra menor demarcando o local do esconderijo. Na época desse acontecimento, existiam várias Santas Cruzes nas imediações de Piranguinho. A mais próxima delas localizava-se no início da estrada para a fazenda dos Neves; uma outra encontrava-se no fim da reta da estrada de ferro, próxima do sítio do Sr. José Pedro; outra localizava-se na estrada para a fazenda dos Rennós; outra na estrada para o Capote; outra no início da estrada para Itajubá e outras duas se encontravam na estrada para o Mato Dentro.

Consideramos que estas Santas Cruzes, construídas desde antes de 1900, sempre nas margens das estradas e nos pontos mais altos para serem avistadas de todos os lados, eram locais apropriados para se esconder o “tesouro”. Seus terrenos, medindo quatro braças de frente por sete braças de fundo, cercados com arame farpado, eram considerados sagrados e neles se sepultavam os defuntos das fazendas próximas. Apesar de nossas brilhantes deduções e de intrincados esforços, não conseguimos identificar o local. Os valores roubados nunca foram encontrados, mas não descarto a possibilidade de continuarem escondidos nalgum lugar nessa região.

Pensando no passado, não resisto à tentação de fazer uma comparação com o presente. A atual população piranguinhense desfruta dos avanços tecnológicos conquistados nos últimos trinta anos, mas muitos já se esqueceram como era difícil a vida nos velhos tempos. De 1910 a meados da década de setenta, havia um único telefone em Piranguinho. Ele era público, acionado por manivela e dependia de telefonista para fazer as ligações. A central telefônica ficava em Itajubá e de lá partia uma única linha que interligava Piranguinho, São José do Alegre e Pedralva, de forma que, quando uma dessas localidades estava utilizando o telefone, as demais tinham que aguardar. Uma ligação telefônica de Piranguinho para outra localidade próxima demorava de uma a duas horas. Ligações telefônicas para lugares distantes eram mais demoradas e apresentavam ruídos interferentes que dificultavam as comunicações.

A energia elétrica, que abastecia a localidade desde 1910 até meados da década de sessenta, era fornecida pela Companhia Sul Mineira de Eletricidade de Itajubá, e a usina geradora era a de São Bernardo, nas imediações de Piranguçu. Havia um único e insuficiente transformador distribuidor de energia elétrica para o abastecimento de toda Piranguinho, de forma que, durante o dia, quando se ligavam os motores das máquinas beneficiadoras de arroz, o abastecimento elétrico residencial era insuficiente para fazer funcionar um rádio-receptor. Aos domingos e feriados, o fornecimento elétrico era interrompido entre 6 e 13 horas, a fim de racionar a água da represa que acionava a usina geradora. Nenhuma residência possuía geladeira ou chuveiro elétrico. Os fogões eram à lenha e muitos deles eram adaptados com serpentinas para aquecimento central de água, a fim de abastecer chuveiros e banheiros. O abastecimento de água encanada existia desde 1910. Era municipal e tornou-se insuficiente a partir da década de cinqüenta, em virtude do crescimento populacional e do aumento de consumo. Para contornar a escassez de água, a maioria das casas possuía cisternas.

Na década de cinqüenta, já em minha juventude, recordo os entretenimentos noturnos da moçada: ver os trens de passageiros na estação, reunir-se no jardim da praça para conversar e ouvir músicas pelo alto-falante do cinema, ouvir rádio-novela ou ler livros. Havia um cine-teatro, onde eram exibidos filmes nas quartas-feiras, sábados e domingos, se não faltasse energia elétrica. Muitos jovens trabalhavam durante o dia e outros tantos cursavam o ginasial em Itajubá e em Brazópolis. Eles iam para os estudos nos trens da madrugada e voltavam nos trens da tarde ou da noite.

O primeiro receptor de televisão foi implantado no final da década. Era novidade e muita gente vinha conhecê-lo. Na época, só existiam duas emissoras de televisão no Brasil: TV Tupi de São Paulo e TV Rio do Rio de Janeiro. As transmissões eram de meio período por dia e em preto e branco. A TV Tupi era a única que alcançava Piranguinho e, para captá-la, foi necessária a implantação de antenas especiais no pico dos Dias e antena rômbica no receptor. Mesmo assim, a recepção era instável em dias normais; quando chovia, ventava ou relampejava, o sistema apresentava pane e o sinal era interrompido.

