Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

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“De 22 a 29 de outubro de 1933 realizou-se em Itajubá, com brilhantismo e grande afluência de fiéis do município e de todas as cidades vizinhas, o Congresso Católico, durante o qual foram pronunciadas aproveitáveis palestras sobre vários temas religiosos muito oportunos.”

Esta referência encontra-se no livro História de Itajubá, de Armelim Guimarães (1987, p. 565), ao lado de outras de uma série de eventos religiosos que datam de 1874 e se estendem até 1987. Nas páginas 567 e 568 foi transcrita a Ata da Assembléia Geral de 22 de outubro, sob a presidência do Padre João Batista Van Royen. A leitura das atas das sessões, que podem ser encontradas no “arquivo” da Paróquia da Soledade, permite uma sondagem a respeito do ideário que se pretendia implementar na organização da sociedade brasileira da época.

A realização do “1º Congresso Católico de Itajubá” ocorreu no momento em que a Igreja Católica buscava fortalecer os laços de cooperação com o Estado. Seria uma tentativa de reconstruir, sobre novas bases, a antiga Cristandade? Por Cristandade entende-se uma determinada concepção de sociedade em que valores cristãos são constitutivos do cotidiano e orientadores de práticas sociais, econômicas e políticas de uma Nação.

“Aí a sociedade civil e a comunidade dos fiéis formam uma única entidade, operando os chefes políticos e religiosos numa íntima união e colaboração. É o que se designava, desde a época medieval, a união dos poderes, civil e eclesiástico, e, sobretudo a partir da época das Cruzadas, a união entre a espada e a cruz” (Azzi, p. 7).

Seria, então, o sonho de um país cristão, mais especificamente católico. O hino oficial II Congresso Eucarístico Nacional, em Recife, proclamava: “Creio em ti, Hóstia Santa, até a morte! Quem não crê, brasileiro não é!”.

Essa identificação tão profunda entre ser cristão e ser brasileiro parecia natural, pois a Igreja esteve sob a tutela do Estado nos períodos colonial e imperial. Em 1916, porém, ao tomar posse da arquidiocese de Olinda, o arcebispo D. Sebastião Leme reclamara numa carta pastoral:

“Na verdade, os católicos, somos a maioria do Brasil e, no entanto, católicos não são os princípios e os órgãos da nossa vida política. Não é católica a lei quenos rege. Da nossa fé prescindem os depositários da autoridade. Leigas são as nossas escolas, leigo o ensino. Na força armada da República, não se cuida da religião. Enfim, na engrenagem do Brasil oficial não vemos uma só manifestação de vida católica. ” (Azzi, p.25)

O que ocorrera, então?

Na segunda metade do século XIX desenvolvera-se um movimento liderado pelos bispos, comandado pela Sé Romana dirigida por Pio IX, conhecido como Reforma Católica. Em 1864, o papa Pio IX promulgara um documento, o Syllabus, condenando as liberdades modernas, definindo a postura antiliberal do movimento. Ao mesmo tempo, era declarada a autoridade inconteste do Pontífice, através do dogma da infalibilidade papal. No Brasil, essa orientação provocou a Questão Religiosa dos anos 1872 a 1875.

A proclamação da República, em 1889, libertou a Igreja da tutela do Estado, mas, ao mesmo tempo, tirou-lhe os privilégios de que tinha gozado. Daí os lamentos de D. Leme e o esforço da Igreja Católica brasileira para recuperar suas prerrogativas através de um discurso de colaboração íntima entre os poderes temporal e religioso. Não se tratava de mero ardil para obtenção de benesses, mas da convicção de que a sociedade só estaria adequadamente ordenada pela ação conjunta das hierarquias desses poderes. Essa investida católica, no período republicano, é denominada Restauração Católica.

Interessaria à República dos Coronéis, ameaçada por movimentos sociais – alguns de caráter messiânico – extremamente “perigosos”, o apoio dessa instituição que, desde o período colonial, mantivera laços estreitos com o poder, dotada de eficiente mecanismo de controle social? A República permitira a entrada de congregações estrangeiras que promoviam a romanização do catolicismo brasileiro. Iniciativas religiosas populares, potencialmente “anárquicas ou subversivas”, eram submetidas ao controle do clero ou substituídas por devoções européias comportadas e subordinadas ao clero. Pregava-se a superioridade dos sacramentos ¬ministrados por padres – sobre quaisquer outras devoções. Sem os recursos financeiros do Estado, mesmo as ordens religiosas que visavam o assistencialismo, acabavam por criar colégios onde filhos das oligarquias e da nascente burguesia estudavam. Ocorria, portanto, uma mútua e conveniente assimilação de influências de uma formação escolar dentro dos padrões europeus e de uma postura política guiada pelos interesses dos grupos dominantes nacionais. Da Europa vinham também a experiência e a urgência do combate às novidades perniciosas do século: o liberalismo, o socialismo e o comunismo.

