Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

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Achegas à Contemplação na Ética a Nicômaco de Aristóteles e no Hinduísmo

Paulo Araújo de Almeida

Nesse texto fazemos algumas reflexões e comentários sobre a Ética a Nicômaco de Aristóteles buscando estabelecer relações de aproximação e principalmente diferenças entre as concepções do Estagirita com a Filosofia Hindu. Nos capítulos I e X da EN, Aristóteles trata da eudaimonia (felicidade, beatitude) como objetivo da vida humana. O capítulo I é uma introdução ao bem supremo ou felicidade. No capítulo X Aristóteles trata da felicidade e como ela se dá no mais alto grau da vida contemplativa ou plenitude da felicidade. A felicidade é tomada como a realização da mais alta faculdade humana (razão) direcionada ao maior: Deus. “A Ética de Aristóteles é, alias o protótipo dessa concepção (o bem como forma de vida que mescla inteligência e prazer).

Aristóteles determina o propósito da conduta humana (a felicidade), a partir da natureza racional do homem e depois determina as virtudes que são condição da felicidade” (Abbagnano) . Aristóteles continua tratando do “Bem” como Sócrates e Platão, mas coloca o Bem como factível aqui na terra (polis). Como o fim de todas as coisas, o Bem é o ideal ético a ser adquirido enquanto disposição estável através da ação virtuosa e da contemplação racional.

A contemplação no hinduismo (Dhyana) aparece no yoga de Patanjali como o sétimo tipo de treinamento (anga) de um sistema óctuplo que pressupõe nos seus dois primeiros degraus uma vida moral como integrante e preliminar aos treinamentos ali propostos. Nos Yoga-sutras de Patanjali, disciplina e autodisciplina (yamas e nyamas) apontam a importância para o aspirante à realização espiritual de se levar em consideração o mundo das relações entre os homens.

Importante colocar essa questão porque a chamada “filosofia” oriental vem sofrendo questionamentos a partir de significativos filósofos ocidentais como Hegel , Bergson e Schopenhauer e Merleau-Ponty . Não é possível dizer que o pensamento hindu não acena a qualquer necessidade da ética enquanto ordenamento da convivência entre homens no mundo, só porque ele não postula como primordial uma vida teorética. A prática das virtudes no hinduismo certamente que não propõe a ação como meio para levar o homem à felicidade como Aristóteles pontua na E.N. No entanto, no hinduísmo as disciplinas de caráter ético constituem degraus necessários para conduzir o homem à experiência de contato com a realidade divina transcendente através do êxtase (samadhi). No yoga hindu o êxtase é um prolongamento da contemplação. Nos Yoga Sutras de Patanjali são enunciados os “yamas” e “nyamas”, procedimentos de ordem ético-moral que constituem os dois primeiros “braços” (angas) desse sistema clássico de yoga. A contemplação será o sétimo “braço” de um conjunto de treinamentos objetivando a emancipação espiritual do homem e não um meio de atingir a felicidade juntamente com a ação virtuosa como aponta Aristóteles.

A realização espiritual está presente nas “filosofias” orientais enquanto experiência extática decorrente de Dhyana (contemplação). O fenômeno extático proporciona extremo prazer ao praticante e Patanjali alerta à possibilidade do indivíduo apegar-se a essa experiência prazerosa, o que seria um impedimento para alcançar a felicidade plena. Por isso o yoga clássico de Patanjali estimula a prática do desapego (vairagya). A questão do ego como apego à natureza baixa ou material, embora ilusória porque o ser para o hinduísmo é em essência Sat-Chit-Ananda (Verdade-Consciência-Felicidade), está sempre colocada como contingência para o homem envolvido na roda de renascimentos (Karma).

A questão para o hinduismo é a realização da essência divina do ser através do prolongamento da concentração mental (Dharana), que é a própria contemplação ou meditação, cujo aprofundamento leva a se atingir a experiência de êxtase (Samadhi). Aqui reside a diferença fundamental entre o hinduismo e a filosofia de Aristóteles que pontua a reflexão racional com vistas à bem realizar a ação, que se torna ação virtuosa praticada por um homem virtuoso.

