Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

Resenha de História dos Concílios Ecumênicos, de Giuseppe Alberigo

Posted on: dezembro 30, 2009

O CONCÍLIO VATICANO II de Giuseppe Alberigo

Padre Antônio Cássio Vaz

INTRODUÇÃO

O capítulo 9 do Livro História dos Concílios Ecumênicos traz a história do Concílio Vaticano II, de autoria do historiador da Igreja Católica, falecido em junho de 2007, Giuseppe Alberigo, que é também o organizador deste livro editado e revisado pela Editora Paulus, em 1995. Uma narrativa fluente e clara conduz o leitor pelos caminhos da convocação e organização do evento que representou a grande revolução na Igreja Católica, uma instituição que nos séculos anteriores resistira tenazmente aos avanços do liberalismo, do secularismo e do progresso das ciências, portadores do anúncio da “morte de Deus”. É a partir do capítulo anterior sobre o Vaticano (1869–1870) que o autor inicia sua narrativa explicando como a Igreja se mostrava avessa às novidades, com o poder de decisão fortemente centrada na figura do papa, permanecendo o episcopado no papel de mero coadjuvante na condução da instituição. O século XX traria novos desafios: guerras – sangrentas ou ideológicas –, formação do bloco comunista, experiências totalitárias, horrores racistas, processo de descolonização, desenvolvimento de uns e subdesenvolvimento da maioria. Práticas democráticas, por outro lado, preconizavam novos modelos de sociedade e de conquista do poder, enquanto transformações culturais introduziam novos sujeitos e movimentos na cena pública – as mulheres e os jovens, por exemplo –, sem falar dos enormes avanços técnico-científicos e das novas linguagens da comunicação. Agigantavam-se os obstáculos ao entendimento de rituais seculares e fórmulas doutrinárias cristalizadas. Coube a um homem, segundo o autor, a iniciativa de abrir a Igreja ao mundo moderno através da realização de um novo concílio: Angelo Giuseppe Roncalli, o “bom” papa João XXIII.

1 – CONTEÚDO

O capítulo descreve cronologicamente o processo que inaugurou a conciliação da Igreja com a Modernidade. Com o mesmo nome do primeiro Vaticano, o Concílio Ecumênico Vaticano II não pretendia ser uma continuação ou apenas o fechamento das “contas” deixadas em aberto pelo outro, abruptamente interrompido em 1870, por ocasião da guerra franco-alemã. João XXIII, o “papa da transição”, assumindo sua responsabilidade como bispo de Roma e pastor da Igreja universal, anunciou a decisão em janeiro de 1959, três meses depois de ter sido eleito, provocando surpresa geral e mobilizando católicos do mundo inteiro. Anúncio feito, trabalhos preparatórios em marcha, consultas aos episcopados e organizações oficiais católicas, formação de comissões, estabelecimento de um regulamento para o funcionamento da assembleia conciliar: foram dois anos de atividades frementes e de grandes expectativas. No processo preparatório delineou-se a forma de funcionamento: a preocupação foi ouvir as mais diferentes vozes embora permanecessem inaudíveis as vozes das organizações espontâneas que se multiplicaram pelo mundo católico na esperança de ver sua Igreja renovada. Ficou definido que o concílio teria os bispos como protagonistas, preservaria a unidade da Igreja Católica sem visar a união entre tradições cristãs separadas, não assumiria postura condenatória de qualquer espécie, mas seria marcado pela pastoralidade, atendendo as necessidades gerais da Igreja e superando dicotomias como doutrina-disciplina. Num contexto histórico marcado por lutas contra a desigualdade e o colonialismo, o papa manifestou a intenção de apresentar uma nova face da Igreja, que integrasse em sua mensagem evangélica todos os povos, principalmente os menos favorecidos. Novidade em relação a outros concílios, observadores das Igrejas cristãs não católicas tiveram definido seu espaço nas sessões solenes e nas congregações gerais, eventualmente também no trabalho das comissões.

