Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica – NEPHIS

Archive for fevereiro 2007

“NÃO ME CONSIDERO PROFESSORA”: MEMÓRIA E FORMAÇÃO DE NAIR MENDONÇA MARTINS (Minas Gerais 1945-1990)

Rosana Meire Lima
Margarita Victoria Gómez
Universidade Vale do Rio Verde/MG

EIXO TEMÁTICO: As construções (auto) biográficas e as práticas de formação.

Este artigo sobre memória e formação analisa a experiência da professora Nair Mendonça Martins que atuou em escolas rurais e urbanas de primeiro grau, nas cidades de Piranguinho e Brazópolis em Minas Gerais de 1945 a 1990. Sua biografia foi reconhecida através de fontes orais, escritas e visuais. Desenvolve-se no marco epistemológico da pesquisa biográfica e da formação de professores. O trabalho é resultado de uma pesquisa de mestrado defendida na área da educação que objetivou: identificar elementos do processo de formação da professora, reconhecer traços constitutivos de sua identidade e analisar as políticas educacionais da época.

Realizou-se pesquisa bibliográfica e biográfica, entrevistas semi-estruturadas com parentes e amigos de Dona Nair, consulta dos cadernos de formação, caderno de memórias, além do seu arquivo pessoal. A própria experiência da pesquisadora, como dispositivo metodológico, ofereceu subsídios para melhor compreender o estudo realizado. Alguns autores críticos ofereceram um significativo referencial para sistematizar e compreender a questão da memória e o processo de formação da professora: Henry Bérgson (Matéria e memória, 1990), M. Halbwachs (Memória coletiva, 1990), E. Goffman (Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, 1963), Adorno (Tabus acerca do magistério, 1995), E. Bosi (Memória e sociedade: lembranças de velhos, 1994), W. Benjamin (Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura, Obras escolhidas, 1987, 1994) P. Ricouer (Tempo e narrativa, 1994, 1995, 1997; ensaios 1998), A Nóvoa (Vida de professores, 2000), entre outros. Alguns deles serão citados neste trabalho que terá continuidade futura. A construção da identidade da nação brasileira, os programas de formação de professores rurais e urbanos, o serviço destes a favor de um modelo de país e educação são indagados nos escritos de Dona Nair. Na negação “não me considero professora”, e na assertiva com a qual inicia um de seus diários “faço isto pois não sirvo para outra coisa”, manifesta-se um discurso de pós – guerra com desencanto por sua pessoa e pela profissão. Era um momento em que, como professora “leiga” , perdia autoridade frente às “normalistas”.

A professora Nair não forjou sua formação na Escola Normal nem sua identidade nas lutas sindicais, mas seu ofício revela criatividade no trabalho com idéias e objetos. Os escritos da professora e as narrativas em torno dela, em conexão com a memória, revelaram modos de fazer e subjetividades manifestas na docência, enquanto processo de formação e identidade. Considera-se que a biografia de Dona Nair não resolve problemas globais, mas sim que ela orquestra experiências de vida e de formação que ressignificam o professor de antes e de hoje, enquanto sujeito com identidade profissional.

“Minhas Remotas Memórias”

Com o título “Minhas Remotas Memórias”, Dona Nair introduz o leitor a seu caderno de memórias. Escrito por volta do ano de 1999, a pedido de seu sobrinho Zaluar, este caderno revela lembranças dos anos iniciais no magistério, onde atuou desde 1945 a 1954, como professora rural.
O primeiro contato com o arquivo pessoal da professora Nair Mendonça Martins ocorreu em agosto de 2002, em Piranguinho, Minas Gerais. Juntamente com seu sobrinho Zaluar Martins Renó, também professor de História, reuniu-se o material com o intuito de catalogar e organizá-lo. O material didático foi separado dos documentos pessoais não referentes à educação. A seqüência cronológica de sua produção foi mantida. Esse trabalho gerou um movimento de rememoração compartilhado com o sobrinho. Como afirma Marina Maluf (1995, p.29):

“O trabalho de rememoração é um ato de intervenção no caos das imagens guardadas. E é também uma tentativa de organizar um tempo sentido e vivido do passado, e finalmente reencontrado através de uma vontade de lembrar – ou de um fragmento que tem a força de iluminar e reunir outros conteúdos conexos, “fingindo” abarcar toda uma vida.”

Assim, seus arquivos não desvendam os heróis da historiografia tradicional, mas sim, a professora de uma época. Esta experiência começa a revelar que o processo de construção social e histórica não se faz somente pelos sistemas econômicos, políticos, mas também pela maneira com que os sujeitos interpretam e contam sua vida.

Nas memórias narradas como construções do presente “a relembrança é uma reconstrução orientada pela vida atual, pelo lugar social e pela imaginação daquele que lembra”. Porque quando os sujeitos se voltam para o passado, ocorre o distanciamento temporal, algumas experiências se intensificam mais do que outras, mas não deixam de selecionar fatos que acabam por dar sentido ao relato de sua própria vivência (MALUF,1995, p.31).

“O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes” (BENJAMIN, 1987, p.201). Narrar é trabalho, construção do passado que confere identidade ao narrador. Entende-se que a “memória não é sonho, mas trabalho” (BOSI, 1994, p.17), porque, pacientemente, o mundo vai sendo reconstruído, e, na lembrança, as imagens se reconstroem de acordo com o olhar atual.

A conjugação passado, presente e futuro nunca foram livres de conflitos, e isso fica evidente quando começamos a reescrever a experiência docente de Dona Nair. A professora Nair Mendonça Martins nasceu em Brazópolis em 20 de fevereiro de 1927, embora seus documentos registrem 20 de maio. Era filha de Aparício Pereira Martins, pescador e de Jacyra Pereira de Mendonça, doméstica. Ambos de vida simples tiveram, ao todo, oito filhos, sendo ela a segunda.
Nair, de aparência franzina e triste, foi privada de toda brincadeira, e até dos afazeres domésticos devido a bronquite e aos freqüentes ataques asmáticos. Sua única responsabilidade era ser babá, cuidar dos irmãos, e tecer redes de pesca para seu pai.

A religião foi-lhe algo marcante, ou sagrado, um fator importante para a composição de sua visão de mundo e concepção de vida. Segundo Alencar (1993, p.177):
“[…] as professoras “leigas” elaboram sua concepção de mundo a partir de uma herança histórico-cultural comum, mistura de cristianismo e fatalidade, da qual deriva uma visão teológica da natureza e da sociedade, em que as coisas só acontecem “se Deus quiser” ou aconteceram “graças a Deus.”

Nair, professora “leiga”, carregava o estigma e tabus construídos em torno dessa situação, fortalecida a partir da entrada das “normalistas”. Raramente ia ao cinema, porém, gostava de teatro e dramas circenses.
Sua primeira experiência como professora ocorreu em 1945, aos dezenove anos, quando o prefeito de Brazópolis, o senhor Ataliba de Morais, solicitou ao senhor Aparício, uma das filhas, para lecionar na Escola Rural do Bairro do Tronco, naquele município. Observa-se a expressão lingüística – leigo – ante a falta de professores nas escolas, principalmente as das zonas rurais, sendo necessário à utilização das não formadas. De acordo com o Dicionário Aurélio (1998, p.453), o conceito leigo vem do latim laicu=por via popular; que é estranho ou alheio a um assunto; desconhecedor. Assim, professores que não possuíssem uma formação básica para lecionar em uma determinada série eram designados leigos.

