Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

Resgate da cultura regional para um diálogo numa sociedade globalizada

Posted on: dezembro 20, 2007

RESGATE DA CULTURA REGIONAL PARA UM DIÁLOGO NUMA SOCIEDADE GLOBALIZADA

Elizabeth da Silva (UNITAU)
elizabethfai@hotmail.com

Introdução

A questão do resgate e valorização da cultura regional como elemento de apoio ao ensino de língua materna se faz presente como foco de uma pesquisa em andamento, que procura destacar nas narrativas a valorização do ser humano para a perpetuação da cultura. Ao analisar as várias formas de expressão de determinado grupo social, pode-se conhecer características, traços marcantes, que o definem enquanto grupo. A identidade de uma cultura local muitas vezes se perde pela sua anulação ou pelo esquecimento das novas gerações. Um dos motivos pelos quais se discute os deslocamentos de identidades diz respeito ao processo de globalização. O nosso mundo contemporâneo, também, entendido como pós-modernidade ou modernidade tardia (Hall,2006) afeta as culturas e os sujeitos inscritos nessas culturas, de onde a pertinência de se pesquisar os processos identitários, foco deste trabalho.

A pós-modernidade, instaura uma postura de desestabilização das verdades e das crenças, apresenta um momento complexo, onde forças de mudança conduzem para o processo da globalização, sendo que o contexto pós-moderno

prima pela objetivação de tudo e de todos, pela excessiva valorização da tecnologia em detrimento do homem, num mundo em que o capital constitui um significante mestre, em que os interesses econômicos justificam as ações mais torpes e desonestas… (CORACINI, 2007)

Sabe-se, porém, que a globalização não é um fenômeno recente, encontra-se enraizada na modernidade. Todas as comunidades são afetadas pelos efeitos desse processo contínuo e crescente. Os jovens se posicionam como sujeitos engajados em seu tempo e espaço, buscam a atualização numa escala desordenada de consumo, tornando-se semelhantes aos demais jovens numa sociedade globalizada. Incluem-se aí também os alunos, alvo da pesquisa, da sexta série da rede pública do Estado de Minas Gerais , no município de Piranguinho.

Interessa aqui investigar os valores culturais de um determinado grupo social e a importância desse conhecimento para o professor de língua materna atuante nessa comunidade. Trabalhando na rede pública estadual há muitos anos percebe-se que os jovens alunos, que têm acesso a vários recursos tecnológicos, apresentam em suas várias manifestações herança do dizer da família, da região, da crendice popular que os constituem. Dessa forma o objetivo da pesquisa “Cultura Regional e Língua Materna: um olhar para além da sala de aula”, em desenvolvimento, se foca na identificação das formas de produção popular, como os relatos, como expressam a cultura em relação dialógica com o contexto atual das novas gerações, observando suas peculiaridades lingüísticas e regionais.

Como ponto de partida, foram feitas atividades em sala de aula para sensibilizar e convencer os alunos a participarem de uma pesquisa qualitativa de cunho interpretativista a fim de fornecer elementos para interpretação de dados, enfatizando-se o processo e preocupando-se com o particular, o contingente.

Durante dois meses de trabalho, foram coletados dados com o objetivo de obter material oral e escrito, produzido pelos alunos. A intenção é posteriormente colher material semelhantes com os pais desses alunos – pessoas mais velhas e detentoras de uma outra visão de mundo, que utilizam uma linguagem peculiar, diferente daquela utilizada por seus professores, mas que lhes é familiar.

Essas atividades serão de suma importância para o desenvolvimento dessa pesquisa etnográfica para que se possa, posteriormente, integrar teoria e prática, considerando os fenômenos a partir das vozes dos vários sujeitos participantes da situação em análise e ainda a interpretação dos vários significados que poderão descrever ou analisar um determinado tipo de interação social.

1. Considerações sobre as relações da produção discursiva

Para Anthony McGrew (1992 apud Hall, 2006) a globalização se refere aos processos que atravessam as fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações, em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo mais conectado em realidade e em experiência. É, portanto, um movimento de distanciamento da idéia sociológica clássica como um sistema bem delineado.

A globalização é um movimento que integra e também separa. Segundo Baumam (1999) as causas de ambas as ações são idênticas às que promovem a unidade no globo. Ela promove a integração, a uniformidade no campo financeiro, comercial e comunicacional, assim como um movimento “localizador”, de fixação no espaço. Em conseqüência dessa condição os efeitos são desiguais, pois os “globais” determinam as coordenadas e os “locais” são privados, sofrendo a degradação social.

O processo de globalização pode significar liberdade como um destino indesejável e cruel. Em leituras realizadas, registrou-se que Kevin Robins (apud Hall, 2006, p.77) destaca, ao lado da tendência à homogeneização global, uma fascinação com a diferença e com a mercantilização da etnia e da alteridade, isto é, uma nova articulação entre “o global” e o “local”.

O impacto da globalização sobre as identidades tem efeitos profundos sobre as mesmas, que são localizadas e representadas no espaço e no tempo simbólicos. Giddens (op. cit.,p.72) considera como lugar o que é específico, concreto, conhecido, familiar, bem delimitado, permanece fixo, onde se encontram as raízes do sujeito, já o espaço pode ser cruzado, quando menos se espera e rapidamente.

Verificando as identidades nacionais na modernidade tardia, constata-se que as culturas nacionais são fontes de identidade cultural, estão presentes na constituição do sujeito que as têm em mente como se fosse sua natureza essencial, sendo formadas e transformadas no interior da representação. As culturas nacionais constroem identidades, pelas histórias contadas, memórias e imagens. Assim afirma Benedict Anderson: “A identidade nacional é uma comunidade imaginada” (op.cit., p.51) .