O assunto predominante da rapaziada era o presidente ambicioso que governava o Brasil, cujo slogan era realizar em cinco anos o que não foi realizado em 50. O seu governo estava realizando obras faraônicas, mas também estava contraindo dívidas faraônicas; até mesmo havia lançado mão dos recursos do INPS. Numa época em que o Brasil era carente de estrutura básica para seu crescimento industrial, carente de energia elétrica, de meios de comunicação, de educação e de assistência à saúde, o governo, sem abalizar as conseqüências, estava construindo Brasília num lugar onde não havia estrada, água, nem energia elétrica. Os materiais eram transportados por aviões sem considerar os altos custos; ainda mais, ele havia abandonado as necessárias conservações do sistema ferroviário do país. Seu governo durou até 31 de janeiro de 1961 e os que o sucederam enfrentaram altas dívidas, inflação galopante e o povo descontente.

Nessa época eu já conversava muito com os mais velhos e recolhia a papelada velha que hoje compõe o meu arquivo pessoal. Sem muita formação histórica, sentia que uma cidade é formada por seu povo e suas memórias. Por isso, encerro estas lembranças com um pouco de nostalgia, na esperança de que o conhecimento do passado ainda seja útil para a formação das pessoas.

Ai que saudades das festas de outrora em Piranguinho! Havia festas de São Sebastião, de Nossa Senhora Aparecida e de Santa Isabel. Havia as barracas da festa e cada uma delas tinha seu nome e sua cor. As moças e rapazes que trabalhavam nessas barracas eram uniformizados com suas cores. Havia concursos de bonecas e as candidatas eram selecionadas entre as meninas mais comunicativas e engraçadinhas de Piranguinho. A Igreja era decorada com flores e outras tantas ornamentações pelas moças e senhoras da Liga Católica: Inácia Pedroso, Nicota Carneiro, Fia Moreira, Isabel Colorado Motta, Júlia Vilas Boas, Nicota Gomes, Maria José Gomes, Nuria de Almeida, Zizica de Almeida, Ciloca Machado, Terezinha Antunes e Samaritana Antunes.

Essas festas eram realizadas nos primeiros domingos do mês e nove dias de antecedência havia novenas a noite com rezas de terços pelo “Sô Danielzinho”. Durante a novena, as barracas da festa, montadas ao lado da Igreja, funcionavam e a praça ficava animada com muita gente. Nós, garotada, brincávamos no jardim e balançávamos nas barquinhas dos parques de diversões que aqui se instalavam nessas ocasiões. No domingo da festa, a gente já acordava no raiar do dia com som da banda de música fazendo alvorada. A gente levantava cedinho, vestia roupa nova, calçava sapatos também novinhos e saía para ver a banda de música e as barraquinhas que se instalavam na praça. Encontrava os colegas de escola e, juntos, visitávamos todas as barraquinhas. Iniciávamos pela que vendia brinquedos, ioiôs, bilboquês, joguinhos, quebra-cabeças e relógios-fantasias de pulso. Era grande a variedade de produtos que essas barraquinhas vendiam, nelas se encontravam artigos religiosos, material de costura, adornos femininos, perfumes, bijuterias, chapéus, meias, relógios, ferramentas de carpintarias e agrícolas. Havia barraquinhas de pastéis feitos na hora, de jogos de roletas, de jogos de dados, de fura-fura e de sorteios.