Permanece em Brazópolis, atuando como professora de primeira a quarta série, do ensino primário até 1954. Em 1955, muda-se para Piranguinho, permanecendo na escola Estadual Almerinda Valente de Lima até se afastar por motivo de saúde, por volta de 1980. Sua aposentadoria, de acordo com o documento da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, ocorreu no ano de 1987. Mas ela não parou por aí e continuou alfabetizando seus sobrinhos, conhecidos, e filhos de amigos, sempre com grande dedicação, e obtendo ótimos resultados, segundo os documentos. Vindo a falecer em 2001.

A formação de Dona Nair possibilitou seu trabalho nas escolas rurais, onde a situação era de extrema precariedade, mas lhe permitia a liberdade e a criatividade de ser professora. Posteriormente, teve que se adaptar à realidade da escola urbana, respeitar as hierarquias de poder e saberes, assim como horários rígidos, reuniões pedagógicas e as quatro paredes da sala de aula como lugar de aprendizagem.

A formação na Fazenda do Gafanhoto

Os cadernos e diários pessoais de Dona Nair ofereceram elementos de análise do ir e vir das políticas educacionais desenvolvidas a partir do Estado Novo no Brasil e refletidas em Minas Gerais. Sua experiência como professora da zona rural (1945 a 1954) e mais tarde como professora da zona urbana (1960 a 1987), complementada com a formação no curso realizado na Fazenda do Gafanhoto, em Divinópolis/MG, oferece elementos para entender um momento significativo da Educação na primeira metade da República.

Durante o Estado Novo, a preocupação era a constituição de uma cultura nacional, na crença de que a solução estaria na educação, uma vez que a sociedade passava por profundas mudanças devido à passagem de uma economia agrário-exportadora para uma economia urbano-industrial, marco da consolidação do poder burguês e do liberalismo. O projeto de nação apostava no progresso e na força civilizadora que a escola poderia trazer ao combater o analfabetismo, principalmente na preparação de mão-de-obra para o mercado. Acreditava-se no projeto, portanto, como instrumento básico para uma rápida transformação social de um país que buscava constituir-se enquanto nação “civilizada”.
Observa-se, pois, uma aproximação entre as políticas públicas, as práticas educacionais e o contexto “sanitarista”, no sentido de cuidar da criança brasileira para que viesse a se tornar um adulto saudável, disciplinado e produtivo, contribuindo para o progresso do país dentro dos moldes de uma sociedade industrializada.

Em 1920, educadores como Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Fernando de Azevedo, que trabalharam pela intensificação e democratização do ensino, elaboraram um documento que ficou conhecido como Manifesto dos Pioneiros, que defendia, segundo Aranha (1996), educação obrigatória, pública, gratuita e leiga como um dever do Estado, a ser implantada em programa de âmbito nacional.

Estas idéias inspiradas no movimento escolanovista centravam as discussões sobre as reformas educacionais na questão: ensino nos moldes tradicionais ou ensino proposto pela Escola Nova. Infelizmente, este movimento não tinha caráter nacional e sim regional, o que dificultava a execução de vários projetos educacionais.

No Brasil, ainda não havia um sistema organizado de educação pública. A escola tinha um perfil aristocrático, pois visava a manter o status, fornecendo elementos que iriam formar a “inteligência” do regime. Essa elite, através de legislações, tentou organizar o ensino e o resultado foi de não ter beneficiado a todos. A primeira tentativa foi a Reforma Francisco Campos (1930 – 1937), a segunda, Leis Orgânicas do Ensino (1937 – 1946) e a terceira, Lei 4.024/61 que é a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1946 – 1961).

Em 14 de novembro de 1930, foi criado o Ministério de Educação e Saúde Pública, com Francisco Campos como primeiro ministro. Ele propôs uma gama de experiências e novos ideais da “Escola Nova”, a escolarização torna-se a grande alavanca para o progresso. Entretanto, foram detectadas muitas falhas, como a falta de qualificação e habilitação na formação de professores. Fato este confirmado por Lourenço Filho (2001, p.75) “Um inquérito, […], mostrou que 48% dos mestres em serviço nas escolas primárias não tiveram oportunidade de receber qualquer preparação pedagógica. O ensino não está entregue ao pessoal devidamente habilitado”.

A intensificação do processo industrial-urbano provocou, no campo, uma grande migração à zona urbana. O êxodo rural passou a ser ameaça à harmonia, à ordem das cidades e causador de uma possível baixa na produtividade do campo, tornando-se a educação rural preocupação das elites brasileiras.
Ao findar a década de 1920, havia um movimento conhecido como “Movimento Ruralista” que, segundo Tanuri (2000), o caracteriza como uma iniciativa de ajustar os currículos de acordo com o meio social, constituindo-se como um instrumento de fixação do homem no campo.

Estes ideais presentes no movimento ruralista foram encontrados claramente no caderno de memórias de Dona Nair, como segue o exemplo: “A tarefa da educação rural é preparar o homem para o campo, com os conhecimentos de meios físicos e recursos naturais e das atividades agro-pastoris” (Caderno do Curso de treinamento, 1950).

Como a procura por escolas aumentou, a elite viu-se quase que obrigada a abrir mão de seu privilégio – a educação – em favor das demais classes na área urbana. Quanto ao meio rural, nenhuma mudança ocorreu. Somente por volta de 1937, a escola rural foi novamente debatida com a criação da Sociedade Brasileira de Educação Rural, cujo objetivo era expandir o ensino e preservar a arte e o folclore rural.

Para amenizar as falhas do magistério, foi defendida a criação de “escolas normais rurais” que, segundo Tanuri (2000, p.75): “tinha como objetivo transmitir conhecimentos de agronomia e higiene rural”. Embora medidas tenham sido tomadas em relação ao ensino rural, temos que concordar com Leite (1999), que ao julgar o número de analfabetos rurais, constatou que nada mudou.
Em 1942, o então Ministro Gustavo Capanema iniciou reformas que ficaram conhecidas como Leis Orgânicas do Ensino. Esta lei propunha a criação de dois níveis diferenciados para se concluir o magistério. Segundo Amaral (1991, p.46): “a escola normal de 1º Ciclo, que habilitava o “regente de ensino” para atuar principalmente na zona rural e nas periferias urbanas, e a escola normal de 2º Ciclo que habilitava professores primários”. De acordo com a ênfase dada por essa Lei, a maior preocupação era regulamentar o curso de formação de professores ao propor a centralização nacional das diretrizes.

Entretanto o problema fora tratado como econômico, não pensando em resolvê-lo segundo os interesses da população rural, pois não era interesse das elites brasileiras. Quanto à educação foi criado na década de 1940, em Minas Gerais, o Serviço de Orientação Técnica do Ensino Rural, cuja função era organizar o ensino rural e gerenciar cursos para seus professores. A primeira diretora foi à professora Helena Antipoff, vinda da Rússia para o Brasil no ano de 1929, a convite do governo de Minas Gerais, para participar da implantação da Reforma Francisco Campos. Novas técnicas, concepções pedagógicas e psicológicas foram trazidas por outros professores estrangeiros, contudo, havia déficit desse profissional.

