Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

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A LINGUAGEM COMO MEIO DE PROMOÇÃO HUMANA

Elizabeth da Silva

Investigando a questão da linguagem desde a sua origem até a atualidade verifica-se que esta se aprimorou, acompanhando a evolução humana. Muitos teóricos, filósofos, educadores, lingüistas dedicaram seus estudos na investigação dos vários prismas da linguagem.

Este estudo apresenta vários aspectos como: evolução histórica da linguagem humana; a linguagem, pensamento e cultura – ressaltando a relação da apreensão dos códigos na construção cultural; a importância e poder da linguagem; as várias definições de linguagem; a linguagem na escola e na sociedade e seu efeito; destaque à linguagem tecnológica estabelecendo relação entre vários teóricos e o uso das várias tecnologias em educação.

Partindo da pesquisa bibliográfica e de experiências profissionais foi tecida uma conclusão desafiadora para os profissionais em educação.

1. Desenvolvimento Histórico da Linguagem

Na busca de uma convivência grupal o Homem desenvolveu a habilidade de elaborar racionalmente o pensamento, fazendo uso da representação simbólica, quer seja na linguagem verbal ou na não-verbal. Isto é o que o distingue dos demais animais. Estudos comprovam que vários animais se comunicam, porém não se utilizam elementos racionais, não fazem uso da complexidade da comunicação humana.

Verifica-se que só o Homem é capaz de estabelecer signos arbitrários, regidos por convenções sociais. Por isso é que se afirma que o mundo humano é simbólico.

2. Linguagem, Pensamento e Cultura

É elemento fundamental, para a aquisição de uma linguagem, conhecer o repertório de signos, as regras de combinação e as regras de uso desses signos. Quando se dominam esses elementos pode-se afirmar que se adquiriu uma linguagem.
Há vários tipos de linguagem criados pelo homem como: as linguagens matemáticas, linguagens de computador, linguagens artísticas, linguagens gestuais, da moda, espaciais e várias outras. Observa-se que cada uma delas possui características próprias – algumas mais flexíveis, outras mais estruturadas, portanto menos flexíveis.

Desta forma a linguagem é um dos principais instrumentos na formação cultural. Para cada grupo o “nome” tem a capacidade de tornar presente o “objeto” que está longe. Assim é estabelecida a temporalidade no existir humano.
Pela linguagem, o Homem deixa de reagir somente ao presente e passa a refletir sobre o passado e o futuro e com isso tem a possibilidade de traçar seu projeto de vida.

Cada língua organiza a realidade de modo diferente de outra, pois estabelece repertório e regras diferentes. A estruturação da língua influencia a percepção da realidade e o nível de abstração e generalização do pensamento. Este pensamento e a linguagem mantêm estreita relação com a cultura. As várias linguagens fixam e passam adiante os produtos do pensamento do homem sob a forma de ciência, técnica, artes e sofrem as modificações culturais.

3. Importância e o Poder da Linguagem

Segundo Aristóteles e Rousseau o homem possui a palavra e exprime através dela seus valores, o que lhe torna possível desenvolver a vida social e política.
Platão define a linguagem como um “pharmakon”, isto é, um remédio, um veneno ou um cosmético. Remédio, pois através dela consegue-se descobrir a ignorância humana e aprender com os outros. Veneno quando seduz sem gerar questionamentos, aceitando a palavra como verdadeira ou falsa. Cosmético para dissimular a verdade sobre as palavras. A linguagem pode ser comunicação-conhecimento, mas também pode ser encantamento-sedução.

Para Chauí(1998) a linguagem possui uma força, um “poder encantatório”, que reúne o sagrado e o profano:“As palavras são núcleos, sínteses ou feixes de significações que determinam o modo como interpretamos as forças divinas, naturais, sociais e políticas e suas relações.”

Desta forma num mundo onde a comunicação se torna cada vez mais presente necessita-se desenvolver o senso crítico e criador para que o indivíduo se aproprie do poder da linguagem.

A linguagem tem papel fundamental na construção de uma sociedade mais solidária, seria o “verdadeiro recheio da cultura”, contribuindo tanto para um terreno de dominação quanto um campo de possibilidades.