O centenário da independência coincidiu com a criação do Partido Comunista do Brasil e com a Semana da Arte Moderna. A Revolta do Forte de Copacabana marcou o início das rebeliões tenentistas. O Estado deveria, sim, contar com a Igreja. Em 5 de maio de 1924, discursos do Ministro das Relações Exteriores, Felix Pacheco, e do Cardeal Arcoverde, num banquete oferecido oficialmente aos bispos no Itamarati, selaram o pacto de mútua colaboração oficial entre Igreja e Estado no Brasil:

“O Brasil precisa do concurso de todas as forças vivas da nacionalidade para se refazer na disciplina, no respeito da autoridade, na prática das virtudes, na obediência à lei, na lealdade aos deveres públicos, no trabalho útil e na independência responsável e sem ódios. Entre essas forças vivas a que aludo, e indispensáveis ao trabalho urgente de reconstrução geral do país, nenhum maior do que a Igreja “(Felix Pacheco, in Azzi, p.33)

Em 1930, o cardeal Leme aconselhou Washington Luís a deixar o poder e o acompanhou na saída quando foi deposto pelo Movimento de 30. O mesmo cardeal celebrou a missa solene de ação de graças pelo restabelecimento da paz com a presença de Getúlio Vargas. Em 12 de outubro de 1931, foi inaugurado o Cristo Redentor no Corcovado com a presença do presidente e do seu ministério.

A primeira assembléia geral do Congresso Católico em Itajubá ocorreu no dia 22 de outubro de 1933, na igreja matriz da paróquia de Nossa Senhora da Soledade.
A mesa que presidiu os trabalhos daquela noite foi composta pelo padre João Batista Van Royen, presidente da Comissão Central Executiva do Congresso Católico, e por representantes de diferentes secções: doutor José Ernesto Coelho (operários), padre Mathias Mysters (Comissão de Cerimônias Religiosas), doutor Manoel Cintra Barbosa Lima (profissões liberais), doutor Antônio Rodrigues de Oliveira (professores e estudantes), major João Antônio Pereira (indústria e comércio), major Severiano Ribeiro Cardoso (tesoureiro da Comissão Executiva), professor Jorge Boucherville (professores e estudantes) e João Pinto de Souza (comissão de propaganda e imprensa). “Noutro plano anterior à mesa, ao lado do altar-mor”, estavam as senhoras Annita Pinto Santiago, Emília Sanches Coelho, Maria Rennó Guimarães, senhorita Lygia Coelho, doutor Luiz Lima Vianna, padre Adriano Baymas (comissão de música e cantos). Foi secretário geral o doutor Vicente Sanches e secretários adjuntos o doutor João Pereira dos Santos, Aristóteles do Nascimento Teixeira e Mário Carvalho. Para a realização do evento, cada congressista contribuiu financeiramente com seu “óbolo” e um agradecimento especial revela o patrocínio da Cia. Imobiliária Kosmos, do Rio de Janeiro.

Orações, leituras de mensagens de ausentes distintos e de telegramas enviados a diferentes autoridades eclesiásticas, poesias e cânticos (Peuple, louez le Christ, de J.S.Bach; Ave Maria, de Carlos Gomes; La Vierge à Ia creche, de Caesar Frank) acompanharam a realização dos trabalhos da noite.

Confirmando as preocupações da Igreja brasileira, a conferência do padre João Batista Van Royen teve como tema “A Recristianização da Sociedade”. Os trechos citados na ata destacam a luta a ser travada contra o individualismo e a ditadura financeira. Faz referências, na argumentação, às origens dos três movimentos de reação ao individualismo da época: o comunismo, o fascismo e o nazismo. Obtiveram sucesso nos respectivos países porque seus povos recorreram às antigas tradições para produzirem a reforma moral necessária. Se tais ideologias – com as conseqüentes ditaduras – não eram adequadas ao povo brasileiro, retomar o fio das tradições se fazia necessário. A recristianização da sociedade brasileira seria, portanto, o caminho natural a ser seguido. Daí a necessidade de “socializar” idéias e sentimentos e trabalhar para que os bens materiais e morais da Nação estivessem ao alcance de todos, sem exceção.

A outra conferência da noite foi proferida pelo doutor José Ernesto Coelho que dissertou sobre “A Família, Instituição Divina”. Após apresentar a origem divina do casamento, o conferencista alertou sobre as “profanações modernas” do sacramento, o divórcio e o anti-concepcionismo. Não faltou a célebre expressão “cellula mater da sociedade”.

Ao encerrar os trabalhos, o presidente convidou a todos para uma reunião da Secção de Catequese, a realizar-se no dia seguinte, recomendando-a aos que. se dedicavam à educação e ao ensino. A área educacional era considerada prioritária pelos bispos por vários motivos. Além dos perigos do ateísmo, era necessário combater o laicismo em voga representado pelo ideário da Escola Nova. No campo religioso, os adversários eram o espiritismo e o protestantismo. Para enfrentá-los tornava-se urgente superar a ignorância religiosa em que vivia o povo brasileiro. O caráter doutrinário da Igreja marcava suas ações e estava presente nos documentos pastorais. O catecismo tridentino brandido vigorosamente refletia a relação de dependência da hierarquia eclesiástica às determinações romanas.