Exemplo desta experiência foi na Fazenda do Rosário, a Escola Normal Rural criada em 1949, coordenada por Helena Antipoff,e localizada no município de Ibirité, a 26 Km de Belo Horizonte, funcionando como um centro rural de pesquisa. Desenvolveu-se ali o Curso Normal Regional, que visava à formação de professores para a área rural.

Dessa maneira, o Estado propunha uma política: auxiliar os municípios na tentativa de orientar e fiscalizar as escolas rurais. Uma das respostas a esta política foi a proposta de melhoria salarial aos professores rurais que participassem de cursos de suficiência, treinamento e aperfeiçoamento criados pelo Serviço de Orientação.

Os cursos de suficiência, geralmente, realizados nos municípios sedes do Estado, duravam um mês. O objetivo, como Lourenço Filho (2001, p.89), colocou era “… estimular os mestres rurais na melhoria de seu nível cultural e selecionar elementos para os cursos de treinamento e aperfeiçoamento”. Nos anos de 1948 e 1949, Dona Nair participou do curso intensivo, sendo submetida a provas de suficiência, inserindo-se no curso de Treinamento Regional na escola de Gafanhoto em Divinópolis. Este curso durava de três a quatro meses, em regime de internato, tendo como objetivo habilitar professoras rurais para melhor desempenhar suas funções. As disciplinas estudadas eram: Língua Materna, Aritmética, Ciências Naturais e Higiene.

O espírito de colaboração nos afazeres da Fazenda foi mantido durante todo o curso, promovendo a interação entre professores e alunos através de “clubes”. As aulas ocupavam todo o dia, com pequenos intervalos para descanso, realização dos estudos e deveres. O grupo de alunas era variado. Havia várias normalistas, algumas com o diploma do ginásio e outras leigas. Por mais “conteudistas” que pudessem parecer, as aulas eram mescladas de conteúdo e de experiências.

As medidas tomadas pelo governo, para suprir a falta de professores, favoreceram a formação de Dona Nair. Os interesses do Estado podiam variar, ora evitando o problema do êxodo rural, ora mantendo o status quo. No entanto, parafraseando Werebe (1960, p.379) a Lei de Diretrizes e Bases ignorou pura e simplesmente o problema dos professores leigos, como se tratasse de questão superada ou sem importância. Nem as Leis Orgânicas e nem a LDB/61 trouxeram mudanças, apenas deram continuidade a esta estrutura, deixando mais uma vez de lado a preocupação com a formação de professores primários, visto que eram poucas as que tinham acesso aos cursos.

A prática: “desembaraçando os dedinhos”

Dona Nair guardou as anotações do curso feito em Divinópolis. Estas vêm aos poucos revelar a infinidade de informações educacionais recebidas no curso de treinamento pelo professor Roberval Pompilho Cardoso: “Educação é dar conhecimentos às gerações formadas, acrescentando novos conhecimentos futuros para o bem feliz do Brasil” (Caderno do curso de treinamento, 1950). Assim como o conceito de Escola Rural: “Fixação do homem ao solo, valorizando seu município e o valor da terra”, encaixando nos ideais do movimento ruralista deste período.

Dona Nair conta em suas anotações a sua contratação inicial como professora rural. Após ter-se apresentado ao prefeito Ataliba de Morais, de Brazópolis, ela foi falar com o secretário, senhor Adalberto Lopes, que lhe deu uma vaga orientação de como trabalhar na escola: ensine os alunos a rezar, escrever o nome, fazer continhas e a cantar o Hino Nacional, nada mais e o resto é por sua conta (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951).

Vivia-se ainda o tempo dos coronéis. Para Janotti (1992, p.7), coronelismo é entendido como “poder exercido por chefes políticos sobre parcela ou parcelas do eleitorado, objetivando a escolha de candidatos por eles indicados”. Aprender a “desenhar” o nome, para os políticos locais, já era o suficiente, pois lhes garantia os votos de cabresto necessários para a perpetuação desse tipo de poder. Escolas deste período serviam aos interesses político-eleitorais da prefeitura do município. A nomeação, as contratações de professores e a escolha de escola dependiam de tal controle político.

Dona Nair acabava sendo uma peça desse dispositivo político, embora em suas lembranças diga que não aceitava imposições, arriscando assim até o seu cargo, muito embora tivesse consciência do jogo político. Em sua primeira fase como professora rural, Dona Nair enfrentou vários problemas comuns à época. A situação da escola rural, situadas junto à propriedade do fazendeiro, na maioria das vezes, em locais pouco apropriados e em condições precárias de conservação e higiene, como a falta de água, da fossa, do mobiliário. As matrículas eram feitas de casa em casa. A escola é a Unitária, ou do Mestre Único, onde o professor acaba atendendo alunos de vários níveis na mesma classe, conhecida também como multisseriada.

Embora utilizasse o caderno de seu irmão e de vizinhos para dar aulas, fazia uso de outros livros como “O Pequeno Escolar”, 4º livro. Série Moura Santos, anotado e comentado pelo prof. Máximo de Moura Santos (32ª Edição, São Paulo, Cia Editora Nacional, 1939), e o “Livro de Violeta”, de João Lúcio, (Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1938/1939). Livros que Dona Nair já conhecia, pois foi com eles que estudou. Eles traziam textos com vocabulários, biografias e exercícios com temas gerais, mas sempre visando à aprendizagem. Esses não eram os únicos materiais didáticos utilizados por Dona Nair que recorria a outros como as anotações realizadas nos cadernos do curso de treinamento e cartilhas. Ministrava as disciplinas de Português, Matemática e Religião. Só depois de ter participado de cursos, é que diversificou mais as disciplinas, trabalhando também Estudos Sociais e Ciências. Criava materiais pedagógicos, tanto para ensinar os alunos como para educá-los religiosamente.
Também ela, ex-aluna de classes multisseriadas, estudando com crianças de várias idades, ensinou adotando procedimentos e estratégias específicas. Para os novatos da primeira série iniciava propondo-lhes atividades de desenvolvimento da coordenação psicomotora – mesmo sem saber esta denominação – adotadas ainda hoje na pré-escola. Ela chamava de “exercícios para desembaraçar os dedinhos”:

Para os alunos fracos e novatos passei as vogais no caderninho e tive que ajudá-los segurando a mãozinha para ensinar a escrever. Nessa época não sabia e nunca ouvi falar em coordenação motora. Apelei para a minha imaginação exercícios que desembaraçassem os dedinhos (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951).

Aos alunos que já conheciam os números, Dona Nair solicitava que escrevessem algarismos no caderno, enquanto auxiliava os alunos que apresentavam dificuldades e os novatos a contarem os dedos da mão diversas vezes, passando depois no caderno de cada aluno um desenho com o número indicado. Prestava assistência individualizada aos alunos que apresentassem dificuldades, mas não deixava os demais sem fazer nada. Cada série tinha uma tarefa a ser realizada. Numa espécie de remanejamento, ela conseguia atender todas as séries ali agrupadas, ora passando atividades no quadro ou ditando, ora tomando leitura oral, ora solicitando ajuda dos alunos. A estratégia de trabalho utilizada por Dona Nair segundo De Vargas (2003, p.97), em seus estudos, nomeou como “Delegação de autoridade”. Segundo esta:

“A professora delega tarefas a um aluno que o coloca numa posição ascendente sobre os colegas, permitindo-lhes dar certas explicações a outros alunos, ou realizar tarefas de ensino, como, por exemplo, fazer um ditado ou copiar um dever no quadro.”