É por meio da linguagem e seu poder, entrelaçados, que o ser humano adquire a capacidade de agir e transformar a sociedade. É por meio dela que pode-se imaginar e realizar mudanças no presente que irão transformar e atingir gerações futuras.A consciência destas possibilidades e o domínio da linguagem enquanto instrumento, arma de conquistas, é fundamental.É neste aspecto que Paulo Freire coloca que “a liberdade só vem quando as pessoas cultivam a sua linguagem e, com ela, o poder de conjuntura, a imaginação de um mundo diferente a que se deve dar forma”.

4. Linguagem – Definições

Percebe-se que a linguagem é objeto de estudo em várias áreas do conhecimento e em todas elas tem um lugar de destaque, por ser ampla e abrangente.
Para Chauí (1998) a linguagem é um sistema de signos usados para indicar coisas, para a comunicação entre as pessoas e para a expressão de idéias.
Segundo Cassirer a linguagem não é apenas meio de expressão, ela é condição indispensável à organização de nossa vida mental.

Para o lingüista Saussure a linguagem é abstrata, é a capacidade que o homem tem de transmitir suas idéias, de comunicar-se.
Magda Soares (2000) nos apresenta a linguagem como o principal produto da cultura, e é o principal instrumento de sua transmissão.

A pedagogia de Freire funda-se numa compreensão filosófica do poder gerador da linguagem, define-a como um meio de construir significados ao que comunicamos. A elocução e os significados são simultâneos e correlatos.

Neste aspecto Vygotsky (1979) considera a linguagem como uma ferramenta semiótica essencial na construção do pensamento e das relações sociais.
Em suma, linguagem é um processo essencial do ser humano e se origina no indivíduo, é trabalhada por ele mentalmente, para assim ser levada ao outro – sociedade – desenvolvendo um ciclo dialético sócio-cultural.

5. Linguagem / Escola/ Sociedade

Considerando o momento histórico vivido, observa-se que no ambiente escolar encontra-se tipos diferenciados de linguagem. A linguagem da classe dominada difere a da classe privilegiada, mas não pode ser vista como inferior.
Os falantes das classes populares apresentam características peculiares e valiosas, pois a linguagem é o principal instrumento da cultura de um povo. Contraditoriamente verifica-se que a linguagem é tida como fator de maior relevância nas explicações do fracasso escolar das camadas populares, gerando diferenças entre grupos sociais, discriminações.

Soares (2000) questiona como podem ser trabalhadas as relações entre linguagem, educação e classe social numa escola que pretenda estar a serviço das camadas populares. Que papel têm essas relações na definição de metodologias adequadas ao ensino da língua materna. Apresenta: Basil Bernstein, sociólogo inglês, e a teoria da deficiência lingüística; Labosa que defende a idéia de que a solução estaria numa mudança de atitude dos professores e da população em geral, que deveriam ser educados para compreender que todos os dialetos são igualmente válidos, corretos e que não há razões legítimas para discriminação de falantes que usam dialetos não padrão. O ideal seria uma sociedade livre de preconceitos lingüísticos em que cada um pudesse usar o seu próprio dialeto sem medo do ridículo ou da censura e uma escola que não interferisse no comportamento lingüístico dos alunos, interferência esta que constitui um verdadeiro imperialismo educacional. Esta teoria foi considerada utópica e alienada da realidade social.

Lemle e Labov afirmam que dialeto-padrão só é padrão por fatores histórico-sociológicos e não por razões lingüísticos propõem o bidialetismo funcional, onde falantes de dialeto não padrão devem aprender o dialeto-padrão, para usá-lo nas diferentes situações em que ele é requerido.

Bourdieu e Passeron consideram que a escola converte a cultura e a linguagem dos grupos dominantes em saber aos grupos dominantes em saber escolar legítimo e impõe esse saber aos grupos dominados e assim se perpetua a marginalização.