O Congresso Católico, nos dias seguintes, discutiria as grandes questões que afligiam a ordem estabelecida pela República naquele momento.

Bibliografia

Atas do 1º Congresso Católico de Itajubá, 22 a 28 de outubro de 1933. Transcrição de Julio César Moreno.
AZZI, Riolando. A Neocristandade: Um projeto Restaurador, São Paulo, Paulus, 1994.
GUIMARÂES, Armelim. História de Itajubá. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.

PASSARO, Rosimeyre Maria dos Santos. Resgatando a Construção do Currículo para o Ensino de História no I Congresso Mineiro de Educação (1983-84). 2005. 200 p. (Dissertação – Mestrado em Educação). Universidade Vale do Rio Verde – UNINCOR – Três Corações – MG.1

Palavras chaves: Educação – História – Currículo

No final dos anos 70 e início dos anos 80, a História ensinada passou por mudanças significativas. Este trabalho tem como objetivo analisar as mudanças no ensino de História no de 10 e 20 graus e a prática docente atual. Compreender a construção curricular e suas implicações no atual ensino de História, visto que, muitos alunos ainda conservam uma aversão a esta disciplina escolar. Para uma análise mais criteriosa foi necessário resgatar as origens da reforma curricular no I Congresso Mineiro de Educação (1983/84).

A metodologia utilizada nesta pesquisa é de natureza qualitativa, pois trabalho com um objeto de pesquisa e sujeitos envolvidos no processo de mudanças na educação em um dado momento histórico. Como forma de ampliar minha reflexão e entender as aproximações entre o Congresso e suas influências na concepção do ensino de História, inicio retomando a minha trajetória de formação e a trajetória da disciplina nos diversos momentos na educação. A análise documental contextualizada me permitiu perceber a articulação entre o poder do Estado e a comunidade escolar para organização do Congresso, os embates e as decisões que originaram do evento.

Relacionar as propostas para o ensino de História com o material didático utilizado por nós professores. Esclarecer através da fala dos Professores os anseios por mudanças no ensino, suas reflexões e esperanças depositada no diálogo que se estabeleceu junto à comunidade escolar durante o Congresso.

Entrevista com a professora Felícia

Os caminhos das fontes

A professora Felícia Eugênia de Abreu Couto fala ao NEPHIS sobre suas pesquisas a respeito da História de Itajubá. Aponta, ainda, os caminhos por percorridos pelos historiadores empenhados em realizar uma boa pesquisa e em elucidar as lacunas históricas presentes na historiografia de Itajubá e região. Suas interpretações e comentários sobre as diversas fontes disponíveis são destaques desta entrevista concedida gentilmente ao NEPHIS.

“Antes de comentarmos qualquer aspecto da História de Itajubá é importante lembrar do grande número de material historiográfico que já se produziu, e que serve de referência para uma pesquisa histórica mais ampla, envolvendo a região em um contexto histórico a partir do qual poderemos fazer as devidas associações. Entre eles podemos citar: os livros sobre Itajubá, escritos por Armelim Guimarães, e o almanaque organizado por seu pai quando do centenário de Itajubá; o Almanaque“Eu Sei Tudo”, publicado em Portugal, por volta de 1933; outras publicações em revistas, etc. Em seguida podemos destacar as fontes locais, tais como os Livros de registros da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Soledade e os livros de registro da Igreja Matriz da cidade de Delfim Moreira (antiga Itajubá). Além deles é bom salientar que, em 1950, quando a diocese de Pouso Alegre comemorou seus 50 anos, foi produzida, com a participação de historiadores (leigos em sua maioria) uma obra comemorativa na qual estão registrados aspectos históricos de todos os municípios que faziam parte dela (Diocese). Estes relatos contavam mais os aspectos da tradição de cada uma destas localidades do que realmente se constituíam em uma pesquisa histórica bem fundamentada, porém servem-nos como referência e caminho inicial para pesquisa.

Quanto às fontes que são constituídas pelos livros de registro da Igreja Matriz de Itajubá e os livros de Tombo de várias Igrejas da região, é bom que se faça uma ressalva . No caso de Itajubá, nós não temos um Livro do Tombo completo, do século XIX. O Livro do Tombo que existe foi aberto em Agosto de 1889 pelo Bispo de São Paulo (Itajubá fazia parte da Diocese de São Paulo, pois a Diocese criada em Minas, durante o Império, foi a de Mariana e, de acordo com a divisão das capitanias, o território que hoje compreende o Estado de Minas, tinha uma parte, aquela que ficava à margem direita do rio Sapucaí, ligada a São Paulo) D. Lino Deodato e, nesta data, ele fez uma retrospectiva dos acontecimentos ocorridos desde o início da primeira paróquia de Itajubá, de acordo com o que ouviu e leu nas anotações do “Padre Fundador” Lourenço da Costa Moreira.“ O que eu vi, o que me contaram eu estou fazendo a anotação neste livro do Tombo”, assim diz o bispo.

