Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

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CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II ser ou não ser, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Patrícia Ribeiro de Castro Abbud

José Murilo de Carvalho é doutor em ciência política pela Universidade de Stanford, foi pesquisador e professor visitante em diversas universidades estrangeiras. Atualmente, é professor titular do Departamento de História da URJF. É membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências. Autor de obras como Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi (1987) e a Formação das Almas: o imaginário da república no Brasil (1990). Em sua obra D. Pedro II ser ou não ser apresenta um perfil do imperador do Brasil de 1940 até 1889, ano da proclamação da República. Realiza uma análise entre dois personagens em constante conflito: um, mais conhecido, é o D. Pedro II, que governou o Brasil por quase um século e o outro é Pedro de Alcântara, cidadão comum, amante das artes, das ciências e das letras, que detestava as pompas do poder e o ofício de imperador.

Para José Murilo, D. Pedro II foi um Habsburgo perdido nos trópicos. Homem de 1,90m, louro, olhos azuis penetrantes, barba espessa e embranquecida, num país de pequena elite branca cercada por um mar de negros e mestiços. Órfão de mãe logo depois de completar um ano de idade, e de pai aos nove, tornou-se o órfão da nação. Recebeu uma educação rígida. Procuravam fazer dele um chefe de Estado perfeito, sem paixões, escravo das leis e do dever, quase uma máquina de governar. Na verdade, foi educado para não se parecer com o pai, ensinaram-lhe a controlar ódios e amores, a ser contido. Contudo, por trás dos rituais da monarquia, havia um ser humano marcado pelas tragédias domésticas, cheio de contradições e paixões, amante das ciências e das letras, herança da mãe e um homem apaixonado pela condessa de Barral. Passou a vida tentando ajustar-se a um modelo de servidor público exemplar, exercendo com zelo um poder que o destino lhe pusera nas mãos.

De acordo com o autor, o imperador incorporou os hábitos da disciplina e pontualidade que lhe incutiram na infância. Ao longo da vida, sempre teve mania de estabelecer horários rígidos para tudo, onde quer que estivesse, no Brasil ou no exterior. Esclarece ainda que o imperador menino devia seguir rigorosamente um regulamento todos os dias como levantar-se às sete horas da manhã. O almoço era às oito horas sempre com a presença de um médico, para evitar comer muito, embora a comida nos palácios fosse considerada ruim, o imperador sempre apresentou ótimo apetite. Das nove às onze e meia deveria estudar, e somente divertir-se até a uma e meia. O jantar era às duas da tarde. A conversa sempre referente a assuntos científicos e de beneficência. Não poderia almoçar com as irmãs e somente frequentava seus aposentos depois do almoço. Havia no fundo uma necessidade de formar um príncipe perfeito, dedicado integralmente as suas obrigações, acima das ações políticas e dos interesses privados.

Frei Pedro de Santa Mariana foi nomeado primeiro preceptor de d. Pedro; além de assistir às lições, devia acompanhar o imperador durante o dia e fazer relatórios diários. Dessa forma, longe dos pais, educado por estranhos, fez dos livros um mundo à parte, em que podia isolar-se e proteger-se. Os deputados acompanhavam de perto a educação do príncipe, e muitas vezes criticavam a falta de exercícios e divertimento. Essas observações retiradas a partir do arquivo histórico do Museu Imperial relatam ainda que ,embora fosse considerado dócil e obediente, não era feliz. Era comum os funcionários acharem o menino pelos cantos choramingando e nesses momentos nada lhe agradava. Provavelmente em virtude de sua grande timidez, sua voz não engrossou, não adquiriu o timbre masculino.

José Murilo utiliza relatos da época de estrangeiros, funcionários e até mesmo de frequentadores dos palácios para constatar que a corte brasileira era uma das mais tristes e que o imperador não passava de uma sombra oculta, visível somente nas cerimônias oficiais. Isso pode ser percebido já nos primeiros anos do segundo reinado devido à insegurança e à inexperiência em relação a políticos calejados. Às vezes causava uma impressão desagradável por falar muito pouco, cumprimentar ou responder com a cabeça, além de aparentar um tanto quanto enfadonho.

Entretanto, para o autor, um fator que contribuiu poderosamente para o amadurecimento do imperador foi o casamento realizado em 1843. Com a maioridade, as negociações para a realização de um casamento começaram, mas d. Pedro não era bom partido. A família imperial não era rica, o Brasil era um país distante, exótico e sem importância. E ainda havia um agravante: o mau precedente de d. Pedro I. Casou-se por procuração com Tereza Cristina, irmã do rei das Duas Sicílias. Apesar de uma frustração inicial, gerada porque ela era quatro anos mais velha, baixinha, sem beleza e manca, o casamento contribuiu para dar segurança ao jovem de dezoito anos. Tornou-se mais confiante e mais expansivo nas funções oficiais e na vida social. A cidade alheia ao drama pessoal do jovem imperador comemorou as bodas por nove dias.

