Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

Archive for março 2011

“De 22 a 29 de outubro de 1933 realizou-se em Itajubá, com brilhantismo e grande afluência de fiéis do município e de todas as cidades vizinhas, o Congresso Católico, durante o qual foram pronunciadas aproveitáveis palestras sobre vários temas religiosos muito oportunos.”

Esta referência encontra-se no livro História de Itajubá, de Armelim Guimarães (1987, p. 565), ao lado de outras de uma série de eventos religiosos que datam de 1874 e se estendem até 1987. Nas páginas 567 e 568 foi transcrita a Ata da Assembléia Geral de 22 de outubro, sob a presidência do Padre João Batista Van Royen. A leitura das atas das sessões, que podem ser encontradas no “arquivo” da Paróquia da Soledade, permite uma sondagem a respeito do ideário que se pretendia implementar na organização da sociedade brasileira da época.

A realização do “1º Congresso Católico de Itajubá” ocorreu no momento em que a Igreja Católica buscava fortalecer os laços de cooperação com o Estado. Seria uma tentativa de reconstruir, sobre novas bases, a antiga Cristandade? Por Cristandade entende-se uma determinada concepção de sociedade em que valores cristãos são constitutivos do cotidiano e orientadores de práticas sociais, econômicas e políticas de uma Nação.

“Aí a sociedade civil e a comunidade dos fiéis formam uma única entidade, operando os chefes políticos e religiosos numa íntima união e colaboração. É o que se designava, desde a época medieval, a união dos poderes, civil e eclesiástico, e, sobretudo a partir da época das Cruzadas, a união entre a espada e a cruz” (Azzi, p. 7).

Seria, então, o sonho de um país cristão, mais especificamente católico. O hino oficial II Congresso Eucarístico Nacional, em Recife, proclamava: “Creio em ti, Hóstia Santa, até a morte! Quem não crê, brasileiro não é!”.

Essa identificação tão profunda entre ser cristão e ser brasileiro parecia natural, pois a Igreja esteve sob a tutela do Estado nos períodos colonial e imperial. Em 1916, porém, ao tomar posse da arquidiocese de Olinda, o arcebispo D. Sebastião Leme reclamara numa carta pastoral:

“Na verdade, os católicos, somos a maioria do Brasil e, no entanto, católicos não são os princípios e os órgãos da nossa vida política. Não é católica a lei quenos rege. Da nossa fé prescindem os depositários da autoridade. Leigas são as nossas escolas, leigo o ensino. Na força armada da República, não se cuida da religião. Enfim, na engrenagem do Brasil oficial não vemos uma só manifestação de vida católica. ” (Azzi, p.25)

O que ocorrera, então?

Na segunda metade do século XIX desenvolvera-se um movimento liderado pelos bispos, comandado pela Sé Romana dirigida por Pio IX, conhecido como Reforma Católica. Em 1864, o papa Pio IX promulgara um documento, o Syllabus, condenando as liberdades modernas, definindo a postura antiliberal do movimento. Ao mesmo tempo, era declarada a autoridade inconteste do Pontífice, através do dogma da infalibilidade papal. No Brasil, essa orientação provocou a Questão Religiosa dos anos 1872 a 1875.

A proclamação da República, em 1889, libertou a Igreja da tutela do Estado, mas, ao mesmo tempo, tirou-lhe os privilégios de que tinha gozado. Daí os lamentos de D. Leme e o esforço da Igreja Católica brasileira para recuperar suas prerrogativas através de um discurso de colaboração íntima entre os poderes temporal e religioso. Não se tratava de mero ardil para obtenção de benesses, mas da convicção de que a sociedade só estaria adequadamente ordenada pela ação conjunta das hierarquias desses poderes. Essa investida católica, no período republicano, é denominada Restauração Católica.

Interessaria à República dos Coronéis, ameaçada por movimentos sociais – alguns de caráter messiânico – extremamente “perigosos”, o apoio dessa instituição que, desde o período colonial, mantivera laços estreitos com o poder, dotada de eficiente mecanismo de controle social? A República permitira a entrada de congregações estrangeiras que promoviam a romanização do catolicismo brasileiro. Iniciativas religiosas populares, potencialmente “anárquicas ou subversivas”, eram submetidas ao controle do clero ou substituídas por devoções européias comportadas e subordinadas ao clero. Pregava-se a superioridade dos sacramentos ¬ministrados por padres – sobre quaisquer outras devoções. Sem os recursos financeiros do Estado, mesmo as ordens religiosas que visavam o assistencialismo, acabavam por criar colégios onde filhos das oligarquias e da nascente burguesia estudavam. Ocorria, portanto, uma mútua e conveniente assimilação de influências de uma formação escolar dentro dos padrões europeus e de uma postura política guiada pelos interesses dos grupos dominantes nacionais. Da Europa vinham também a experiência e a urgência do combate às novidades perniciosas do século: o liberalismo, o socialismo e o comunismo.