O homem grego se compraz com a ação virtuosa. “O virtuoso cumpre com alegria e prazer ações moralmente boas” (Philippe . p. 143.) O hindu deve fugir da satisfação que mesmo a boa ação pode lhe trazer, pois essa satisfação o aprisionaria no mundo. A questão para o hindu é se libertar do mundo que é encarado como “prisão” e não agir no mundo para melhorá-lo ou contribuir com o mundo através da sua ação virtuosa na polis. O hinduísta quer produzir em si mesmo o dissolvimento do sentido de ego ou personalidade, o que ele busca através de práticas (treinamentos) que o direcionem a experiência de expansão infinita da consciência que se considera um retorno à Brahman – o Absoluto.

Se a virtude nos gregos modera as paixões para o equilíbrio do homem em sua vida na cidade (Philippe, p. 44), nos orientais a ação virtuosa é aquela ação desinteressada que se cumpre pelo dever (Dharma) e que não prevê ou anseia por frutos (Karma yoga). O praticante do hinduismo yoga age com desapego em relação aos resultados da ação e assim ele crê se colocar em acordo com a vontade Divina, não sacando qualquer mérito pessoal por agir ou deixar de agir. Ele age não para se tornar um homem melhor, mas para cumprir a lei divina.

As paixões para a filosofia hindu devem ser restringidas pela não ação, ou seja, por não dar vazão à ação imposta pelos desejos que se considera de ordem primitiva, o que então requer controle dos sentidos e da mente de desejo. A intenção única no hinduismo é o controle interno que o praticante adquiri, o que pode levá-lo à transcendência ou emancipação espiritual, e não existem maiores preocupações com os resultados práticos da ação em relação ao meio ambiente da convivência, o mundo material ou social.

Para o aristotelismo as paixões dizem respeito às inclinações e tendências do sujeito. Elas não estão independentes daquele que age. “Temos que nos dar conta dos pendores que nos são mais naturais e exercitar-nos a agir no sentido inverso para adquirir o justo meio” (Philippe, p. 45). Aqui, através do esforço para agir corretamente o homem se torna virtuoso. O cultivo dos pensamentos opostos está colocado também nos Yoga-Sutras de Patanjali (L.II.33), mas enquanto treinamento mental capaz de purificar a mente do aspirante à união divina. “Cuándo las transgresiones obstruyen, el peso de la imaginación debe ponerse en el platillo opuesto” (Bailey , pp.128-129). A questão para o hinduismo são os pensamentos com suas qualidades inibidoras que entorpecem o processo de unificação espiritual e o efeito dos pensamentos sobre o físico e o mental, que são considerados corporeidades condensadas a partir da mente.

Em seguida nos yoga-sutras (L.II.34) Patanjali vai enumerar os pensamentos negativos ou “impedidores” que devem ser combatidos pela prática dos contrários (exemplo: ofensividade, avareza, ira, mentira). A natureza material para a espiritualidade hinduísta é uma condensação grosseira do mental, nascida da ignorância primordial que seria a causa básica de todo o sofrimento que o aspirante busca superar através da auto “iluminação”. É essa ignorância primordial (avidyâ) estabelecida pela tradição hindu que Buda mais tarde vai colocar como a causa do sofrimento humano.

O hindu considera menos o caráter voluntário ou involuntário da ação do que sua concordância ou não com a Lei Divina (Dharma). A ação é necessária mais como reação estabelecida na lei de causa e efeito (Karma) e não como possibilidade de produção do sujeito virtuoso e feliz no mundo como assevera Aristóteles. Para o hinduismo a felicidade não é desse mundo nem resultado do hábito da virtude (ética) ou do seu aprendizado intelectual (dianoética). A felicidade para o hinduismo (Ananda) é atributo essencialmente divino, assim como a verdade (Sat) e a consciência (Chit). A felicidade para o hinduismo não seria atingível por conquista ou por meio da virtude, mas constitui um atributo do Ser que já estaria presente no homem como essência, embora ela esteja ordinariamente nublada por camadas de materialidades, as quais o praticante aspira se livrar através de um auto-polimento ascético. A felicidade para os hinduístas não é passível de ser adquirida ou construída pela ação virtuosa no mundo. Apesar disso é preciso deixar claro que não existe para o hinduismo um outro mundo maravilhoso ideal (platônico), do qual esse mundo aqui seria uma réplica imperfeita, mas sim uma realidade transcendente onde a alma individual (Átma) aspira se reencontrar ou se dissolver, ou seja, o Grande Absoluto (Paramátma).

No Bhagavad-Guîtâ , por exemplo, que é o texto épico mais importante do hinduismo, Krishna nega a moral apreendida pelo guerreiro Arjuna de não querer lutar e matar os próprios parentes maus, feitos inimigos que se encontram no outro lado do campo de batalha. Arjuna é instado pela divindade Krishna a cumprir sua obrigação e naquele momento lhe é revelada pela divindade uma ética maior e de objetivos transcendentes, que sua compreensão humana e limitada não podia vislumbrar. Fica patente que no Guita, cumprir o mandato divino é mais importante do que refletir sobre a virtude humana no momento de agir. A verdade é revelada pela divindade e não conquistada pelo homem.

Aristóteles se preocupa com a consciência e com a ação deliberada e voluntária para a construção da virtude ou do homem virtuoso. “Aristóteles frisa, então, que “se deve referir ao momento em que a ação se cumpre” para qualificá-la de voluntária ou de involuntária” (Philippe, p. 47). Já no Guita a ação humana, enquanto vontade própria e deliberação justa pelo entendimento racional é desqualificada. No yoga hindu o homem tenderia sempre a agir de acordo com a força “inconsciente” dos seus apegos e paixões, ou pelo desejo de glória e reconhecimento, o que é colocado como tendência negativa a ser combatida pelo pensamento ético-religioso hindu. Se para o pensamento aristotélico “Tudo depende do valor daquilo que é sacrificado em comparação com o que se quer salvar, estimar isso pertence a prudência” (Philippe, p. 47), o hinduísmo toma o sacrifício estritamente na linha de lançar o indivíduo ao encontro da divindade e não como uma maneira de contribuir para melhor realizar o mundo dos homens.

Importante salientar que estamos falando aqui do hinduísmo tradicional e de origem, daquele que Bérgson (op.cit) situou no período anterior ao contato do Oriente com o mundo Ocidental industrializado. Após esse período de contato entre as duas culturas, como disse Bergson, vê-se muitos yogues hindus (Ramakrishna e Vivekananda) trabalhando com uma ética da ação objetivando a caridade ou a emancipação das condições do homem no mundo (Exemplo mais atual: Gandhi).

Para o hinduismo a razão verdadeira das coisas, a ação correta, não poderia ser iniciativa do homem que está sempre sujeito à ignorância e às paixões devido ao seu estreito vínculo com a natureza material (o mundo de maya). Por isso a presença de Deus encarnado em Krishna no Guita, como instrutor capaz de clarear o entendimento falho de Arjuna, que fica sujeito à depressão devido a sua má compreensão da realidade espiritual. Se assim acontece no épico Mahabharata é porque existe um conhecimento perfeito que é atributo divino, os yogas – métodos, ensinamento que Krishna transmite ao guerreiro Arjuna, mas que este só irá alcançar por meio de uma entrega totalmente de si mesmo à divindade ou absoluto. Diz Krishna no capítulo VI do Gita. 31:“O yogue que estando estabelecido em unidade adora-me como existindo em todos os seres, o Yogue assim, como quer que me more, mora em mim”. Dessa postura divina presente no texto sagrado é que nascem as linhas de yoga devocional, como a seita conhecida por nós no ocidente como “Hare Krishna”, por exemplo, que acata mais as instruções do mestre do que incentiva ao adepto o estudo filosófico “de si mesmo”. Aqui é como se a completa entrega amorosa a Deus queimasse todas as dificuldades e impedimentos. Ame a Krishna com a totalidade de seu coração; se entregue totalmente à divindade e não se preocupe com mais nada.