A maior parte dos registros que existem na Igreja está no livro de Óbito de Escravos que está bem datado. Neste livro existem duas anotações que são importantes para se fazer datações posteriores. O primeiro registro é sobre a pendenga jurídica envolvendo o padre Lourenço e a comunidade de “Itajubá Velho”, no início dos anos 1830. Deste registro constam os nomes dos depoentes envolvidos no caso, seus endereços, as datas em que prestaram depoimento e o local onde se realizaram as entrevistas, etc. Este registro foi feito aqui, na vila de Itajubá, pelas autoridades de Campanha, pois como a pendenga vinha se desenrolando por mais de uma década, as autoridades civis resolveram ouvir os envolvidos. Estas anotações marcam o final do processo e este registro acabou sendo feito aqui, no único livro oficial existente na época. É bom que nos lembremos que a questão girava em torno de haver o Padre Lourenço “abandonado sua paróquia” e vindo residir na “Boa Vista do Itajubá”, tendo trazido, sem a aprovação de seus antigos paroquianos, os paramentos e os instrumentos necessários para as missas, para o novo arraial.

O segundo registro, feito pelo Padre Lourenço, nos anos 1851-52, realizado como se fosse no Livro do Tombo oficial, embora ainda se trate do mesmo livro de registro de Óbito de Escravos, trata de sua chegada à região. Por que esta segunda datação é importante para a pesquisa? Porque, ao assumir o Gabinete da Conciliação (início dos anos 1850), Diogo de Vasconcelos foi incumbido pelo Imperador de criar uma “Lei de Terras” para resolver a questão da posse das terras no Império que havia continuado a adotar as “Ordenações Afonsinas e Filipinas”que perduraram por todo o período Colonial e junto com isto (surge) a questão dos posseiros e dos sesmeiros quanto à posse legal das propriedades que vinham sendo ocupadas desde o período do Brasil Colônia. Assim, o ministro, como bom político mineiro, fez um primeiro documento que levou ao conhecimento das câmaras municipais da Província, que tiveram tempo de realizar a legalização das sesmarias e posses posteriores.

A Lei de Terras de 1850, que disciplinaria sobre a posse das terras do Império, afirmava que toda a posse ocorrida antes de 1820 estaria legalizada, desde que o posseiro pudesse comprovar sua presença na terra com documentos ou registros anteriores a 1820. A questão em Minas Gerais era muito grave, devido ao grande número de posseiros e à grande quantidade de lotes retalhados pelas lavras, que eram pequenos lotes, (bem diferentemente do nordeste, onde as grandes sesmarias se preservaram como grandes fazendas de gado ou de cana de açúcar, garantindo a característica da produção que privilegiava o latifúndio). Em Minas Gerais, com suas inúmeras lavras e com lotes menores, a questão era muito mais complexa. Havia ainda um grande número de posseiros, cuja chegada e ocupação era indefinida; muitos tinham ocupado terras ao lado dos caminhos (nos “pousos”) e, muitos com uma ocupação relativamente recente, como era o caso da região do entorno do Rio Sapucaí.

Com a preocupação de evitar derramamento de sangue e, buscando evitar a extensão dos conflitos pela posse da terra, estipulou-se que as provas aceitas para comprovação da chegada de pessoas nas terras seriam os documentos da Igreja. Como a ocupação de Minas Gerais ocorreu ao longo do século XVIII, então esta documentação de chegada de colonos deveria estar nas igrejas locais. Sendo assim, o Império passaria a aceitar o que estivesse lavrado nos registros paroquiais como documentos oficiais para a legitimação de posse dos que estivessem residindo nas terras por mais de trinta anos. Por isso temos um registro feito pelo Padre Lourenço, entre os anos 1851-52, no Livro dos Escravos, com um caráter oficial, resolvendo a questão da posse da terra por aqui (note-se que o registro do “Padre Fundador”, criando a história da fundação do núcleo urbano, é feito a posteriori).

Pois bem, voltemos à história contada no livro de Óbitos de Escravos, pelo Padre Lourenço: ele faz uma narrativa muito bem fundamentada, porque este é um documento legal, do qual se enviará uma cópia ao Rio de Janeiro, às autoridades imperiais, para garantir a posse da terra para os moradores da recém criada Vila (em 1849 ocorreu a criação da Vila da Boa Vista de Itajubá, ou Itajubá Novo, independente de Campanha). Fora de qualquer outra questão, a legalização das terras da vila estava sendo necessária, pois era fundamental definir quem eram os legítimos proprietários-moradores (e detentores das terras da vila) e quem poderia garantir que estes moradores não iriam perder a posse da terra, depois de feito todo o processo para a instalação da Vila? O “Padre Fundador” era o único capaz de afirmar quem com ele estava, quando da fundação do povoado (é bom lembrar que durante os anos 1830-1850, em função do processo contra o Padre Lourenço e a condenação imposta de devolver os paramentos e materiais à antiga Paróquia, a população de Itajubá “Novo” se afastou do “Padre Fundador”que construiu sua residência afastada do centro do novo povoado e foi substituído no comando da paróquia por um novo vigário, só sendo reconduzido ao cargo como pároco coadjutor quando da necessidade do registro no livro “oficial”, para a legalização da posse das terras do novo burgo).