A cerimônia religiosa iniciava às 8 horas com celebração da Missa pelo Padre Joaquim de Oliveira Noronha (Quinzinho). Às 10 horas iniciava-se o leilão no coreto todo enfeitado com bandeirolas coloridas e cartuchos com quitandinhas e doces. Os leiloeiros eram os senhores Alípio da Silva e Benedito da Silva (Sô Garcia). Os assados de leitoas e frangos eram os primeiros a serem leiloados; depois eram as roscas, pães folhados com chocolate, cartuchos e prendas. O desenrolar do leilão era abrilhantado pelo som da banda de música. Os leilões de gado e cabritos realizavam-se às 14 horas nos mangueiros cedidos por Joaquim Pereira Motta Sobrinho e Sebastião Pereira Machado. Às 15:30 horas realizava-se a procissão dos fiéis conduzindo os andores pelas ruas centrais; o andor de São Benedito ia na frente da procissão, em seguida era o de Menino Jesus, por último era o do santo festeiro e no fim da procissão ia a banda de música. O que nós, garotada, gostávamos mesmo era de acompanhar o “Sô” Danielzinho bem na frente da procissão, soltando os seus foguetes de vara. O encerramento da festa se dava com queima de fogos pirotécnicos e a banda de música tocando o dobrado “Até outra vez”.

Pensando bem, é difícil acreditar que tudo mudou e que estejamos vivos até hoje! Nos últimos anos houve uma desmedida explosão de inovações, e tendências… As mercadorias dos armazéns e os remédios não tinham lacres especiais de segurança e nem data de validade, e ninguém morreu por isso! A gente bebia água de chuva, de poço, da torneira e tinha boa saúde! Nossos intestinos nunca se encheram de bichos estranhos… No máximo, a gente tomava purgante contra vermes e fortificava com óleo de fígado de bacalhau! Se a gente gripasse, se curava com chás de alho e alguns comprimidos… Os vírus não eram tão contaminadores e resistentes! A gente construía os brinquedos e se divertia com eles!

Na escola, a gente tinha que saber a tabuada de cor e salteada, resolver as quatro operações fundamentais sem calculadora! As professoras eram dedicadas e exigentes, não davam moleza… Castigavam se fosse necessário e não eram recriminadas por isso! A gente saía de casa e brincava o dia todo, nossos pais nem sempre sabiam onde estávamos, mas tinham a certeza de que não estávamos usando drogas!

A gente comia muitas frutas do mato, brincava na poeira e nas palhas do arroz, tomava chuva e pisava na lama… Mas ninguém ficava doente e nem contraía alergia… Nem se falava em alergia!A gente dividia uma garrafa de guaraná entre dois ou três colegas; bebíamos no próprio bico e sem gelo… Ninguém se contaminava com isso! A gente nadava no rio e bebia de sua água… Eles não eram poluídos pelos esgotos… Nem se conhecia micose! Nossas iniciativas eram “nossas”, mas as conseqüências também, e ninguém se escondia atrás do outro! Nossos pais nos colocavam de castigo e nos batiam se desobedecêssemos às regras… Mas nenhum deles era preso por isso! A gente sabia e obedecia; quando nossos pais diziam “Não” era “Não” mesmo!

A gente ganhava brinquedos no Natal e no aniversário, e não todas as vezes que queríamos… Nossos pais nos davam presentes por amor e não por dever! Não existia gravador de fitas, não tinha televisão, nem videocassete, nem computador, nem Internet… Tínhamos bons amigos e bons livros! A gente ia à casa dos amigos, entrava e conversava… sozinhos num mundo sem medo e sem maldade! A gente levantava cedinho para ver e ouvir a passarada cantar na praça… Não existia o mata-mato que envenena as sementeiras que a passarinhada come!

A gente ficava nas beiras das matinhas para ver os coelhos do mato transitarem e brincarem… Não envenenavam as matinhas e nem as queimavam! Aos 17 e 19 anos, a gente procurava o primeiro contato sexual em uma zona de meretrício, e sem camisinha… Ninguém se contaminava com doenças sexuais… AIDS não existia! A gente namorava, mas era somente namorar! A gente ia a casamentos, mas com a certeza que o primeiro filho daquele casal só nasceria depois de nove meses! A mãe da gente era “Mãe” mesmo… Não agredia a gente no seu útero com ultra-som para saber o nosso sexo!

A gente veio de uma geração que produziu inventores, artistas, amantes da música, das artes e da cultura. Tínhamos liberdade, sucesso, algumas vezes problemas e desilusões, mas tínhamos responsabilidade e sabíamos resolver tudo isso… sozinhos. Se você também é um destes sobreviventes… Parabéns! Você curtiu os anos mais felizes da sua vida.