Ao solicitar e autorizar um aluno para que ensinasse os demais, Dona Nair não via esta atitude como indisciplina ou como atitude perturbadora e sempre recorria a este método quando precisava.
Ela não poupava recursos para ensinar seus alunos. No decorrer da leitura de seus materiais, foram encontradas diversas técnicas e atividades que utilizava para ministrar suas aulas. Encontramos em um caderno referente à escola do Bairro Boa Vista, em 1949, onde ela e seus alunos criaram um jornal “Tico Tico”. As matérias publicadas acabavam por reunir notícias do cotidiano da escola e da cidade, festas, redações, poemas, cantigas, desenhos, posse do prefeito e outros afins.

Vale ressaltar que a “Língua Pátria”, de declarada importância, ganhava um destaque ainda maior quando as melhores composições eram adicionadas ao jornal. Conforme o que aprendera no curso, Dona Nair registrou: “organizar o jornal convém porque é um meio de comunicação e é lido” (Caderno do curso, 1950). Notificamos que esta prática do jornal perdurou até a sua aposentadoria, já na escola urbana.

Além do jornal, foi inaugurada uma Farmácia Escolar feita por eles mesmos “de caixote em forma de um armário com porta, pregado na parede, tendo vários remédios (comprimidos, gotas e ceras). Nossa farmácia servia até para atender algumas pessoas” (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951). A função da escola não se restringia somente ao ensino estendia à comunidade, servindo de espaço de atendimento a diferentes necessidades locais. Dona Nair também preparava as crianças para a primeira comunhão, para as atividades comemorativas e visitas do prefeito e do padre.

Havia também a Biblioteca Machado de Assis, “uma prateleira de caixote onde estavam alguns livros de histórias, de leitura e os cadernos de desenhos e de provas dos alunos e alguns outros objetos” (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951). Importante “porque ela é um centro de intenso cultivo de instruções no meio rural” (Caderno do curso de treinamento, 1950).
As aulas seguiam seu próprio ritmo, ou melhor, o ritmo dos alunos, da professora, do interesse coletivo. Os alunos aguardavam a chegada da professora, brincando ao redor da escola. Ao chegar, logo eram conduzidos numa espécie de ritual, fazendo a oração todos os dias ao entrar e ao sair. Aos sábados e feriados, as crianças também tinham atividades na escola, como auditórios e atividades com mapas.

A rotina de estudos era entremeada de horas recreativas. Dona Nair se lembrou do arroz doce que as meninas quiseram aprender. Foram até a sua casa levando os ingredientes, e lá sua mãe as ensinou. Os piqueniques não faltavam, pois aprendera no curso de treinamento que as excursões deveriam acontecer, então graças a elas é que os alunos aprenderiam “o amor à natureza, à pátria, além de auxiliar nas demais *disciplinas como a Matemática, a Ciência e o Português” (Caderno do curso de treinamento, 1950).

Ela aproveitava, para ensiná-los, até mesmo quando seu irmão teve queimaduras graves com fogo e álcool, aproveitou para dar aulas de primeiros socorros. Enquanto ela curava, ia também fazendo perguntas sobre o mesmo e explicando como fazia tal curativo. Desta maneira, a professora assumia diversos papéis: era professora, costureira, catequista, enfermeira e até mesmo ajudante sanitária, como ocorreu após uma palestra ministrada pelo serviço de saúde pública, quando foi solicitada para dar os vermífugos às crianças.
Para melhor socializar o homem rural, criou o grêmio da escola rural. Com a criação da cooperativa, os alunos puderam adquirir livros e material escolar por preço mais acessível. Desenvolvia habilidades em aritmética (custo, troco, compra e venda) e permitia cultivar hábitos de responsabilidade, ao participar das atividades, como integrantes do processo.

O Clube Agrícola fora montado, a partir de um terreno cedido nas proximidades da escola. Seus representantes eram alunos eleitos sendo composto de “um presidente, um secretário, um tesoureiro, encarregados do material, das ferramentas e demais auxiliares” (Caderno do curso de treinamento, 1950). Toda a colheita realizada no terreno era anotada em ata pelo secretário e, depois, dividida entre os alunos. Durante as aulas, os dados tornavam-se exercícios de matemática, de ciências e até produção de texto. Esta atividade durou até sua ida para a zona urbana.

Nos anos seguintes, o Clube de Leitura fez parte de suas aulas. Nele, os textos eram lidos pelos alunos. Eram verdadeiras cerimônias realizadas com certo sentido de ritual, em que o civismo se destacava com o canto do Hino Nacional que todos já sabiam. O programa, segundo as anotações objetivava “comemorar as datas cívicas, expor trabalhos das meninas e dos meninos” (Caderno Educação Rural e Saúde, 1950).

O discurso patriótico e a importância do civismo apareciam também nas visitas do inspetor, nas festas e celebrações para as quais eram convidadas autoridades civis e religiosas da cidade, além dos familiares e de toda a comunidade. Regularmente recebiam a visita do inspetor. Sua presença, quando anunciada, era esperada com muito gosto pelas crianças, mas quase sempre chegava sem aviso prévio.

A preocupação com a higiene e com o “mens sana in corpore sano” constituía o contexto higienista daquele período governamental, ao manter a ordem e a moral. A família era o grande alvo dos dirigentes deste projeto, e à mulher competia a responsabilidade da saúde familiar e o controle da sexualidade. Assim, o “pelotão” de saúde era formado na escola com a mesma finalidade com que foi ensinada *a Dona Nair em seu curso: “Poderá ser de cinco a dez meninos eleitos pelos colegas. Encarregados de manter a higiene, fiscalizar, fazer a limpeza em volta da casa, escola” (Caderno do curso de treinamento, 1950).
De 1945 até 1952, Dona Nair atuou como professora de primeira a quarta séries do ensino primário, em salas multisseriadas, em diversas escolas rurais do município de Brazópolis. De 1952 a 1954 passou a residir com a irmã Hilda neste mesmo município, pois seus familiares haviam se mudado para Piranguinho, município vizinho de Brazópolis. Em 1955, reencontra sua família, após um desentendimento com a autoridade local.

Em sua nova cidade, e iniciando a segunda fase como professora urbana, enfrentou novos desafios. Passou a trabalhar como professora particular, pois não conseguiu encontrar vagas nas escolas. Sua tarefa era preparar os alunos para realização do exame de admissão exigido para freqüentar o Ginásio. De acordo com Bittencourt (1990, p.50) “os exames de admissão selecionavam os mais aptos a partir dos onze anos […] além de uma série de exigências burocráticas e de conhecimentos de Português, Aritmética, Geografia, História do Brasil e Ciências Naturais”.

Por volta de 1960, Dona Nair consegue aulas na Escola Estadual Almerinda Valente de Lima, como substituta. Sua colega de trabalho Marina Carneiro confirmou também em entrevista que, “no início, ela pegava substituições, dava conta de tudo muito bem”. Enfrentou o problema de não ser funcionária do Estado e a cada ano seu contrato era renovado.