A globalização tem o efeito de contestar e desdobrar as identidades centradas e fechadas de uma cultura nacional, tem efeito pluralizante sobre as identidades e efeito contraditório, segundo Robins (op.cit.,p.87). O discurso da cultura nacional procura construir identidades que são colocadas, de modo ambíguo entre passado e futuro, ressaltando sempre aquele “tempo perdido”, restaurando identidades passadas que são muito valorizadas. Os fatos ocorridos no passado sustentam os fatos vividos no presente.

2. Um diálogo entre teorias discursivas e análise de corpus

Considerando tais questões, será feita a análise de uma parte do corpus em estudo utilizando o relato de uma aluna da sexta série, do município de Piranguinho, MG, participante da pesquisa “Cultura Regional e Língua Materna: um olhar para além da sala de aula” desenvolvida pela aluna do mestrado de Lingüística Aplicada – UNITAU, 2007. A proposta feita aos alunos nessa atividade foi que contassem um fato ocorrido com eles dentro do município, a narrativa da aluna foi assim transcrita:

quando eu era piquena eis contava assim que lá perto… no…. Couto lugar onde eu morei tinha… sempre à noite aparecia bola de fogo eu nunca vi… foi sis tempo eu fui pra lá di noiti sem a minha mãe… fui lá junto cueies eis foram rezá eu fui cueieis … a hora que nois vimo tava a bola de fogo pareceno uma bola de fogo grandona no meio do céu… aí caiu no chão… depoi noi num vimo mais noi falamo tudo mundo ficô oiano assim mai ninguém viu só eu ca minha colega que vimo ninguém mai viu… agora eu vi… agora é verdade essa eu vi ( ANDRESSA)

De início verifica-se a nítida posição do jovem que duvida dos fatos narrados pelos mais velhos, porém a aluna se denuncia pelo discurso de valorização da tradição local, narrando uma história que a torna, verdadeiramente, membro daquela comunidade, pois agora ela também presenciou o fato e imagina-se que irá narrá-lo como sendo verídico às próximas gerações.

Fica evidente no texto transcrito, que inicialmente ela não acreditava muito no fato que as pessoas contavam, mas somente quando ela própria presencia (ou imagina ter presenciado) o fato com seus próprios olhos, ele passa a ser real, verdadeiro. Assim concerne o pensamento de Lacan ao dizer que “nos vemos inevitavelmente pelo olhar do outro, que a imagem que construímos de nós mesmos provém do(s) outro(s), cujo discurso nos perpassa e nos constitui em sujeitos, construindo, no nosso imaginário, a verdade sobre nós mesmos…” (1966 [1998] apud CORACINI, 2007, p.17).

Foucault (2006, p. 26) considera tal processo inerente à formação do sujeito, uma vez que este é construído por vários discursos: “O autor, não entendido, é claro, como o indivíduo falante que pronunciou ou escreveu um texto. Mas o autor como princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significações, como foco de sua coerência”. Foucault (CORACINI, 2007,p. 17) afirma ainda que o sujeito é uma construção social discursiva em constante elaboração e transformação.

Para Hall (2006), é pela relação com o outro que a identificação se constrói, como imaginamos que o outro nos vê. Sugere, portanto, que se utilize o termo identificação por se tratar de um processo em andamento. A transcrição apresentada da fala da aluna pode revelar a presença de várias vozes sociais como a da família, da igreja, da juventude, da escola, da pessoa que assistiu ao fato, das crendices populares que a constituem e que se mostram presentes em seu discurso.

O texto é ponto de intersecção de muitos diálogos, o cruzamento das vozes oriundas de práticas de linguagem social, o outro para Bakhtin (BARROS, 2003) contribui para a constituição do sentido, pois nenhuma palavra é nossa, mas traz em si a perspectiva de outras vozes, diversificadas. A intertextualidade, na obra de Bakhtin, é “interna” das vozes que falam e polemizam no texto e nele reproduzem o diálogo com outros textos.

Através desse aporte teórico, verifica-se uma relação entre os conceitos de discurso, cabendo à análise do discurso localizar recursos lingüísticos e não-lingüísticos da combinação e transmissão das vozes discursivas. As relações dialógicas se constituem numa relação entre sentidos.

Considerações finais

A partir da análise do corpus apresentado muitas pistas são oferecidas para continuidade da pesquisa que ora se desenvolve. Verifica-se que o confronto teórico com tais dados servirá para o aprofundamento do conhecimento das peculiaridades de produção lingüística dessa comunidade inserida num contexto pós-moderno, sendo de muita valia para os docentes que exercem a atividade de ensino efetivo da língua, propondo um diálogo entre as diversas formas de manifestação lingüísticas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Trad. de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. FIORIN,José Luiz (orgs.). Dialogismo, polifonia, intertextualidade: em torno de Balhtin. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003.

BRAIT, Beth (org). Bakhtin: conceito-chave. São Paulo: Contexto, 2005

CORACINI, Mª José R. Faria. A escamoteação da heterogeneidade nos discursos da Lingüística Aplicada e da sala de aula. LETRAS – Revista do Mestrado em Letras da UFSM (RS), nº14, jan./jun.1997.

______. A celebração do outro: arquivo, memória e identidade:línguas (materna e estrangeira)pluralismo e tradução. Campinas, S.P.: Mercado de Letras, 2007.

FIORIN, José Luiz, Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2006

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Trad. de Laura Fraga de A. Sampaio.São Paulo:Edições Loyola, 2006.

HALL, Stuart. A identidade Cultural na Pós-Modernidade. Trad. de T.T. da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A,2006

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: