Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

Archive for agosto 2008

BURKE, Peter. A Invenção da Biografia e o Individualismo Renascentista, 1997.

Peter Burke é professor de História da Cultura na Universidade de Cambridge e escreve mensalmente para a seção “Autores” do suplemento “Mais!”, do jornal Folha de São Paulo. Dentre suas publicações em âmbito nacional destacam-se: História social da linguagem (Ed. UNESP), A arte da conversação (Ed. UNESP), Cultura popular na Idade Moderna (Companhia das Letras), Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet (Jorge Zahar), entre outras. “Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot”, originalmente publicado no ano de 2000 e traduzido para a língua portuguesa em 2003, resultou de uma série de conferências promovidas pela Universidade de Croningen, na Holanda. No artigo “A Invenção da Biografia e o Individualismo Renascentista”, com tradução de José Augusto Drummond em 1997 http://www.cpdoc.fgv.br, o autor revela sua insatisfação com a visão tradicional sobre o tema e sua sensação de estranhamento e certo desconforto ao ler as Biografias do Renascimento.

Burke esclarece que os estudiosos do Renascimento sabem que Jacob Burckhardt afirmou que no Renascimento ocorreu “um desabrochar do indivíduo”, e sabem que ele ilustrou sua afirmação com o fenômeno da ascensão da biografia (inclusive a autobiografia). Outro fato quase tão conhecido é que depois de Burckhardt aconteceu uma “revolta dos medievalistas” contra a visão negativa que ele teve da Idade Média, incluindo-se aí a idéia de que faltou a esse período histórico um sentido de individualidade. Para ele o problema é que essas biografias não são (ou não são inteiramente) biografias no sentido que damos ao termo. Elas não discutem o desenvolvimento da personalidade, freqüentemente ignoram a cronologia e em geral introduzem materiais aparentemente irrelevantes, dando uma impressão de ausência de forma. O que mais desconcerta o leitor é que esses textos estão repletos de topoi, anedotas sobre uma pessoa já contadas sobre outras pessoas. Os historiadores ficam desconcertados quando manuseiam esses textos do passado, mas certamente deveriam evitar – e nem sempre evitaram – a tentação de desprezar seus autores como incompetentes. O desafio é dar uma interpretação positiva aos aspectos da biografia renascentista até agora considerados negativos (fatos sem relevâncias, falta de sensibilidade à mudança.).

A estratégia adotada pelo autor neste artigo será a de seguir os pensamentos de Robert Darnton, usar nossa sensação de estranhamento como um ponto de partida para “captar a condição do outro”, para explorar certas diferenças entre o presente e o passado, inclusive a mutante “categoria da pessoa”.

Depois de uma breve revisão da ascensão da biografia na Europa do Renascimento, Peter Burke discute as regras contemporâneas do gênero e sua relação com a cultura mais ampla, para concluir com a análise de alguns poucos textos, com certo nível de detalhamento e com alguma profundidade.

Desde Burckhardt, foram relativamente poucos os estudos feitos sobre a biografia renascentista – por oposição à autobiografia. De toda forma, esse período histórico testemunhou um perceptível aumento do interesse tanto pela escrita quanto pela leitura de biografias, primeiro na Itália e depois em outros lugares. Na Itália do século XVI, a biografia se tornou um componente ainda mais importante da paisagem cultural. A essa altura, no entanto, o gênero biográfico estava crescendo rapidamente também fora da Itália.

A primeira convenção: quem eram as pessoas cujas vidas eram consideradas tema apropriado para uma biografia? No mundo antigo predominaram governantes e filósofos, mas havia também um pequeno espaço disponível para generais e literatos. No Renascimento, como vimos, foram escritas biografias de governantes como Alfonso de Aragão e Cosimo de Medici, de escritores como Dante e Petrarca, de filósofos como Ficino e Pico e de condottieri como Niccolo Piccinino e Braccio Montone. O repertório agora se expandia para incluir mulheres e artistas e incluíam ainda indivíduos de outras culturas. As convenções das biografias renascentistas variavam de acordo com o seu contexto. Nesse período, tal como na antiguidade clássica, a morte de uma pessoa famosa era freqüentemente uma oportunidade para uma oração fúnebre que mais tarde talvez fosse publicada, o equivalente ao obituário nos dias atuais.