Em relação à questão política, o autor destaca o relacionamento do imperador com os ministros como um fato delicado até o fim do império. Na verdade as relações entre ele e os ministros estavam estreitamente ligadas às personalidades destes últimos. Mas havia duas regras básicas, a discussão em conselho ou com os ministros individualmente ou o direito de fiscalização. O imperador informava-se sobre tudo o que acontecia seja através de jornais, seja pelas audiências públicas diárias; era freqüente vê-lo em visitas à escola, repartições públicas e hospitais. De acordo com José Murilo, o diário imperial registra a convivência ao longo da vida com Caxias, seu conselheiro em matéria política e militar. A maioria dos ministros mantinha uma posição ambígua. Buscavam o prestígio do poder, mas consideravam excessiva a intromissão do monarca nos negócios do governo.

Nos arquivos da família imperial consta ainda uma grande quantidade de cartas, sobretudo do imperador para a condessa de Barral, provavelmente o grande amor da sua vida. Muitas cartas desapareceram porque o próprio imperador as destruía. De acordo com os relatos, a condessa responsável pela educação das filhas do imperador não apresentava muita beleza, mas d. Pedro ficou fascinado pela inteligência e pela cultura, de modo que tinha o costume de assistir às aulas das filhas inclusive as ministradas pela tutora. As cartas revelam que mantiveram uma correspondência de onze anos; além disso, revelam também o abatimento do imperador por usar pela primeira vez a força policial contra o povo ainda que Barral chegasse a ficar irritada com a falta de segurança do Palácio e a excessiva liberdade de imprensa. A convivência da condessa com a família real durou nove anos, despertou a paixão de d. Pedro, a amizade das princesas e o ódio da imperatriz.

O autor reconstrói todo o cotidiano da família imperial na maioria das vezes pelos textos do diário do próprio imperador, pelas cartas já mencionadas e pelos relatos dos visitantes, em sua maioria estrangeiros, que consideravam a realeza brasileira como uma monarquia sem corte. Isso porque o imperador era avesso às festas, eram poucas as recepções e os jantares considerados uma verdadeira calamidade. A comida era ruim, servida muitas vezes fria e por empregados malvestidos. Geralmente, os palácios eram mal iluminados, sem funcionários e sem a mais elementar etiqueta. Assim, a monarquia brasileira não produziu uma sociedade de corte; esse descaso constituiu um fator de isolamento social aliado ao isolamento político em relação à elite.

Para comprovar a modesta vida da família imperial, José Murilo recorre aos dados das viagens ao exterior, todas, sem exceção, custeadas com empréstimos porque d. Pedro se recusava a usar o dinheiro público. Por não entesourar, ao ser exilado teve de continuar a pedir empréstimos, que ainda não estavam pagos por ocasião de sua morte. Nessas viagens, apresentava-se com uma vontade insaciável de conhecer novos lugares e pessoas. Escreveu diários de quase todas as viagens, contudo, as do Brasil tinham um sentido político. Livre das cerimônias oficiais, que mal suportava, o imperador se dedicou ao que se tornou marca registrada de suas andanças: visitar igrejas, fábricas, conventos, hospitais, escolas. Em relação ao Brasil, deixou de conhecer somente terras que correspondem atualmente às regiões Norte e Centro-Oeste.

Embora não tivesse previsto um conflito armado com o Paraguai e estivesse totalmente despreparado para uma guerra, o governo brasileiro reagiu de imediato atendendo aos apelos da opinião pública à invasão do território nacional. Com a vitória na guerra, os militares voltaram cheios das ideias republicanas e passaram a fazer críticas ao regime monárquico e ao poder pessoal do imperador, divulgando através do Manifesto Republicano a incompatibilidade da monarquia com a democracia. Mas não fazia nenhuma referência à questão da abolição da escravidão. O imperador não deu muita atenção ao manifesto e ao movimento. Na verdade revelava-se um grande admirador das ideias republicanas e dizia que se o povo não o quisesse como imperador, seria professor.

Na parte central do livro, José Murilo da Carvalho realiza uma seleção por meio de fotos da trajetória do Imperador d. Pedro II como em suas viagens, a família imperial, cenas do cotidiano do Brasil, charges da época e pessoas destacadas na obra.

Uma paixão marcou tanto a vida de Pedro de Alcântara como o do imperador d. Pedro II: a paixão pelo Brasil, possibilitando que o homem que os obrigava a se dedicar integralmente à tarefa de governar o Brasil por meio século, realizasse com os valores republicanos, com a minúcia de um burocrata e com a paixão de um patriota. Foi respeitado por quase todos, mas não foi amado por quase ninguém.

A obra é indicada para todas as pessoas; não se restringe a um grupo específico. O leitor encontrará um imperador bem diferente de tudo que já foi escrito, livre dos pudores e da etiqueta obrigatória, mas aquele amante das ideias e das mulheres, avesso às festas e às cerimônias oficias consideradas enfadonhas. Pode-se esperar um imperador moderno para época, favorável às ideias abolicionistas, simpatizante das ideias republicanas e que viveu o exercício do poder como um verdadeiro fardo.

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