A aposentadoria de Dona Nair só aconteceu porque ela conseguiu efetivar-se por tempo de serviço. Esta condição acabou por influenciar no tipo de escolha da classe que ela deveria trabalhar durante os anos letivos seguintes, uma vez que as distribuições de aulas eram realizadas beneficiando os efetivos e com mais tempo na casa, concedendo-lhes direitos de escolher primeiro. “As sobras” geralmente eram as classes dos repetentes ou dos alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem. Mas isto não a intimidava.

Em seu arquivo, encontramos um caderno pequeno que guardou uma série de planejamentos datados dos anos de 1973,1974 e 1975, já na escola de Piranguinho. Todos detalhados, com referências a livros didáticos em uso na época. Na escola urbana ela não tinha mais a liberdade de ministrar os conteúdos como em suas escolas rurais. Tinha um programa a cumprir. Entretanto, ela continuou utilizando seu antigo método: agrupar os alunos, delegando tarefas para uns, ficando mais livre para atender aqueles que apresentassem dificuldades.

Em seus planejamentos, sempre há referências aos alunos mais “fracos” e um plano de aula diferenciado para atendê-los. Começando pelos objetivos: para os alunos que não apresentavam dificuldades era “desenvolver a escrita, fixação das palavras”. Para os ‘mais fracos’ era “desenvolver a linguagem oral e escrita através de ditado” (Caderno de planejamento, 1977). Essa diferenciação mostra a grande preocupação educacional de Dona Nair, que acabou por se transformar em sua marca pessoal.

Dona Nair permaneceu nesta escola até se afastar por motivo de saúde e sua aposentadoria, de acordo com o documento da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, ocorreu no ano de 1987.

As práticas pedagógicas de Dona Nair certamente foram vividas por outras professoras, porém o contato com a sua experiência permite refletir sobre os inúmeros profissionais anônimos responsáveis pela formação de homens e mulheres deste país. O que seduz, no estudo específico da memória de Dona Nair, é a trajetória de educadora. Demonstrou capacidade de recriar suas experiências de aluna do Grupo Escolar Coronel Francisco Braz, aperfeiçoamento e sistematização das práticas educativas após sua participação nos cursos de treinamento, como o da Escola do Gafanhoto, além de sua concepção religiosa que deu à profissão o sentido de missão, e teremos aí o “fazer-se” da professora, ao mesmo tempo aprendiz e educadora, sempre em busca da excelência possível no ato de ensinar.

A identidade: a escrita de si

As lembranças da primeira professora, carinhosa, meiga, parece “naturalmente” uma tarefa feminina. As relações de gênero no âmbito educacional e estudos posteriores contribuem para desvendar o conceito “feminino”, construído e transformado ao longo do processo social e histórico.
O gênero é uma construção social, atribuído ao homem e à mulher e não à distinção sexual do macho e da fêmea, como referendou Yannoulas (2001, p. 70):

“A palavra sexo provém do latim sexus e refere-se à condição orgânica (anatômico-fiosiológica) que distingue o macho da fêmea […] A categoria gênero provém do latim genus e refere-se ao código de conduta que rege a organização social das relações entre homens e mulheres. Em outras palavras, o gênero é o modo como as culturas interpretam e organizam a diferença sexual entre homens e mulheres.”

No Brasil, durante o período colonial, os portugueses que aqui chegaram trouxeram seus modelos de comportamento e dominação patriarcal. A educação, por exemplo, continuou sendo função estritamente masculina, exercida principalmente por religiosos “jesuítas” e por homens que estudavam e eram contratados como tutores, pelas pessoas com melhores condições financeiras.
Esse domínio patriarcal foi aperfeiçoado durante anos pelo sistema capitalista em ascensão. Essa sociedade determinava que as mulheres fossem subjugadas pelos homens e restringissem à esfera de sua casa e da igreja.O impacto dessa restrição levou a mulher a se recolher ao âmbito doméstico, à condição de mera reprodutora. Dessa forma, a mulher não precisava ter boa formação, bastava-lhe aprender as primeiras letras e os cálculos aritméticos básicos para assegurar as tarefas do lar. Numa visão muito peculiar, a mulher era apresentada como “pecadora”. Esse pensamento era baseado na explicação bíblica da primeira mulher, Eva, de ter incentivado o primeiro homem, Adão, ao pecado e, por isso, os dois teriam sido expulsos do paraíso.

Até a independência do Brasil, não existiu educação popular, mas depois dela, o ensino, pelo menos nos termos da lei, tornou-se gratuito e público, inclusive para mulheres. Esse discurso tinha caráter demagógico, uma vez que os conteúdos ministrados aos homens diferenciavam em muito aos das mulheres. As moças dedicavam-se à costura, ao bordado e à cozinha, enquanto os homens estudavam geometria. Contudo, apesar do estudo passar a ser um direito garantido por lei, as mulheres não tinham acesso à instrução, exceto aquelas que pertenciam às elites e às classes ascendentes, pois a segregação da mulher continuava presente na sociedade.

Com o advento da República, os líderes influenciados pelas teorias positivistas e burguesas, que julgavam que a mulher estava “naturalmente” dotada da capacidade para cuidar das crianças, consideravam o magistério uma profissão feminina por excelência. Esse pensamento estava aliado à necessidade de formação de professores, tendo em vista que os homens tentavam buscar vantagens financeiras em outras áreas. Assim, as mulheres, sobretudo a partir da segunda década do século XX, começaram a abraçar o magistério, principalmente as que provinham de uma situação financeira precária e as de classe média.

Esse movimento originou o que chamamos “feminização do magistério”. Este conceito é utilizado por Almeida (1998) para se referir à expansão da mão-de-obra feminina em escolas, nos sistemas educacionais, na freqüência à Escola Normal e nos traços culturais que favoreceram o exercício do magistério pelas mulheres. Isto pode ter sido ocasionado pela urbanização e industrialização que acabavam por ampliar as oportunidades de trabalho para o sexo masculino com o surgimento de novas atividades industriais e como conseqüência o abandono do exercício do magistério devido às baixas remunerações.

O magistério passou a ser visto como uma atividade de amor, de entrega e doação e só iriam dedicar-se a ele aqueles que tivessem vocação. Por isso, características como paciência, afetividade e doação foram associadas ao magistério. A tradição religiosa acabou reforçando o magistério como sacerdócio e não como profissão. A professora acabava por ser consagrada “mãe espiritual” e a ocupar o reduto da educação pelos postos mais baixos da hierarquia do sistema.

Tais representações acabaram por exercer um papel ativo na construção do que é ser professora, assim, caberia à mulher o papel de ensinar o respeito à nação, à reprodução e valores, articulando-se, “a missão do lar” à “sagrada missão do magistério”, que, pelas suas características bem pouco profissionais, definiam, baixos salários e avançado grau de subordinação.

Como haviam sido educadas para serem submissas dentro e fora da escola, era-lhes natural serem submissas também perante a hierarquia presente no meio escolar. As mulheres apenas lecionavam. A estruturação da mesma, os cargos administrativos e de liderança, eram geridos pelos homens. Dessa forma, havia um grande controle sobre a atuação das professoras, inclusive sobre sua sexualidade. A escola continuava relegando a mulher a um plano secundário, perpetuando a submissão existente na sociedade patriarcal.

O que se percebeu foi que à medida que aumentava a presença feminina, diminuíam as remunerações, a ocupação passou a ser considerada pouco qualificada e decaiu o prestígio social da profissão. Assim, a docência era considerada uma atividade desvalorizada, conferida a pessoas pouco capacitadas, já que são qualificadas apenas por serem mulheres, com condições naturais para cuidarem das crianças.

Infelizmente, as mulheres acabaram sendo moldadas, aprisionadas, aceitando estes estereótipos considerados normais. Estereótipos rígidos, preconceituosos como diferenças salariais e curriculares que contribuíram com o Estado, a serviço da dominação. Esse processo, que começou na colonização, com a desvalorização e subjugação feminina, continuou na Independência, frisando a diferença da educação por gênero, e se perpetuou na República com a inserção das mulheres nas salas de aulas infantis, sob o comando dos homens, e permaneceu dessa forma durante o restante do século XX.

Dona Nair não teve marido nem filhos. Assumiu ser educadora, como ”uma amiga ou irmã mais velha”, não se apresentava como professora, mestra ou tia: “Não sou e nunca me considerei professora. Confesso que me sentia ofendida quando assim me chamavam” (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951). Com essa instigante frase ela inicia o seu Caderno de Memórias, escrito em 1999. Afirmações como esta se repetem nos documentos. Não seria pretexto um artifício utilizado para receber elogios? Talvez sentimentos de mágoa, antigos ou recentes? Não seria ressentimento remoto devido ao empobrecimento da família, uma vez que os seus avós tinham nome, terras e reconhecimentos? Seu pai abandonara o campo e tornara-se pescador. No entanto, na escola rural ela se considerava dona de si, ciente do ato de educar, ao inserir-se no meio escolar urbano, em Piranguinho, o que lhe sucedeu? Intimidou-se diante das citadas normalistas? Sofreu algum tipo de discriminação? Ou sua pessoa causava inveja às outras por se destacar em suas tarefas?

Estas indagações abrem leituras possíveis, porém, certamente havia alguma diferença em relação a ela. Foi substituta, ficou com classes mais difíceis, em uma cidade pequena onde a normalista era uma figura social importante. Em sua releitura dos fatos aparecem sentimentos de inferioridade e indignação, mas, ao mesmo tempo, deixa aflorar a consciência de que trabalhava melhor do que outras “leigas” como ela. Os entrevistados recordam de Dona Nair como a única capaz de ensinar os alunos “fraquinhos”. Será que a identidade negada não esconde uma outra, “oculta” para ela mesma, que o pesquisador poderá desentranhar de suas memórias e de outros registros? Por que teria ela conservado o seu material pedagógico? Ao ousarmos compreender a sua experiência, encontraremos ali prazer, desafio, aventura, indignação, decepção e saudade.

Longas caminhadas, temporadas em casas “dos outros”, enfrentando situações embaraçosas, conflitos com fazendeiro que colocava o gado dentro da horta da escola, sensação e medo de ser substituída pela normalista ou pela protegida de alguém, foram parte da experiência “extra-classe”. As emoções, desafio e angustias são constitutivos da sua subjetividade. No relato das peripécias de seu trabalho deixava escapar: eu era professora. Uma identidade não explícita, mas possível aos olhos do pesquisador que ali vislumbra o fazer-se de um sujeito numa relação dialética com o seu meio.

A subjetividade aqui supera o isolamento e a ação individual se dá em interação com o meio social e com esquemas de lembranças coletivas. Halbwachs (1990, p.26) afirma que a memória coletiva contém uma função mnêmica passando a ser um fenômeno radical, pois relembrar é experiência social: as lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, não estamos sós, embora outros homens não estejam lá, distinguindo-se materialmente. Tem-se conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem.

O ato de rememorar pode ser um trabalho penoso. Em determinados momentos Dona Nair pára, está cansada, ora se aborrece com algumas lembranças. Como diz Bosi (1994, p. 9): “Pela memória, o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, desloca estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência”. Em sua volta ao passado, ela relata momentos de conflito internos e externos. Tais conflitos são também forjadores de identidade, como afirma Nóvoa (2000, p.16): “a identidade não é um dado adquirido, não é um produto(…) é um lugar de lutas e de conflitos, um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão”.

Narrar a própria vida é o meio mais lúcido que uma pessoa tem de lembrar, é a sua memória. E é nestas lembranças que o passado sobrevive e o sujeito se reconhece como tal. Uma pessoa que narra sua história e missão, com a clareza de Dona Nair, deve ter, mesmo sem nomear, a consciência do que fez e foi. Bérgson (1990) afirma que a memória pode ser compreendida na relação entre corpo e espírito situando-a numa zona de interseção entre eles, pois é através da percepção que o real penetra em nós para se constituir em lembranças. Ao narrar suas memórias, ela confirmava ou re-elaborava a própria identidade. Segundo Ricouer (1998), o simples fato de narrar já é uma experiência que se está perdendo, no sentido benjaminiano.

Dona Nair teceu os fios de sua história onde assumiu seu trabalho como missão, uma caracterização execrada no meio docente hoje. Disse não se considerar professora, mas soube definir com clareza seus objetivos: “apenas cumpria uma missão a mim confiada de ensinar e orientar as crianças para uma vida melhor de enfrentar as dificuldades do futuro” (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951). Quem cumpre a missão de educar é o quê? Talvez ela negasse o “modelo oficial de professora”. Não importam as razões. Cabe-nos, como disse Benjamin, capturando os “lampejos do passado”, redimir o sujeito de uma história condenada ao esquecimento, não por ele mesmo, mas pelos sujeitos da história que é preciso construir hoje.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Articular diferentes fontes – orais, escritas, visuais – e ainda mais, passado, presente e futuro não está livre de paradoxos e conflitos desde o momento que não é linear. A metodologia abriu possibilidades para a emersão do sujeito face às estruturas e sistemas. Dona Nair desvelou para nós “ouvintes” e “leitores”, reminiscências, seu cotidiano como professora rural e urbana. Sua formação de três meses na fazenda rural Gafanhoto revelou as políticas públicas e o processo educacional vivido por muitas professoras como ela.

Revelou também uma mulher do seu tempo, que gostava de música, de leituras e, que si não foi esposa nem mãe, assumiu outra função “feminina” para a época, tornou-se professora. A diferença é o relato da sua experiência que deixou marcas por onde viveu e nos possibilita, hoje, um olhar sobre a realidade atual do professorado desse período. A não identificação com a professora normalista, não lhe impediu de atuar com competência no ato de ensinar.

Esta experiência pedagógica de Dona Nair insere-se num projeto de Nação, cujas políticas públicas visavam à criação de uma identidade para o Brasil. A Secretaria de Educação de Minas Gerais em parceria com os municípios promoveu cursos para os professores não titulados ou “leigos”. A escola deveria contribuir com o aprendizado e com a Pátria. A professora estava encarregada de levar as “luzes do saber” aos lares mais pobres e humildes. Cabia-lhe despertar inteligências, cultivar vontades sadias e facilitar meios de aprendizagem como noções da nossa língua, abrindo assim caminhos àqueles que tivessem vontade de adquirir maiores conhecimentos.