O Concílio desenvolveu-se em 4 etapas, de 1962 a 1965, e teve que superar o desaparecimento de seu grande articulador, o papa João XXIII, falecido emblematicamente no Pentecostes de 1963, a 3 de junho de 1963. O texto caracteriza assim as diferentes fases: a primeira, de outubro a dezembro de 1962, teria sido a fase de “amaciamento” do episcopado afeito ao modelo de “Igreja-sociedade perfeita”, do período anterior. Nesse período destacaram-se os debates sobre a Igreja e a reforma litúrgica. O segundo período, de setembro a dezembro de 1963, já sob o pontificado de Paulo VI, caracterizou-se pelas discussões sobre a natureza da Igreja e a colegialidade episcopal. A terceira etapa, de setembro a dezembro de 1964, foi tensa e conturbada pela resistência da minoria conciliar, por influências externas, pelos intensos debates que dificultavam definições dos textos finais sobre a Igreja, o ecumenismo, a liberdade religiosa e as relações entre a Igreja e o mundo contemporâneo. O quarto e último período, de setembro a dezembro de 1965, foi marcado pela urgência em concluir os trabalhos e o próprio Concílio. Era necessário proceder às votações dos documentos definitivos, o que exigiu a redução dos debates. O texto apresenta também o intenso trabalho desenvolvido nos intervalos e as modificações regulamentares que objetivavam aperfeiçoar a metodologia de trabalho durante as sessões conciliares, desatar nós que travavam o processo e acelerar, amenizando os conflitos, a produção das definições necessárias.

O Concílio foi encerrado formal e festivamente em 8 de dezembro de 1965, festa da Imaculada Conceição de Maria – proclamada Mãe da Igreja durante o Concílio –, com a carta apostólica “In Spiritu Sanctu” do papa Paulo VI, aprovando as decisões conciliares e apelando ao mundo católico para que as observasse. O autor do capítulo conclui que o Vaticano II foi fiel ás intenções de seu idealizador, João XXIII: manteve o caráter pastoral, não impôs uniformidade nem rigidez às normas, não definiu sanções disciplinares, convocou todo o povo de Deus para a ação no mundo contemporâneo, à luz da fé e em consonância com o Evangelho.

2 – DESTAQUES

O texto permite, de maneira explícita ou nas entrelinhas, a apreensão de vários aspectos importantes das transformações em curso na Igreja Católica. O discurso do papa João XXIII, quando do anúncio do grande evento já propusera a renovação de todos os setores da Igreja. No decorrer das atividades preparatórias ficava evidente de que o Concílio deveria colocar em discussão a necessidade de diálogo entre a Igreja Católico e o mundo moderno. A iniciativa era de acolhida e não de condenação, e, mantendo a fidelidade à autêntica doutrina, propunha o discernimento ante o novo, vendo com esperança a emergência de um novo ciclo histórico.

Nesta perspectiva, todos os acontecimentos se revestem de importância conforme a predileção do leitor por este ou aquele aspecto da vida e da atuação da Igreja Católica. Não se pode deixar de salientar, no entanto, o eixo do amplo debate ocorrido naquele contexto: a autodefinição da Igreja e suas relações com o mundo contemporâneo. Antes de comentar este destaque, cabe mencionar a importância dos dois dirigentes do processo: os papas João XXIII e Paulo VI. O primeiro é apresentado como o grande idealizador, realizador e inspirador de todo o processo. Antes de falecer publicou a encíclica “Pacem in Terris” dirigida a todos os homens de boa vontade, na qual superava a teologia da guerra justa. Seu falecimento provocou uma onda de inquietação devido à força dos opositores às reformas conciliares e à interrogação com relação ao sucessor. Cardeal Montini, eleito papa Paulo VI, encarregou-se de afastar os temores dando prosseguimento ao processo conciliar na trilha aberta por João XXIII. Apesar disso, o texto deixa entrever que, apesar de sua disposição, Paulo VI foi mais sensível à pressão da minoria conservadora.

Percebe-se, pela narrativa, que os objetivos do Concílio foram se delineando com maior clareza ao longo do processo. Sempre preocupados em apresentar ao mundo um clima de fraternidade e concórdia, e tendo como horizonte a unidade dos cristãos, os padres conciliares discutiram questões fundamentais da fé e da organização institucional católica. O êxito do Concílio revelou-se profundamente condicionado à imagem que a Igreja projetaria de si mesma, isto é, à definição de sua identidade e de sua função no mundo. Para isso era necessário decidir sobre a nova fisionomia da Igreja de Cristo, discutindo e redefinindo princípios essenciais como o fundamento batismal, o sacerdócio universal, a vocação à santidade, a natureza do colégio episcopal, o lugar do laicato e as relações com o mundo. Disso dependeriam todas as outras proposições. Palavras corajosas do papa João XXIII, radiomensagem antes da abertura dos trabalhos, adiantava alguns traços do novo rosto da Igreja: diante de um mundo dilacerado, ela deveria ser a Igreja de todos, “particularmente dos pobres”.