O centenário da independência coincidiu com a criação do Partido Comunista do Brasil e com a Semana da Arte Moderna. A Revolta do Forte de Copacabana marcou o início das rebeliões tenentistas. O Estado deveria, sim, contar com a Igreja. Em 5 de maio de 1924, discursos do Ministro das Relações Exteriores, Felix Pacheco, e do Cardeal Arcoverde, num banquete oferecido oficialmente aos bispos no Itamarati, selaram o pacto de mútua colaboração oficial entre Igreja e Estado no Brasil:

“O Brasil precisa do concurso de todas as forças vivas da nacionalidade para se refazer na disciplina, no respeito da autoridade, na prática das virtudes, na obediência à lei, na lealdade aos deveres públicos, no trabalho útil e na independência responsável e sem ódios. Entre essas forças vivas a que aludo, e indispensáveis ao trabalho urgente de reconstrução geral do país, nenhum maior do que a Igreja “(Felix Pacheco, in Azzi, p.33)

Em 1930, o cardeal Leme aconselhou Washington Luís a deixar o poder e o acompanhou na saída quando foi deposto pelo Movimento de 30. O mesmo cardeal celebrou a missa solene de ação de graças pelo restabelecimento da paz com a presença de Getúlio Vargas. Em 12 de outubro de 1931, foi inaugurado o Cristo Redentor no Corcovado com a presença do presidente e do seu ministério.

A primeira assembléia geral do Congresso Católico em Itajubá ocorreu no dia 22 de outubro de 1933, na igreja matriz da paróquia de Nossa Senhora da Soledade.
A mesa que presidiu os trabalhos daquela noite foi composta pelo padre João Batista Van Royen, presidente da Comissão Central Executiva do Congresso Católico, e por representantes de diferentes secções: doutor José Ernesto Coelho (operários), padre Mathias Mysters (Comissão de Cerimônias Religiosas), doutor Manoel Cintra Barbosa Lima (profissões liberais), doutor Antônio Rodrigues de Oliveira (professores e estudantes), major João Antônio Pereira (indústria e comércio), major Severiano Ribeiro Cardoso (tesoureiro da Comissão Executiva), professor Jorge Boucherville (professores e estudantes) e João Pinto de Souza (comissão de propaganda e imprensa). “Noutro plano anterior à mesa, ao lado do altar-mor”, estavam as senhoras Annita Pinto Santiago, Emília Sanches Coelho, Maria Rennó Guimarães, senhorita Lygia Coelho, doutor Luiz Lima Vianna, padre Adriano Baymas (comissão de música e cantos). Foi secretário geral o doutor Vicente Sanches e secretários adjuntos o doutor João Pereira dos Santos, Aristóteles do Nascimento Teixeira e Mário Carvalho. Para a realização do evento, cada congressista contribuiu financeiramente com seu “óbolo” e um agradecimento especial revela o patrocínio da Cia. Imobiliária Kosmos, do Rio de Janeiro.

Orações, leituras de mensagens de ausentes distintos e de telegramas enviados a diferentes autoridades eclesiásticas, poesias e cânticos (Peuple, louez le Christ, de J.S.Bach; Ave Maria, de Carlos Gomes; La Vierge à Ia creche, de Caesar Frank) acompanharam a realização dos trabalhos da noite.

Confirmando as preocupações da Igreja brasileira, a conferência do padre João Batista Van Royen teve como tema “A Recristianização da Sociedade”. Os trechos citados na ata destacam a luta a ser travada contra o individualismo e a ditadura financeira. Faz referências, na argumentação, às origens dos três movimentos de reação ao individualismo da época: o comunismo, o fascismo e o nazismo. Obtiveram sucesso nos respectivos países porque seus povos recorreram às antigas tradições para produzirem a reforma moral necessária. Se tais ideologias – com as conseqüentes ditaduras – não eram adequadas ao povo brasileiro, retomar o fio das tradições se fazia necessário. A recristianização da sociedade brasileira seria, portanto, o caminho natural a ser seguido. Daí a necessidade de “socializar” idéias e sentimentos e trabalhar para que os bens materiais e morais da Nação estivessem ao alcance de todos, sem exceção.

A outra conferência da noite foi proferida pelo doutor José Ernesto Coelho que dissertou sobre “A Família, Instituição Divina”. Após apresentar a origem divina do casamento, o conferencista alertou sobre as “profanações modernas” do sacramento, o divórcio e o anti-concepcionismo. Não faltou a célebre expressão “cellula mater da sociedade”.

Ao encerrar os trabalhos, o presidente convidou a todos para uma reunião da Secção de Catequese, a realizar-se no dia seguinte, recomendando-a aos que. se dedicavam à educação e ao ensino. A área educacional era considerada prioritária pelos bispos por vários motivos. Além dos perigos do ateísmo, era necessário combater o laicismo em voga representado pelo ideário da Escola Nova. No campo religioso, os adversários eram o espiritismo e o protestantismo. Para enfrentá-los tornava-se urgente superar a ignorância religiosa em que vivia o povo brasileiro. O caráter doutrinário da Igreja marcava suas ações e estava presente nos documentos pastorais. O catecismo tridentino brandido vigorosamente refletia a relação de dependência da hierarquia eclesiástica às determinações romanas.

O Congresso Católico, nos dias seguintes, discutiria as grandes questões que afligiam a ordem estabelecida pela República naquele momento.

Bibliografia

Atas do 1º Congresso Católico de Itajubá, 22 a 28 de outubro de 1933. Transcrição de Julio César Moreno.
AZZI, Riolando. A Neocristandade: Um projeto Restaurador, São Paulo, Paulus, 1994.
GUIMARÂES, Armelim. História de Itajubá. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.