Dona Nair assumiu a docência como uma missão, concebeu sua vida plasmada pela religião e pelos valores tradicionais da família e da sociedade dos meados do século. A história de vida recompõe a importância da professora “leiga” na formação de homens e mulheres de nossas cidades. A memória abre uma compreensão dialética do universo na medida em que a individualidade abriu espaço à coletividade numa recíproca interpenetração que permitiu a formação de sua identidade.

Do convencional uso de cartilhas até aulas práticas de culinária, horticultura ou primeiros socorros foi utilizado para alfabetizar os alunos. A língua pátria ganhava espaço em seus clubes de leitura, jornal, em suas histórias contadas, e em auditórios montados. As excursões tornavam-se grandes aventuras para aprender ciências, estudos sociais e, até mesmo, a importância das diferentes profissões. A comunidade era o lugar da ação educativa e se fazia mais presente através das festas religiosas e cívicas. Esse seu saber-fazer que nos incitou a querer conhecer de fato quem foi Dona Nair.

Sua expressão escrita, “não me considero professora”, soa desafiadora: o que é ser professor/a hoje? Ela conhecia o seu ofício e o executava, segundo uma missão assumida. O que faz o mestre de hoje? Atender a múltiplas exigências: preparar para o vestibular, treinar o aluno para diferentes formas de avaliação do sistema educacional, preparar para a vida e o mercado de trabalho, formar o cidadão, manter o aluno fora das ruas, ensinar-lhe boas maneiras e suportar estoicamente os desafios da droga e da violência, trabalhar com os fundamentos das ciências ou educar para a “fruição” da vida?
Quem somos nós? As imagens se fundem num emaranhado de teorias e especificações. Anda-se atordoado em busca de referenciais; de escola em escola, sem criar laços, mão de obra barata e rotativa, sob olhares vigilantes dos burocratas da legislação. Dona Nair não tinha titulação, mas sabia “ensinar” e assim era reconhecida, como tantas outras. Os bilhetes de agradecimento encontrados em seu arquivo se lembram da professora. O que acontece, hoje, com o professor que alcança a aposentadoria?

Dona Nair não forjou sua identidade nas lutas sindicais, mas na prática cotidiana de seu ofício. O “saber-fazer” significou mais do que ter o título ou ser sindicalizada dentro da categoria. Incomoda-nos, em sua experiência, o “saber-fazer” porque, mesmo negando, ela sabia que era professora. Faz-nos tomar consciência de que continuamos sujeitos e de que existem brechas e espaços de liberdade por onde ações competentes, planejadas, criativas e subversivas podem penetrar. Não se trata de repetir o passado, mas de retomar os sonhos primeiros e superar tecnicismos e missões a cumprir. Histórias de vida como as de Dona Nair nos permitem investigar e compreender as matrizes dos ideais, dos discursos e das práticas dos professores. O diálogo entre elas e a própria experiência é importante para ressignificar posturas, estabelecer novas metas, configurar significados e recuperar o encanto de educar.

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Três Corações/MG, junho de 2006.

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“NÃO ME CONSIDERO PROFESSORA”: MEMÓRIA E FORMAÇÃO DE NAIR MENDONÇA MARTINS (Minas Gerais 1945-1990)

Rosana Meire Lima
Margarita Victoria Gómez
Universidade Vale do Rio Verde/MG

EIXO TEMÁTICO: As construções (auto) biográficas e as práticas de formação.

Este artigo sobre memória e formação analisa a experiência da professora Nair Mendonça Martins que atuou em escolas rurais e urbanas de primeiro grau, nas cidades de Piranguinho e Brazópolis em Minas Gerais de 1945 a 1990. Sua biografia foi reconhecida através de fontes orais, escritas e visuais. Desenvolve-se no marco epistemológico da pesquisa biográfica e da formação de professores. O trabalho é resultado de uma pesquisa de mestrado defendida na área da educação que objetivou: identificar elementos do processo de formação da professora, reconhecer traços constitutivos de sua identidade e analisar as políticas educacionais da época.

Realizou-se pesquisa bibliográfica e biográfica, entrevistas semi-estruturadas com parentes e amigos de Dona Nair, consulta dos cadernos de formação, caderno de memórias, além do seu arquivo pessoal. A própria experiência da pesquisadora, como dispositivo metodológico, ofereceu subsídios para melhor compreender o estudo realizado. Alguns autores críticos ofereceram um significativo referencial para sistematizar e compreender a questão da memória e o processo de formação da professora: Henry Bérgson (Matéria e memória, 1990), M. Halbwachs (Memória coletiva, 1990), E. Goffman (Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, 1963), Adorno (Tabus acerca do magistério, 1995), E. Bosi (Memória e sociedade: lembranças de velhos, 1994), W. Benjamin (Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura, Obras escolhidas, 1987, 1994) P. Ricouer (Tempo e narrativa, 1994, 1995, 1997; ensaios 1998), A Nóvoa (Vida de professores, 2000), entre outros. Alguns deles serão citados neste trabalho que terá continuidade futura. A construção da identidade da nação brasileira, os programas de formação de professores rurais e urbanos, o serviço destes a favor de um modelo de país e educação são indagados nos escritos de Dona Nair. Na negação “não me considero professora”, e na assertiva com a qual inicia um de seus diários “faço isto pois não sirvo para outra coisa”, manifesta-se um discurso de pós – guerra com desencanto por sua pessoa e pela profissão. Era um momento em que, como professora “leiga” , perdia autoridade frente às “normalistas”.

A professora Nair não forjou sua formação na Escola Normal nem sua identidade nas lutas sindicais, mas seu ofício revela criatividade no trabalho com idéias e objetos. Os escritos da professora e as narrativas em torno dela, em conexão com a memória, revelaram modos de fazer e subjetividades manifestas na docência, enquanto processo de formação e identidade. Considera-se que a biografia de Dona Nair não resolve problemas globais, mas sim que ela orquestra experiências de vida e de formação que ressignificam o professor de antes e de hoje, enquanto sujeito com identidade profissional.

“Minhas Remotas Memórias”

Com o título “Minhas Remotas Memórias”, Dona Nair introduz o leitor a seu caderno de memórias. Escrito por volta do ano de 1999, a pedido de seu sobrinho Zaluar, este caderno revela lembranças dos anos iniciais no magistério, onde atuou desde 1945 a 1954, como professora rural.
O primeiro contato com o arquivo pessoal da professora Nair Mendonça Martins ocorreu em agosto de 2002, em Piranguinho, Minas Gerais. Juntamente com seu sobrinho Zaluar Martins Renó, também professor de História, reuniu-se o material com o intuito de catalogar e organizá-lo. O material didático foi separado dos documentos pessoais não referentes à educação. A seqüência cronológica de sua produção foi mantida. Esse trabalho gerou um movimento de rememoração compartilhado com o sobrinho. Como afirma Marina Maluf (1995, p.29):

“O trabalho de rememoração é um ato de intervenção no caos das imagens guardadas. E é também uma tentativa de organizar um tempo sentido e vivido do passado, e finalmente reencontrado através de uma vontade de lembrar – ou de um fragmento que tem a força de iluminar e reunir outros conteúdos conexos, “fingindo” abarcar toda uma vida.”