Nunca foi tão forte a história do vencedor, pois ao relatar, num documento oficial, a justificativa das ações dos que estavam no momento constituindo a vila, o padre Lourenço oficializava a situação dos posseiros frente à nova legalidade imposta pela Lei de Terras de 1850, garantindo que todos eles constituíam o núcleo de fundadores.

A crítica histórica da narrativa de Padre Lourenço

Então, o que vai narrar o padre Lourenço, no início de 1851-52? Vai dizer que no começo de 1819, no mês de janeiro, impedido de vir assumir seu cargo na capela da Soledade de Itajubá – da qual havia recebido do Rei o direito de tornar-se “Vigário Colado”, confirmado pelo Bispo de São Paulo –, em função da morte de seu pai, pároco de Guaratinguetá falecido em meados do mês, necessitava, como herdeiro, acertar as contas e outras pendências (havia um engenho e um grande número de escravos, além da irmã, como co-herdeira e, talvez a mãe, como meeira). Em função disso, ele teve que aguardar, em Guará, até o mês de fevereiro, quando tudo foi legalizado, para tomar posse como vigário colado da paróquia da Soledade do Itajubá (Paróquia recém-criada pelo rei, pois antes toda esta região fazia parte da Paróquia de Guaratinguetá).
Chegando ao local, verificou que a povoação era muito pobre, com as atividades econômicas estagnadas e a mineração decadente. Reuniu, então, a população das “Minas Novas do Itajubá” ou do “Descampado da Soledade do Itajubá”, e, eles decidiram que ele estaria encarregado de procurar uma nova terra onde seria possível uma vida melhor para a comunidade.
Alguns dias depois, já de posse de informações sobre um bom local para o novo núcleo, reuniu então na Igreja as pessoas que deveriam partir com ele, na noite do dia 18 de março de 1819, e todos decididos, tomaram as embarcações para descerem o rio Santo Antônio, um pequeno afluente do Rio Sapucaí, em busca do novo local. Junto com padre Lourenço, oitenta famílias se movimentaram, segundo seu relato.

Na madrugada do dia 19, eles chegam no que hoje é denominado Porto Velho, uma planície que ele vai chamar de Boa Vista. Após caminharem um pouco (ou subirem a elevação em frente ao porto), encontraram o local ideal, onde montaram uma capelinha de pau-a-pique para demarcarem sua chegada e rezaram a primeira missa, agradecendo a Deus pelo sucesso da empreitada. Após a missa o padre determinou que todos deviam aguardá-lo, pois ele iria em busca dos sesmeiros da região. Neste ponto fica a impressão, no texto, de que os sesmeiros eram seus conhecidos (seja pela visita anterior, quando buscava um local para o seu grupo, seja por terem com ele comerciado, enquanto representante do engenho do pai, em busca de fornecedores de mercadorias para o comércio no caminho real).
Continuando, ele os convenceu a fazer a doação de terras para a capelinha de São José (Fábrica da Igreja), a quem ela havia sido dedicada, ficando o padre encarregado de dividir as terras doadas entre seus companheiros de aventura, estabelecendo com quem ficariam os lotes e faria também o arruamento do novo núcleo. Este é o documento de fé, lavrado pelo padre Lourenço.

Agora se faz necessária uma leitura a contrapelo, tendo em vista o contexto histórico nacional e local, onde os fatos se associam e as atuações do padre Lourenço são importantes, não devendo se perder de vista suas relações na Corte, no ano de 1818. A importância do ano de 1818, que foi um período conturbado para o Império do Brasil, foi também o ano da confirmação de D. João VI como rei e o início do longo período de mudanças sucessivas no comando político do Império.

Para a análise crítica das fontes é possível se amparar nos escritos de Armelim Guimarães, como uma fonte primária fantástica de informações, embora correndo-se o risco de esbarrar em interpretações histórico-filosóficas (são muitos os casos em que durante a exposição dos acontecimentos, Armelim se põe a “filosofar”ou a fazer afirmações dentro de suas crenças ou de suposições “datadas”, de sua vivência e de sua época). Em muitos casos a transcrição de documentos originais é útil para uma interpretação histórica coerente.

Usando uma visão simplista e confiando nas palavras do padre Lourenço, Armelim Guimarães, em sua narrativa, é levado pelos documentos como se a história apresentada fosse fielmente iniciada em março de 1819, e não um relato feito 32 anos depois. Ele não põe em dúvida o relato nem faz uma crítica quanto à data do documento.

Ele busca os motivos que levaram o padre Lourenço a escrever este documento em 1819. Para isso ele conta os acontecimentos ocorridos em 1818: começa falando da ida do padre Lourenço à Corte, possivelmente instigado pelo pai, solicitar ali um cargo de vigário em Soledade de Itajubá, que nem era paróquia na época. Tudo isso embasado em documentos que Armelim Guimarães conseguiu levantar, referentes ao padre Lourenço e sua nomeação para a Soledade de Itajubá, graças às suas boas relações (de Armelim) com correspondentes fora da cidade, seja em Guaratinguetá, São Paulo, Rio de Janeiro e Portugal. Muitas cópias de documentos são importantes para se montar um quebra-cabeças da situação vivida pelo padre Lourenço em 1818.