Satisfazer os anseios por mudança e colocar a Igreja em sintonia com as transformações pelas quais passava o mundo exigia um repensar teológico e atitudes concretas. Questões como a Revelação e a importância da Tradição, por exemplo, revelavam-se delicadas mas importante para a abordagem das relações com outras igrejas cristãs. Era urgente, porém, descobrir primeiro quem teria voz dentro do processo. Um passo importante foi dado logo no início, através da intervenção de alguns cardeais, que pediram prazo para a eleição das comissões, negando a manutenção das comissões preparatórias. Segundo o autor, tal atitude representou o primeiro sinal da consciência conciliar, sem subserviência às decisões previamente tomadas. Infere-se daí que a condução do Concílio migrava das mãos da cúria romana para as da assembleia conciliar. Corroborava-se assim as palavras de João XXIII, já enfermo,: “o Concílio recebe suas diretrizes do Papa, que o convocou, mas ao mesmo tempo cabe aos bispos zelar pelos seu livre desenvolvimento (…) cabe aos padres conciliares propor, discutir, preparar, na devida forma, as sagradas deliberações.” Apesar da conquista, essa assembléia “plurinacional” precisava estabelecer mecanismos de comunicação entre seus membros para garantir a máxima participação possível nos trabalhos. De início, isso já se revelou uma tarefa praticamente impossível.

Apesar das dificuldades, o processo foi produtivo e, praticamente, a porta de entrada para as importantes renovações abriu-se já na primeira sessão com as discussões sobre a reforma litúrgica. As votações sobre o esquema pré-elaborado e sobre cada capítulo avançaram com o apoio de grande maioria. Expressava-se assim a compreensão de que novos tempos haviam chegado e de que urgia restabelecer a conexão entre Igreja e povo através de uma mensagem evangélica acessível e compreensível por todo povo de Deus graças à adoção do vernáculo. A reforma pressupunha a centralidade da Igreja local como autêntica comunidade cristã reunida em torno de seu bispo. Ao mesmo tempo conferia importância à liturgia da Palavra ao lado da liturgia eucarística, em consonância com o princípio da centralidade da Palavra de Deus que convoca o povo de Deus à santidade. Para Giuseppe Alberigo, dos esquemas preparatórios, o da reforma litúrgica fora o único que obtivera consenso e obteve ampla aprovação, sem muitos traumas, porque resultava de anseios acalentados há muito tempo em várias partes do mundo. Em suma, respondia às expectativas de um movimento anterior em curso. Ela foi consagrada no encerramento da segunda etapa, em 4 de dezembro de 1963, com a aprovação da constituição sobre a liturgia, Sacrossanctum Concilium.

A discussão sobre a identidade da Igreja permeou os quatro períodos e, segundo o autor, representou os momentos fortes do Concílio. Diferentes projetos de Igreja, defendidos por escolas teológicas, contribuíram para as discussões. Circulavam, por exemplo, o projeto romano, responsável pelos trabalhos preparatórios, o projeto belga, elaborado por teólogos da Universidade de Lovaina, o projeto alemão, caracterizado pela inspiração bíblica, e a experiência da Igreja da América Latina representada pelo projeto chileno. Ao final da primeira etapa, já era aceito pela maioria que a Igreja devia se abrir e se colocar à disposição da humanidade, sem negar o mistério de sua união vital com Cristo que lhe conferia a condição e portadora da salvação para os homens. Este era, para o cardeal Montini, o ponto central da revisão eclesiológica. O arcebispo de Bolonha, Lercaro, destacava a exigência da pobreza da Igreja como sinal de sua encarnação num mundo extremamente desigual.

