Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

Archive for julho 2008

A educação para além do capital, autor István Mészáros, editora Boitempo, 2005.

Benedito Carmo da Silva Junior

A certeza de que o caminho para uma vida melhor passa pela educação é hegemônica na atualidade. O simples fato de um país, seja no oriente ou no ocidente, independente de sua crença religiosa, estar inserido num mundo altamente interligado pelas relações comerciais que chamamos de globalização, coloca o desafio de preparar seu povo para uma competição sem fronteiras.
Com certeza também esta idéia hegemônica não foi moldada pela escola, por um governo ou um grupo de pessoas em um determinado país de caso pensado e esquematizado para conceber o mundo desta forma. Entretanto, esta idéia circula pela sociedade formando um processo que o autor chama de internalização de um saber disseminado e apreendido pelas pessoas, independente da educação formal.

Sem dúvida, existiram ao longo dos séculos do capitalismo tentativas e esforços de implementar e consolidar a acumulação de capital em benefício de uma classe dominante. Seria inconcebível romper a lógica de uma estrutura social pela simples conjunção de forças reformadoras no seu tempo. Assim como no exemplo da ordem feudal, onde servos não poderiam subverter a ordem dominante dos senhores pelas regras reformistas do feudalismo, a lógica do capital não pode ser rompida pelas limitações impostas pelo seu domínio dentro da sociedade mundial atual. Isso implica que o capital é irreformável e sempre procura se adequar às mudanças ocorridas ao longo de suas crises.

O processo de internalização do saber se dissemina na sociedade pelo pressuposto que a educação é contínua e dinâmica ao longo de tida a vida de uma pessoa, da juventude à velhice, e isso ultrapassa os limites de uma educação institucionalizada. Pois bem, se ocorre isto qual é o papel da escola frente a este processo? Muito simples, a escola não oferece condições, seja por falta de interesse, ou desconhecimento, para ser um espaço para romper o processo de internalização da lógica do capital dentro da sociedade. Deste modo, não consegue formular uma alternativa que possa contrabalançar e irradiar novas perspectivas para conceber o mundo, em outras palavras não contribui (ou contribui muito pouco) para a formação crítica na vida das pessoas.

A escola perdeu ou está perdendo a oportunidade de contribuir para ser este espaço ao reproduzir a lógica do capital dominante. Não por culpa dela mesma, mas por ser conduzida por uma sociedade extremamente internalizada pelo espírito individualista e de competição.

Há uma necessidade de se elevar o nível intelectual do debate acerca deste processo de dentro para fora da escola, para que este se espalhe pela sociedade e faça com que a escola cumpra uma função social. As maneiras de se alcançar este objetivo passa pelo desafio da educação continuada, onde a educação deixa de ser vocacional, orientada para um fim utilitarista e geral onde se trabalha algumas habilidades de pensamento, ambas são de cunho paternalista e não visam a emancipação do sujeito como agente histórico.

Fazer com se abra uma nova perspectiva de encarar o mundo é a proposta de uma Educação para além do capital destruindo qualquer possibilidade de aceitar reformas no sistema capitalista e de acabar com a auto-alienação do trabalho. O acesso aos bens produzidos através da autogestão (livre associação de trabalhadores) pode fazer romper o círculo vicioso do capital, onde as crises e a exclusão social são alimentadas pelas superproduções, desperdício e escassez para a satisfação de uma classe cada vez mais rica e reduzida que se beneficia desta lógica perversa. Sendo assim, defende o autor, a educação deve ser transformadora e emancipadora de modo a reverter o processo de internalização que permeia a sociedade. Estas premissas são inseparáveis e devem estar em associação uma com a outra. Caso contrário, a educação fica suspensa no ar, separadas do contexto pós-moderno que atravessa a sociedade. Ainda adverte o autor, ou a educação avança por este caminho ou fracassa como mola motora de mudança social.

Mais do que tratar de um tema complexo e de desdobramentos polêmicos acerca do papel da educação na atualidade, o livro nos faz refletir sobre a postura do educador frente a crescente mercantilização do saber numa sociedade internalizada pela lógica capitalista. Da privatização dos espaços até a transformação do conhecimento em mercadoria, o capital se transforma e supera crises, transmutando-se para proteger o lucro, utilizando inclusive a educação formal ou outras formas mais violentas para isso. Mesmo que no Brasil as formas de disseminação de sua lógica sejam mais sutis, assistimos de dentro da escola, a pressão sobre um sistema público educacional para o sucateamento e a privatização do saber através do crescimento das escolas particulares.

O incrível é que temos a total liberdade dentro da escola pública para uma educação emancipadora e transformadora, mas a conjunção de fatores torna o espaço escolar cada vez menos essencial para a educação continuada e para a vida. A impressão que vejo como educador é que em algumas comunidades a internalização da lógica de mercado prevalece e se torna cada vez mais sedutora para jovens, onde tudo acontece muito rápido e refletir sobre seu papel num mundo cada vez mais desigual é pura perda de tempo, afinal tempo é dinheiro.

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