A negociação na Corte (Rio de Janeiro) consome metade do ano de 1818. Os objetivos desta negociação seriam garantir a situação de Lourenço, filho do Pároco de Guaratinguetá, que era herdeiro de um moinho de cana e de muitos escravos. Entretanto Guaratinguetá não possuía cana de açúcar, era apenas um ponto de moagem e venda, por causa do caminho real. E sendo um herdeiro rico, com uma escravaria e um ponto de venda, é possível imaginar a seguinte situação: a luta pela paróquia logo seria intensa e permanecer em Guaratinguetá, longe dos produtores (como era o caso de Pedra Branca) não seria possível. Então, a necessidade de estabelecer outro ponto como base para seus negócios levou o Padre Lourenço a buscar a criação da Paróquia e a escolha recaiu sobre a região do rio Sapucaí, região produtora de cana, algodão, trigo e fumo. Justificando todo seu esforço para convencer o Rei a fazer a divisão da paróquia de Guaratinguetá, de modo a atender seus anseios em permanecer próximo a uma grande região produtora é que levaram Lourenço da Costa Moreira a lutar na Corte.

Essa era a jogada, delimitar uma área que Lourenço conhecia bem por seus contatos com os sesmeiros, garantindo sua permanência próxima aos produtos que ele poderia vender via Guaratinguetá e criar uma nova e próspera paróquia sob seu controle. Entretanto não seriam estes os argumentos a convencer o Rei da necessidade de se criar uma nova paróquia numa região erma. Era necessário partir de uma base, uma capela que mesmo estando isolada, seria capaz de absorver recursos para se auto-sustentar e encampar as demais populações do vale do Sapucaí. Por isso sua ida a Soledade para assumir como vigário seria uma mera formalidade, pois logo que chegou, tratou de se transferir para uma nova capela criada às margens do Rio Sapucaí, Boa Vista do Sapucaí, em homenagem a São José, com doação do terreno pelos seus conhecidos, os sesmeiros (possivelmente seus fornecedores de mercadorias).

A transferência de Soledade para Boa Vista

As “Minas Novas de Itagybá” não ficam na Delfim Moreira de hoje. Mapas antigos encontrados na Igreja Matriz de Delfim, nos dão conta de que a localização exata das minas é desconhecida, deixando como referência apenas a descrição do encontro de dois riachos no alto de uma montanha que foram desviados para se garimpar ouro de aluvião. Estes pequenos afluentes vão formar o rio Lourenço velho.

Somente a povoação com aqueles que habitavam as minas era conhecida como Soledade. Este relato está no Livro do Tombo, em Delfim Moreira, encadernado no meio deste livro, pois eram folhas soltas. Num papel muito frágil com letra roxa constam estas anotações, e numa escrita belíssima, pois os padres daquela época, em sua maioria (aqueles que tinham formação), haviam concluído seus estudos na Universidade de Coimbra.

Em todo tempo, nestes primeiros registros, vai se encontrar anotações sobre a capela da Soledade, ou o altar móvel da Soledade (primeiramente o registro de um padre visitador, contando sobre o altar móvel). Segue o registro descrevendo como o local era um lugar miserável, com as pessoas passando privações terríveis na esperança de achar ouro, contudo sem atentar para a situação daquela área de mineração ser insustentável, pois o veio estava esgotado.

Neste segundo registro a visão que se tem é a de que a comunidade se reuniu e pediu ao padre viajante uma imagem para ser a padroeira do local. Não chegando nem mesmo a definir qual seria o santo, e por sugestão deste padre foi escolhida como “padroeira” Nossa Senhora da Soledade, protetora do lugar ermo, isolado e triste. E nesta mesma reunião fica decidida a encomenda da imagem a Portugal. Passado um longo período e por relato de um outro padre, pois a letra muda, temos finalmente a chegada da imagem de Nossa Senhora da Soledade à região em um altar móvel.

O porquê do altar móvel, na minha opinião, se baseia no fato de que além de ser mais fácil de se transportar montanha acima e abaixo, o grupo de pessoas que habitavam as minas era tão pequeno que não havia meios com que se construir uma capela permanente e a imagem ficava de casa em casa, daí a necessidade do altar ser móvel.
Até a construção de uma capela permanente, os registros fazem somente referências ao povoado como Soledade. O nome de Itagybá aparece dez anos depois, devido a um pequeno progresso do lugarejo, com uma população já um pouco maior e com necessidade de serem identificados como moradores das Minas Novas do Itagybá (as “Minas Novas” compreendiam um região bastante ampla no alto da Mantiqueira).

A população cresceu mas não chegou a 50 almas, era um povo obstinado que não queria abandonar o local. É somente no final do século XVIII que podemos observar nos registros a chegada de outras pessoas que não estão mais ligadas à mineração e estas vão estabelecer a “fábrica da capelinha”, e vão se dedicar à criação de gado e a agricultura, possivelmente num novo local, rio abaixo.
São estas as pessoas com as quais o padre Lourenço irá se encontrar (em 1819?), proprietários de terras que criam gado e se dedicam à agricultura e se beneficiam do arrendamento das terras da Igreja. De cara ele não vai gostar desta gente e a briga começa justamente com o sujeito que arrendou da fábrica da capela as terras para colocar o gado.

Após inúmeras correspondências às autoridades de Campanha e de argumentos de lado a lado, em 1831, um juiz vai ouvir as partes e fazer uma inquirição legal. Isto prova que este sujeito não veio com o padre para Boa Vista, questionava suas maluquices em querer tirar de Soledade a sede da Paróquia e está se sentindo prejudicado e ofendido pelas atitudes do padre Lourenço.
Entretanto, em referências anteriores neste mesmo processo, temos a narrativa desta mesma pessoa se queixando da situação provocada pelo padre Lourenço. Ele fala que várias vezes havia interpelado o padre sobre a perda do uso das terras e que havia mais de 20 anos alugava as terras da capela e continuava depositando em juízo, em Campanha, o valor do arrendamento das terras da Fábrica. Por sua vez o padre Lourenço se defendeu dizendo que este pagava muito pouco, arrastando esta briga, possivelmente por toda a década de 1820.
As dificuldades encontradas para se estabelecer a paróquia foram imensas, pois afinal demorou mais de dez anos para se concretizar tal empreitada, e a demora não se deveu única e exclusivamente às brigas locais. Os contatos e as negociações realizados em 1818, não resistiram às mudanças ocorridas ao longo dos anos 1820.

Em 1831, a negociação ainda se arrasta por aqui, envolvendo uma triangulação: Boa Vista de Itajubá, Campanha e a Corte do Rio de Janeiro. Os sesmeiros locais, interessados em desenvolver novos negócios e antevendo a ampliação do comércio através de um novo caminho recém aberto, o caminho hoje desconhecido do Pitu, (a tendência é que a Soledade iria ficar isolada como rota e perderia a importância estratégica na ligação comercial com Guaratinguetá e consequentemente com o litoral) levaram os moradores da Soledade do Itajubá, ou Itajubá Velho, a se revoltarem contra o Padre Lourenço, especialmente quando ele tentou acabar com a paróquia e quis, inclusive, levar a imagem da padroeira para a nova paróquia.

Em 1851, quando o padre Lourenço escreveu oficialmente no Livro dos Escravos, ele salvaguardou os interesses dos moradores dos anos 1850, mas não pode escrever todo o desenrolar dos fatos fielmente como o ocorrido. Sendo assim lançou mão de uma metáfora: contando sobre uma grande viagem (como um novo Moisés), descreve a vinda de um povo quase perdido na pobreza de um local atrasado, levado por ele para uma boa terra, um grande povo que faz jus a esta terra, agora reivindicada, no seu tempo presente.

Não pode escrever que o ano de 1818 foi de negociações na Corte, o de 1819 foi o de negociações na região envolvendo os sesmeiros; mas olhando os registros em Delfim Moreira descobri que o padre Lourenço somente assina os documentos das “desobrigas” na Igreja, e que, em março (no dia 19) de 1819, ele estava realizando batizado em Soledade. Por isso a imprecisão que fica, da imprecisão sobre as datas apresentadas em sua história escrita durante os anos 1850. Ele não podia contar com fidelidade os fatos, mas também precisava ser o mais próximo possível da realidade. E o melhor caminho é o da parábola, pois nela o narrador pode prescindir do tempo real, e ser mais vago na datação. O que poderia ser mais singelo? Ao descrever que “na véspera do dia dedicado ao meu santo de devoção, São José, reuni o povo de Soledade para virmos a esta terra e na manhã seguinte celebramos uma missa ao meu santo de devoção”. Olhando deste ângulo, o leitor não tem dúvidas sobre as intenções do padre Lourenço em dedicar uma nova capela a São José. Entretanto o historiador deve interpretar estes fatos sob a luz do contexto de 1850, onde a Vila de Itajubá está em formação, investimentos pesados estão sendo feitos e, para as autoridades imperiais, a população deve estar calcada em uma história convincente sobre suas origens. A datação do início do povoamento pode ser vaga, mas as intenções de se fixar e colonizar a terra devem ser precisas. Então para a população residente na Vila em 1850, as oitenta famílias ora moradoras do povoado que pretende o status de vila, vieram com padre Lourenço em março de 1819 e permanecem na região desde então. Oitenta famílias em êxodo em 1819 é um absurdo que por si só já desmontaria a versão descrita. Se Soledade tivesse oitenta famílias, seria uma paróquia tão próspera que rivalizaria com Ouro Preto, capital da Capitania e depois da Província, na região do ouro e o padre Lourenço não teria condições sequer de cogitar uma mudança de sede para a paróquia, se ela fosse tão próspera.