No desenrolar das etapas, foram sendo definidos os eixos da elaboração de um documento que pudesse oferecer a mundo a visão que a própria Igreja tinha de si. O que é a Igreja? Era preciso considerar e deliberar sobre diferentes aspectos como lugares, atribuições, responsabilidades e formação do clero – papa, bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, Igreja local e Igreja universal, conferências episcopais – e do laicato. As discussões sobre o ecumenismo envolveram princípios já consagrados, critérios de atuação, definição de bases para o relacionamento com os ortodoxos, com as igrejas cristãs não católicas, com as religiões não cristãs. O quesito das relações da Igreja com os hebreus apresentou dificuldades devido ao antissemitismo católico vigente e da oposição dos pares árabes ou filoárabes. Para o relacionamento com o mundo moderno, estava evidente que a melhor contribuição era já a autorrenovação porque, com ela, a Igreja superava a concepção de “perfecta societas” e assumia o papel de cooperadora na salvação dos homens. Não seria fácil, no entanto, para uma instituição que se mantivera tanto tempo apartada do mundo, produzir uma reflexão conceitual suficiente sobre essas relações. Era necessário aprender a reconhecer os sinais dos tempos aceitando a sacralidade da vida no mundo. Teria que enfrentar questões postas pela realidade contemporânea como a corrida armamentista e a guerra, o sofrimento e a fome, a família e suas demandas – principalmente a questão da procriação –, os novos meios de comunicação, os avanços da ciência e a importância das culturas, o secularismo e o ateísmo, as missões e a crise de identidade dentro do próprio clero católico.

Na terceira etapa, no dia 21 de novembro de 1964, foi aprovada a constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium. Neste documento, abandonada a concepção triunfalista, a Igreja é apresentada como “sacramento de Cristo, luz dos povos”, povo de Deus peregrino na história em busca da salvação. É reconhecido o sacerdócio comum dos fiéis pela aliança eterna renovada com Deus e culminada no mistério da cruz e ressurreição de Cristo. A meta dessa marcha é o Reino de Deus e a Igreja de Cristo se realiza na Igreja católica, presidida pelo pontífice romano, mas não se esgota nela. Os bispos, sucessores dos apóstolos por instituição de Cristo constituem um corpo ou colégio, recebem na consagração sacramental a participação na tríplice autoridade do Cristo, de santificar, ensinar e dirigir a Igreja local confiada a cada um, e, junto com o bispo de Roma, a Igreja universal entregue a todos. A autoridade dentro dessa hierarquia está a serviço dos fiéis. Vale lembrar que Paulo VI houvera, em setembro de 1965, definido a constituição do sínodo dos bispos com funções consultivas em relação ao Papa. Tratava-se de um avanço em relação ao Vaticano I e trazia uma nova configuração para o rosto da Igreja como um corpo vivo, em contínuo crescimento, composto não apenas pela hierarquia eclesiástica, mas por todo o povo de Deus.

Dois atos de grande repercussão representaram a nova postura da Igreja: o encontro de Paulo VI com o patriarca Atenágoras em Jerusalém, em janeiro de 1964, e sua visita à ONU, em outubro de 1965. A abertura, no entanto, apenas começava e só o tempo permitiria uma reflexão profunda e clara sobre a nova realidade. Na sessão solene do dia 7 de dezembro de 1965, véspera do encerramento do Concílio, foi aprovada a constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, Gaudium et Spes. Ela expõem o pensamento da Igreja sobre o homem, sobre o mundo e sobre as relações do homem com as realidades que o cercam. Segundo o autor dessa história, o texto da constituição pastoral revela dificuldades no entrelaçamento de considerações teológicas e argumentos sociológicos, otimismo evangélico e ingênua confiança no progresso. Considera que teria sido melhor confrontar os aspectos mais importantes – dignidade humana, família, cultura, vida econômica, paz – com evocações evangélicas do que tecer considerações filosóficas sugerindo a recriação de uma doutrina social que o próprio documento já superava. Como sinal de disposição imediata a colocar em prática o que se decidia, foi apresentada a recíproca revogação das excomunhões que tinham sido mutuamente impostas entre Constantinopla e Roma, por ocasião do cisma do século XI.

Um último destaque cabe aos limites do processo conciliar e à intensa luta por sua superação. O texto descreve as inúmeras dificuldades surgidas no decorrer dos trabalhos. Aponta a formação de dois blocos: uma maioria que defendia as reformas e uma minoria opositora comandada pela cúria e pelos episcopados italiano e espanhol. A preocupação com a perda do controle sobre a Igreja universal acirrou as discussões sobre as atribuições do colégio episcopal e o papel das conferências episcopais, sobre o primado papal e importância da Igreja local, sobre a liberdade de expressão dos leigos e de suas organizações. Focos de resistência representavam o compromisso de muitos episcopados com poderes políticos e contextos culturais diversos, criando obstáculos às decisões sobre a liberdade religiosa, sobre a relação com os hebreus, sobre a posição da Igreja em relação à guerra “defensiva” ou à corrida armamentista. Tais posições dificultaram e interferiram nas conclusões conciliares. Pediu-se também a condenação do ateísmo, do marxismo e do comunismo, mas o Concílio não se reunira para lançar anátemas.