Soares (2000) propõe uma escola transformadora, comprometida com a luta contra as desigualdades sociais e econômicas, que proporcione às camadas populares um ensino eficiente. Condição fundamental para conquistas mais amplas e condição de participação cultural, política e de reivindicação social. Por este motivo a aquisição, pelas camadas populares, do dialeto de prestígio é o meio de retirar do controle exclusivo das classes dominantes um de seus principais instrumentos de dominação e de discriminação e fazer dele um instrumento também das camadas populares. Desta forma, estas disporão de igualdade de condições de uso da linguagem padrão e de acesso ao capital cultural considerado legítimo, para sua luta por maior participação política e mais justa distribuição da riqueza e de privilégios.

Todas essas questões são verdadeiras e relevantes uma vez que indivíduos pertencentes a grupos sociais privilegiados se distanciam dos de camadas populares. Essa distância se traduz não só na diferença lingüística, mas também em outras diferenças que servem de instrumento de opressão e manutenção de poder.

Sendo a linguagem o principal instrumento de ensino e de aprendizagem, na escola, a compreensão dessas relações e de suas implicações é fundamental a todos os envolvidos no processo educativo a compreensão e o questionamento sobre a quem se está a serviço.

6. LINGUAGEM TECNOLÓGICA

O ser humano vive um processo evolutivo constante, ocasionando evoluções sócio-culturais e tecnológicas. Isto ocasiona mudanças no pensamento humano e revelam um novo universo no cotidiano das pessoas.
Por volta de 1450, quando Gutenberg inventou a prensa, foi dado o primeiro passo para que o Homem ampliasse a sua visão de mundo. Ele percebe que as distâncias diminuíram e a informação circula com mais rapidez. Este fato tem papel decisivo na difusão das idéias e na ampliação da consciência crítica, o que altera o conhecimento que o Homem tem do mundo e de si.

No século XX, o aperfeiçoamento técnico do telefone, telégrafo, fotografia, cinema, rádio, televisão, comunicação via satélite, certamente vem mudando a estrutura do pensamento, agora marcado pela cultura da imagem e do som e pela globalização da consciência. Lévy (1994) descreveu esta nova forma de comunicação como uma superação do modelo estático da sociedade da imprensa, baseado na palavra escrita, no processo caracterizado pela bilateralidade (emissor / receptor) onde o autor e o limite do texto são totalmente nítidos e definidos. Segundo ele, o processo tornou-se hoje multilateral em função da grande circulação do conhecimento e informação. A construção de uma mensagem é coletiva na medida em que o autor, para formá-la, recebe informações e influências de vários lugares e de diferentes maneiras; por sua vez, cada interlocutor fará uma interpretação baseada em seu próprio código e a mensagem que recebe passa a ter significados sugeridos por seu meio social, sua educação e sua cultura e ainda suas disposições psicológicas do momento (Marques, 1993).

Assim, estabelece-se uma rede de troca de conhecimentos. O texto possui cada vez menos fronteiras, já não é mais um “território fechado”.

6.1 A construção do conhecimento na era tecnológica

O uso de computadores segundo princípios construcionistas foi proposto por Papert (1994) com base nas idéias de vários pensadores contemporâneos, em um diálogo que as incorporam num processo de descrição, execução, reflexão e depuração; sendo Dewey, Freire, Piaget e Vigotsky os principais inspiradores do pensamento de Papert.

Para Dewey (1979) a aquisição do saber é fruto da reconstrução da atividade humana a partir de um processo de reflexão sobre a experiência, continuamente repensada ou reconstruída. O pensamento em elaboração deve ter uma relação de continuidade com os conhecimentos que o aluno detém que são acionados na construção de projetos de interesse do aluno – projetos significativos em seu contexto social.

Papert (1994) considera que a melhor aprendizagem ocorre quando o aprendiz assume o comando de seu próprio desenvolvimento em atividades significativas e lhe despertem o prazer. Dentro deste enfoque Freire (1995) afirma que isto é o que torna o ato de aprender um ato de alegria e contentamento, no qual o cognitivo e o afetivo estão unidos dialeticamente.

Para Freire (1979) a pedagogia deve deixar espaço para o aluno construir seu próprio conhecimento, sem se preocupar em repassar conceitos prontos, o que freqüentemente ocorre na prática tradicional, que faz do aluno um ser passivo, em quem se “depositam” os conhecimentos para criar um banco de respostas em sua mente.A educação é uma busca constante do Homem que deve ser o sujeito de sua própria educação, por isso “ninguém educa ninguém”.A educação é um processo que não se reduz à técnica, mas em contrapartida aquela não se realiza sem esta. Utilizar computadores em educação pode expandir a capacidade crítica de nossos alunos. Depende de quem o usa, a favor de quem e para quê. Cada Homem deve se instrumentar com recursos da ciência e da tecnologia para melhor lutar pela humanização e pela sua própria libertação.

Papert (1985) retoma Freire quanto à crítica da educação bancária e assume para a alfabetização a dimensão de ler a palavra e ler o mundo, no sentido de permitir ao aluno tornar-se sujeito de seu próprio processo de aprendizagem. O aluno deixa de ser o consumidor de informações quando atua como criador de conhecimento e desenvolve criticamente sua alfabetização, com o uso de ferramentas informáticas, segundo seu próprio estilo de aprendizagem. Segundo Papert (1985)“a verdadeira alfabetização computacional não é apenas saber como usar o computador e as idéias computacionais. É saber quando é apropriado fazê-lo.”

Considerando Jean Piaget (1972), o pensamento não é transmitido. Ele é construído progressivamente por meio de ações e coordenações de ações, que são interiorizadas e se transformam.A inteligência surge de um processo evolutivo no qual muitos fatores devem ter tempo para encontrar seu equilíbrio. A contribuição fundamental de Piaget às idéias de Papert (1985) relaciona-se à teoria do conhecimento da aprendizagem e à sua inserção no ambiente informatizado que favorece à integração entre o conteúdo que está sendo aprendido e à estrutura desse conteúdo.

Vigotsky (1989) afirma que a linguagem e o desenvolvimento sociocultural determinam o desenvolvimento do pensamento. Assim, o sistema simbólico fundamental na mediação do sujeito é a linguagem humana, instrumento de mediação verbal do qual a palavra é a unidade básica. Os instrumentos culturais expandem os poderes da mente, tornando a sabedoria do passado analisável no presente e passível de aperfeiçoamento no futuro. A perspectiva de Vigotsky que Papert retoma refere-se ao papel da palavra na aprendizagem. A palavra é elemento fundamental nas inter-relações (aluno-aluno, aluno-professor, aluno-professor).

A idéia de rede como representação do conhecimento traz uma contribuição significativa para compreensão das teorias articuladas. Em uma rede as relações se entreteçam, articulam em teias, em redes construídas social e individualmente e em permanente estado de atualização. Para o aprendiz, o conhecimento necessário é aquele que o ajudará a obter mais conhecimento. A isso Papert denomina matética – a arte de aprender, no sentido de desenvolver o conhecimento sobre a aprendizagem.

Conclusão

Acredita-se que o ser humano evolui à medida que seus pensamentos, gestos, ações refletem sua forma de ler o mundo que o cerca. A linguagem se torna forma de identificação cultural. O ser racional, diferente dos outros animais se comunica, usando as diferentes formas de linguagem retratando sua essência de humano.

Observa-se que a sociedade transforma, surgem novas exigências e o Homem transcende sua visão; novas formas de se comunicar, interagir são criadas para ampliar seu universo.

Nesse contexto está a escola, que através do domínio das várias formas de linguagem deve redefinir seu papel, sua função e estar a serviço da inclusão social.
A proposta de Papert é uma nova atitude diante do conhecimento, que utilize o computador como ferramenta para o desenvolvimento integral do sujeito de acordo com suas próprias condições, interesses e possibilidades, substituindo a concepção fragmentada pela unitária de ser humano. É necessária uma conscientização sobre que ser humano se deve preparar para a sociedade contemporânea. Aquele que compreenda, que analise, interprete, sonhe, ame, se rebele, transforme, conviva, que supere suas limitações, que seja autônomo, que busque construir uma sociedade solidária que domine a linguagem tecnológica a serviço do bem comum, que compreenda a linguagem dos meios de comunicação e a utilize como meio de promoção humana.

O desafio está em transformar a escola num espaço livre para que este indivíduo possa, de fato, se desenvolver e interagir com o meio em que vive.

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