Entretanto, o contexto da biografia ao qual o autor enfatiza tem sido curiosamente ignorado pelos estudiosos. A partir de fins do século XV, eram freqüentes que as vidas dos escritores fossem escritas e publicadas como prefácios de suas obras. Esta questão ilustra a ascensão do conceito da individualidade da autoria, o pressuposto de que as informações sobre um escritor nos ajudam a entender suas obras. Ainda destaca cinco pontos relativos às convenções da biografia renascentista. Primeiro, embora algumas biografias tivessem organização cronológica, a estrutura normal era temática ou tópica. Segundo, as profecias sobre a grandeza futura do herói era um tema recorrente nas biografias renascentistas, tal como nas vidas dos santos medievais ou dos grandes homens da antiguidade. Terceiro, era dispensada uma atenção considerável pelas biografias a eventos que os historiadores modernos (pelo menos até recentemente) deixariam de lado como “meros rituais”. Quarto, existem paralelos entre o estilo da biografia renascentista e o estilo da ficção do período, objetivo era revelar dados sobre a personalidade dos biografados. Quinto, enfatiza o lugar ocupado em muitas biografias desse período pelas falas dos personagens e especialmente pelo diálogo. Contudo, o diálogo se torna cada vez mais freqüente e dramático nos textos do século XVI.

O autor revela que a origem do termo em inglês e em francês, biography ou biographie são termos pós-renascentistas, adotados no final do século XVII. Na Alemanha, Biographie é do fim do século XVIII, embora Lebensbeschreibung possa ocasionalmente ser encontrado no século XVI. No entanto, a idéia de uma vida “escrita” pode ser encontrada na Idade Média. O termo biographia foi cunhado na Grécia no fim do período antigo. Antes disso, falava-se em escrever “vidas”.

A afirmação de Plutarco, tão relevante para o conceito do indivíduo único, é o tema central do restante do artigo. A distinção feita por Plutarco entre história e biografia foi freqüentemente reafirmada nesse período. Gesta Ferdinandi de Lorenzo Valla (1445-6) foi criticado pelos contemporâneos por fazer referências às gargalhadas do rei e aos roncos de outro rei, sob o argumento de que ele deveria estar escrevendo história, que deveria ser mais dignificada que a biografia. No entanto, o entusiasmo dos renascentistas por Plutarco exige um comentário. Pode-se dizer que a época era propícia a redescobertas – mas talvez também houvesse condições propícias nos séculos XII e XIII. O livro de Plutarco era ao menos um estímulo para escrever daquela maneira, legitimando o interesse pela vida privada, a personalidade única e a aparência física dos indivíduos.

Para Burke duas diferenças principais se destacam entre as categorias renascentistas e as nossas: em primeiro lugar a noção de exemplaridade. A prática renascentista de se referir aos príncipes em particular como um “novo Augusto”, um “segundo Carlos Magno”, e assim por diante, mostra claramente essa tendência. Em segundo lugar, o pressuposto de que a personalidade é estática, o produto fixo de um equilíbrio de humores e, para alguns escritores, o resultado inevitável de uma constelação de fatores ligados ao nascimento. Características aplicadas em geral às biografias do século XVII. Só no século XVIII se vislumbra uma mudança, com a noção de que a personalidade passa por um processo de desenvolvimento.

O artigo de Peter Burke é indicado para todas as pessoas que têm interesse em assuntos referentes ao Renascimento e a origem das biografias. Por apresentar um vocabulário de fácil entendimento torna-se acessível e destacam-se dados e fatos curiosos da vida privada. O autor realiza inovações na medida em que apresenta as características bem como analisa as primeiras biografias e suas finalidades.