Outras dificuldades eram inerentes à amplitude do processo e à metodologia dos trabalhos. Provocaram muitas controvérsias e as normas de funcionamento das atividades foram sendo adaptadas a cada etapa para agilizar os trabalhos das comissões e para permitir que as múltiplas intervenções dos padres conciliares pudessem ser levadas em conta. No início isso se mostrou impossível, pois a pluralidade de delegados, oriundos de realidades culturais diferentes, era obstáculo ao pleno entendimento de tudo o que se discutia. Acrescente-se a isso o enorme volume de trabalho – a “maratona olímpica” dos padres – , a variedade de temáticas e grupos que exigiam tempo e espaço, a dificuldade de comunicação, as pressões externas e, por conseguinte, a ausência de um clima espiritual propício à tomada de importantes decisões. Para completar, à medida que as etapas avançavam, crescia a preocupação com os custos e com os longos períodos de ausência dos pastores de suas dioceses. Quanto à cúria romana, esta, mesmo reformada, ansiava pela volta à normalidade.

3 – APRECIAÇÃO

O texto é didático, de fácil leitura e compreensão para o leitor medianamente informado sobre a doutrina e a história da Igreja nos últimos tempos. Trata-se de uma história factual, que dentro de uma linearidade cronológica vai informando sobre os principais acontecimentos, selecionados pelo autor, do Concílio Vaticano II. Apresenta a convocação, a preparação, as etapas, os trabalhos, os impasses e as correções, as definições e o encerramento. Entre os sujeitos desse processo, os padres conciliares, alguns nomes são mencionados como os dos cardeais Derlier, Tardini, Suenens, Bea, ou dos teólogos como Ratzinger, Congar, Gauthier ou Chenu, mas o leitor não encontrará maiores informações sobre eles. Evidentemente os principais destaques são os dois papas: João XXIII e Paulo VI. É possível, no entanto, descobrir nos padres conciliares – um coletivo – os verdadeiros sujeitos desse processo. Foram eles, no desenrolar da narrativa, os responsáveis pela manutenção do movimento conciliar na trilha dos objetivos já comentados: a redefinição da identidade da Igreja e o diálogo com o mundo contemporâneo. Tudo isso é apresentado em uma narrativa enxuta e agradável, acrescida da indicação das fontes utilizadas pelo autor.

É sabido que o autor dirigiu uma história do Concílio Vaticano II em cinco volumes. É natural, portanto, que o mesmo tema resumido em um capítulo do livro sobre a história dos concílios ecumênicos não possa dar conta de toda complexidade do processo conciliar. Resulta que, apesar de comentários sobre alguns documentos conciliares mal acabados ou simplificados, o sucesso do movimento conciliar pareça ter sido excepcional, como de fato o foi, e sem muitos traumas. Percorrendo as 47 páginas do capítulo, é possível acompanhar a vitória da maioria conciliar, apoiada pelos papas, aparentemente esmagando a oposição num movimento inevitável de ruptura com o passado. Os conflitos estão presentes e posições são tomadas em nome de grupos identificados pela contagem de votos ou pela indeterminação dos verbos na terceira pessoa. No saldo final, desaparecem as tensões ou todos se sujeitam ao consenso fraterno e à inspiração divina, sem maiores conseqüências. Até a célebre congregação do Santo Ofício estará sujeita à troca de nome e estatuto para adequar-se aos novos tempos. Trata-se de uma história com final feliz, mas isso não representa uma simplificação do autor. A brevidade do texto não permitiria ir além e tem a virtude de abrir portas para novas questões.

Ao ler este capítulo, o leitor se sentirá instigado a conhecer melhor o acontecimento que marcou a Igreja Católica no século XX. Para uma melhor compreensão, deverá se inteirar dos diferentes contextos que, no período anterior ao Concílio, produziram as condições para sua concretização. Ao tratar da reforma litúrgica, o autor a caracteriza como resposta a um movimento já existente. Referindo-se ao debate sobre a identidade da Igreja, são citados diferentes projetos de Igreja defendidos por correntes teológicas e por episcopados. Tais considerações permitem várias indagações: que projetos de Igreja eram esses e como afetaram os debates? Que movimentos leigos ou clericais – como a citada Ação Católica – existiam nesse período e de que formas dialogaram, contribuíram, resistiram, foram confirmados ou superados pelas definições conciliares?
Uma boa pesquisa bibliográfica sobre os movimentos em curso às vésperas do Concílio ajudará a compreender como um homem, no caso o velho papa, pode fazer a história ao captar os anseios e capitanear um processo de mudanças. Ao mesmo tempo poderão ser identificadas as múltiplas forças que se confrontaram dentro do Concílio, entender interesses e ações a partir de suas concepções de Deus, de Igreja e de mundo. Num mesmo universo, uns desejaram e defenderam corajosamente as mudanças e outros, refletindo estruturas mentais de outro modelo eclesial, concebiam a teologia tradicional como sistema acabado e resistiram às reformas e ao próprio Concílio. Que condicionamentos históricos produziram uns e outros? Existiram apenas os “prós e os contras”? Que grupos e que interesses transitaram entre os polos antagônicos? Com certa ousadia, seria interessante levantar a questão: como se dá, para além do “discurso competente”, a luta pelo poder dentro de uma instituição que tem por princípio e doutrina que poder é serviço?

De qualquer maneira, isso leva a uma realidade aparentemente desconfortável, mas natural: os bastidores com suas manobras ou articulações. Eis aí outro tema fascinante! Para além do olhar europeu, seria interessante verificar a atuação de bispos do quilate de D. Helder Câmara e de outros expoentes do episcopado latino-americano não apenas em intervenções diretas nas comissões, mas também em articulações que objetivavam participação mais intensa quando a voz de um representava posições e propostas já previamente discutidas por muitos. É preciso lembrar que na América Latina havia uma prática crescente no exercício da colegialidade episcopal e do trabalho em equipe tão importante numa assembléia conciliar. Era uma igreja inserida numa experiência original de articulação supranacional, a do Conselho Episcopal Latino- Americano, o CELAM. A história dos Concílios Ecumênicos não é toda a história. Nenhuma será.

CONCLUSÃO

O capítulo sobre o Concílio Vaticano II é uma importante porta de entrada na fascinante aventura vivida pela Igreja Católica na primeira metade dos anos sessenta do século passado. Suas linhas deixam entrever o momento de abertura às novidades e às exigências do mundo moderno, criando possibilidades para a superação de um modelo eclesiológico ultrapassado e deixando o futuro aberto – com a segurança das balizas conciliares – para a caminhada da Igreja. Fica claro na narrativa que se tratou de um processo inaugurador ou instituinte, abrindo portas para experiências novas. Não constituiu um ponto de chegada, mas de partida. A Igreja espantava o medo, derrubava suas muralhas e se expunha em sua fragilidade já que o caminhar poderia descortinar gratas surpresas, pungentes desafios ou sérios perigos a serem celebrados enfrentados ou corrigidos.

O olhar do século XXI, carregado das experiências pós-conciliares, tem a tentação de buscar no texto sinais de posteriores divergências dentro do próprio bloco que apoiou as reformas conciliares. Já se assistiu também ao ímpeto das reformas, assumidas por setores mais engajados e entusiastas, entrando em choque com a piedade popular e suas formas tradicionais de devoção. Foi preciso reaprender humildemente com o povo das comunidades o que o próprio Concílio preconizava: o respeito pela alteridade e a não monopolização do sagrado. Outros embates ocorreram e ocorrem ainda; há quem afirme que o tempo das experiências já se acabou. Expoentes dos antigos setores “progressistas” ocupam hoje altas funções na hierarquia e se revelam reticentes frente aos novos caminhos propiciados pelo vendaval que escancarou as janelas do Vaticano. Na realidade, tudo isso confirma o que o Concílio disse da Igreja: é um corpo vivo, povo convocado por Deus, em marcha numa história eivada de contradições e conflitos, tendo como meta a construção do Reino. É o que nos conta Giuseppe Alberigo.

ALBERIGO, Guiseppe (org.). História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Editora Paulus, 1995.

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