A consolidação da Vila

Em 1832, com a finalização do processo para a criação da paróquia, o que se verifica é a continuidade do processo iniciado em 1818. Os anos 1830 são de grande agitação no país inteiro, muitos membros do governo português e famílias nobres havia voltado para Portugal, os mandatários na Corte eram outros e a possibilidade da criação de uma nova paróquia, tendo como padroeiro São José, era nula. Em face disto, embora já estivesse funcionando uma capela em Boa Vista do Sapucaí, com atividades independentes de Soledade e com uma prosperidade crescente, para quem estivesse lendo os autos do processo, no Rio de Janeiro, não saberia fazer esta distinção. A solução estava na retomada do processo, esta paróquia se chama Soledade de Itajubá, tem como padroeira Nossa Senhora da Soledade e mudou de sede. E depois de tanto tempo seus habitantes solicitam o reconhecimento como uma legítima paróquia nesta nova sede!

Estranhamente depois de 1832, e do incidente da luta na ponte, do encontro entre as populações das duas paróquias em luta pela posse da padroeira, o padre Lourenço sai de cena, tanto de Soledade como de Itajubá novo. É compreensível que em Soledade sua posição estivesse abalada diante da população desde 1829, quando parou de ir fazer as desobrigas, as relações estariam bem azedas. Mas quase que ao mesmo tempo foi posto de lado também em Boa Vista e, com relação a isto há apenas hipóteses. A mais provável é a tendência do Padre Lourenço de querer controlar a população do mesmo modo que exercia o controle desde que os havia atraído para a nova paróquia. É bom lembrar que os anos 1830 eram outros e os mandatários também. A influência política do Padre Lourenço minguaram e ele se viu superado como líder local.

A análise do início do povoamento de Itajubá deve então ser feita ao longo de um período entrecortado por três fases distintas: a negociação de 1818-19, a consolidação da paróquia em 1832 e a criação da Vila em 1848-1849. Todos estes períodos costurados em uma metáfora muito bem elaborada pelo padre Lourenço, que apesar de estar exilado do outro lado do rio Sapucaí, e, poucos anos antes de sua morte, consegue legitimar a posse da terra para todos os moradores da Vila recém criada. O “mito do Padre Fundador” ficou estabelecido através do documento criado por ele, para legitimar o direito dos moradores da vila, diante da Corte, com a nova Lei de Terras, tão forte se tornou este mito, que até hoje perdura no imaginário e na documentação que foi repetindo as palavras do Padre Lourenço sem fazer nenhuma crítica. Se falarmos na “Grande Marcha” do Moisés do Sapucaí…Bem, aí então, teríamos um verdadeiro desmontar da história. Mas os documentos estão aí para serem estudados, investigados, cotejados e comparados, inseridos numa perpectiva mais ampla e global. Eis o desafio para cada um de vocês, estudiosos da história e futuros historiadores.”

LIMA, Rosana Meire. “Não me considero professora”: formação e práticas escolares nas memórias de Nair Mendonça Martins (Minas Gerais 1945 a 1990) 2006.78 p. (Dissertação – Mestrado em Educação). Universidade Vale do Rio Verde – UNINCOR – Três Corações – MG.

Palavras chaves: Formação de Professores, Memória, Identidade

Este trabalho analisa a formação de professores a partir das memórias de Nair Mendonça Martins que atuou em escolas rurais e urbanas de Minas Gerais entre os anos 1945 e 1990. O estudo faz uso das tendências metodológicas dos trabalhos sobre memória e formação de professores. As experiências de Dona Nair Mendonça Martins, professora de ensino primário nas cidades de Brazópolis e Piranguinho, foram reconstituídas a partir de fontes orais, escritas e visuais que possibilitaram também repensar o trabalho docente e sua contribuição para a formação da sociedade brasileira.

A pesquisa teve como objetivos: identificar elementos do processo de sua formação, reconhecer traços constitutivos de sua identidade como professora e analisar as políticas educacionais da época. A metodologia, com enfoque qualitativo, procurou reconstruir sua trajetória profissional contextualizando-a por meio da pesquisa bibliográfica e delineando-a através de entrevistas semi-estruturadas com amigos e companheiras de profissão, consulta aos cadernos de formação, ao diário de alunos, ao caderno de memórias, além de outros documentos de seu arquivo pessoal. As múltiplas atividades escolares, desenvolvidas conforme a orientação da política educacional do período em foco, revelam o dinamismo de uma mulher que ancorava sua ação nos valores tradicionais da família, da pátria e da religião.

A formação da professora rural, através dos cursos de treinamento, expõe principalmente as concepções de nação, de cidadania e de educação vigentes nos anos cinqüenta e permitem construir um esboço de uma face do Brasil cujo período industrial ainda dava passos tímidos. Vislumbra-se, assim, a situação conflitiva experimentada pela professora não titulada diante da professora normalista. Esse drama pessoal e coletivo ocorria dentro do jogo clientelista dos velhos coronéis da política local. Nesse contexto, Dona Nair fez-se professora e tornou-se uma alfabetizadora reconhecidamente competente. Por tudo isso, seu arquivo pessoal constitui uma importante fonte para estudos sobre a formação de professores no sul de Minas.

Debruçar sobre os documentos para recompor as práticas escolares daquele tempo não significa apenas lançar um olhar sobre o passado. Se memória é um termo que chama a atenção para a relação entre o passado e o presente, é muito mais este que, na atual conjuntura, se volta para aquele perguntando desesperadamente: o que é ser professor?