O guerreiro Arjuna não se torna virtuoso para uma estabilidade de ação útil ao mundo, mas se ele incorpora qualquer virtude através dos ensinamentos de Krishna é para cumprir a Divina Lei (Dharma) e realizar em si-mesmo a Divina Consciência.

Enquanto instrumentos para alcançar a felicidade, ação e intelecto estão presentes tanto no pensamento antigo hindu assim como no grego, só que de maneira diferente. O homem feliz no hinduísmo não é o cidadão virtuoso ou o filósofo que vislumbra a harmonia universal na contemplação através do intelecto como para Aristóteles. O hindu acredita que não é a sua ação que o leva à felicidade, que para ele é sobretudo atingir a própria experiência mística de fé e encontro com o Divino que é, na verdade, a essência de Si-mesmo (Tat Tvan Asi) . Ele não estabelece a felicidade como atributo do sujeito cidadão-filósofo.

Mesmo para certas linhas do yoga hinduísta como a de Sri Aurobindo onde a Consciência Divina, felicidade ou bem-aventurança não é buscada no plano interno subjetivo através da experiência mística, mas deve descer para habitar a realidade material encarnada, o indivíduo passa a gozar da Divina Presença na sua existência e assim pode seguir agindo, agindo bem por esse envolvimento, por estar imbuído da Energia Divina na sua existência e consciência e não por sua própria força de deliberação. Não é o seu agir em si mesmo que funciona como combustível da sua satisfação enquanto homem virtuoso, mas ele se torna em felicidade e luz por uma mercê da Divindade. Essa é a diferença fundamental em relação ao pensamento de Aristóteles na E.N.

Mesmo tendo criado métodos bastante rigorosos e específicos, diríamos até “funcionais” para conduzir o homem de retorno à divindade, o hinduísmo nunca considera que foi o indivíduo sozinho que alcançou a iluminação (Samadhi) por seu mérito e deliberação, mas sempre se remete à graça de um Guru (mestre-instrutor) ou de Deus. Em última instância, considera-se que as escrituras hindus enquanto métodos de ascensão espiritual foram reveladas diretamente da boca da divindade e o homem nunca teria capacidade de atingir a felicidade por si mesmo no sentido de esforço independente na ação, virtude e contemplação racional. Para a antiga tradição hindu-yogue, o Guru é Deus em seu aspecto trino, ele é o criador (Brahma), o sustentador (Vixnu) e o destruidor (Siva). O hinduismo não coloca que “o bem é alcançado pela ação” como diz Aristóteles na E.N, mas ele considera a importância da ação mais enquanto contingência a que o ser encarnado está sujeito. Isso fica claro no yoga da ação (karma yoga) como exposto no épico Mahabharata (Guita) e nos treinamentos éticos constantes nas preliminares dos Yoga-Sutras de Patanjali LivroII – Sadhana Pada – Os Passos da União, 29-31.

A palavra sânscrita “Ananda”, que é traduzida no hinduismo como “felicidade” ou “bem-aventurança” é colocada como meta ou fim a ser atingido pelo homem, assim como se postula na E.N., no entanto os meios para se atingir a felicidade são diferentes na abordagem oriental e ocidental. Para o aristotelismo a felicidade é atingível através da ação virtuosa e da filosofia enquanto contemplação da harmonia universal, para o hinduismo “felicidade” é o estado essencial a ser recuperado através das práticas ascéticas. A ética no hinduísmo yoga constitui regras de restrições às ações e suas qualidades se colocam como instrumentos da purificação da mente, necessários para se atingir o estado de união divina. O hinduismo não aponta diretamente a política como campo possível de condução à felicidade como o aristotelismo o faz. As ações éticas para o hindu não são virtudes a serem adquiridas a benefício do homem, da formação do seu caráter tendo em vista sua participação na cidade, mas estritamente como instrumentos para a ascensão espiritual do indivíduo.

Referências

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Complementação Bibliográfica:

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