Assim, seus arquivos não desvendam os heróis da historiografia tradicional, mas sim, a professora de uma época. Esta experiência começa a revelar que o processo de construção social e histórica não se faz somente pelos sistemas econômicos, políticos, mas também pela maneira com que os sujeitos interpretam e contam sua vida.

Nas memórias narradas como construções do presente “a relembrança é uma reconstrução orientada pela vida atual, pelo lugar social e pela imaginação daquele que lembra”. Porque quando os sujeitos se voltam para o passado, ocorre o distanciamento temporal, algumas experiências se intensificam mais do que outras, mas não deixam de selecionar fatos que acabam por dar sentido ao relato de sua própria vivência (MALUF,1995, p.31).

“O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes” (BENJAMIN, 1987, p.201). Narrar é trabalho, construção do passado que confere identidade ao narrador. Entende-se que a “memória não é sonho, mas trabalho” (BOSI, 1994, p.17), porque, pacientemente, o mundo vai sendo reconstruído, e, na lembrança, as imagens se reconstroem de acordo com o olhar atual.

A conjugação passado, presente e futuro nunca foram livres de conflitos, e isso fica evidente quando começamos a reescrever a experiência docente de Dona Nair. A professora Nair Mendonça Martins nasceu em Brazópolis em 20 de fevereiro de 1927, embora seus documentos registrem 20 de maio. Era filha de Aparício Pereira Martins, pescador e de Jacyra Pereira de Mendonça, doméstica. Ambos de vida simples tiveram, ao todo, oito filhos, sendo ela a segunda.
Nair, de aparência franzina e triste, foi privada de toda brincadeira, e até dos afazeres domésticos devido a bronquite e aos freqüentes ataques asmáticos. Sua única responsabilidade era ser babá, cuidar dos irmãos, e tecer redes de pesca para seu pai.

A religião foi-lhe algo marcante, ou sagrado, um fator importante para a composição de sua visão de mundo e concepção de vida. Segundo Alencar (1993, p.177):
“[…] as professoras “leigas” elaboram sua concepção de mundo a partir de uma herança histórico-cultural comum, mistura de cristianismo e fatalidade, da qual deriva uma visão teológica da natureza e da sociedade, em que as coisas só acontecem “se Deus quiser” ou aconteceram “graças a Deus.”

Nair, professora “leiga”, carregava o estigma e tabus construídos em torno dessa situação, fortalecida a partir da entrada das “normalistas”. Raramente ia ao cinema, porém, gostava de teatro e dramas circenses.
Sua primeira experiência como professora ocorreu em 1945, aos dezenove anos, quando o prefeito de Brazópolis, o senhor Ataliba de Morais, solicitou ao senhor Aparício, uma das filhas, para lecionar na Escola Rural do Bairro do Tronco, naquele município. Observa-se a expressão lingüística – leigo – ante a falta de professores nas escolas, principalmente as das zonas rurais, sendo necessário à utilização das não formadas. De acordo com o Dicionário Aurélio (1998, p.453), o conceito leigo vem do latim laicu=por via popular; que é estranho ou alheio a um assunto; desconhecedor. Assim, professores que não possuíssem uma formação básica para lecionar em uma determinada série eram designados leigos.

Permanece em Brazópolis, atuando como professora de primeira a quarta série, do ensino primário até 1954. Em 1955, muda-se para Piranguinho, permanecendo na escola Estadual Almerinda Valente de Lima até se afastar por motivo de saúde, por volta de 1980. Sua aposentadoria, de acordo com o documento da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, ocorreu no ano de 1987. Mas ela não parou por aí e continuou alfabetizando seus sobrinhos, conhecidos, e filhos de amigos, sempre com grande dedicação, e obtendo ótimos resultados, segundo os documentos. Vindo a falecer em 2001.

A formação de Dona Nair possibilitou seu trabalho nas escolas rurais, onde a situação era de extrema precariedade, mas lhe permitia a liberdade e a criatividade de ser professora. Posteriormente, teve que se adaptar à realidade da escola urbana, respeitar as hierarquias de poder e saberes, assim como horários rígidos, reuniões pedagógicas e as quatro paredes da sala de aula como lugar de aprendizagem.

A formação na Fazenda do Gafanhoto

Os cadernos e diários pessoais de Dona Nair ofereceram elementos de análise do ir e vir das políticas educacionais desenvolvidas a partir do Estado Novo no Brasil e refletidas em Minas Gerais. Sua experiência como professora da zona rural (1945 a 1954) e mais tarde como professora da zona urbana (1960 a 1987), complementada com a formação no curso realizado na Fazenda do Gafanhoto, em Divinópolis/MG, oferece elementos para entender um momento significativo da Educação na primeira metade da República.

Durante o Estado Novo, a preocupação era a constituição de uma cultura nacional, na crença de que a solução estaria na educação, uma vez que a sociedade passava por profundas mudanças devido à passagem de uma economia agrário-exportadora para uma economia urbano-industrial, marco da consolidação do poder burguês e do liberalismo. O projeto de nação apostava no progresso e na força civilizadora que a escola poderia trazer ao combater o analfabetismo, principalmente na preparação de mão-de-obra para o mercado. Acreditava-se no projeto, portanto, como instrumento básico para uma rápida transformação social de um país que buscava constituir-se enquanto nação “civilizada”.
Observa-se, pois, uma aproximação entre as políticas públicas, as práticas educacionais e o contexto “sanitarista”, no sentido de cuidar da criança brasileira para que viesse a se tornar um adulto saudável, disciplinado e produtivo, contribuindo para o progresso do país dentro dos moldes de uma sociedade industrializada.

Em 1920, educadores como Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Fernando de Azevedo, que trabalharam pela intensificação e democratização do ensino, elaboraram um documento que ficou conhecido como Manifesto dos Pioneiros, que defendia, segundo Aranha (1996), educação obrigatória, pública, gratuita e leiga como um dever do Estado, a ser implantada em programa de âmbito nacional.

Estas idéias inspiradas no movimento escolanovista centravam as discussões sobre as reformas educacionais na questão: ensino nos moldes tradicionais ou ensino proposto pela Escola Nova. Infelizmente, este movimento não tinha caráter nacional e sim regional, o que dificultava a execução de vários projetos educacionais.

No Brasil, ainda não havia um sistema organizado de educação pública. A escola tinha um perfil aristocrático, pois visava a manter o status, fornecendo elementos que iriam formar a “inteligência” do regime. Essa elite, através de legislações, tentou organizar o ensino e o resultado foi de não ter beneficiado a todos. A primeira tentativa foi a Reforma Francisco Campos (1930 – 1937), a segunda, Leis Orgânicas do Ensino (1937 – 1946) e a terceira, Lei 4.024/61 que é a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1946 – 1961).

Em 14 de novembro de 1930, foi criado o Ministério de Educação e Saúde Pública, com Francisco Campos como primeiro ministro. Ele propôs uma gama de experiências e novos ideais da “Escola Nova”, a escolarização torna-se a grande alavanca para o progresso. Entretanto, foram detectadas muitas falhas, como a falta de qualificação e habilitação na formação de professores. Fato este confirmado por Lourenço Filho (2001, p.75) “Um inquérito, […], mostrou que 48% dos mestres em serviço nas escolas primárias não tiveram oportunidade de receber qualquer preparação pedagógica. O ensino não está entregue ao pessoal devidamente habilitado”.

A intensificação do processo industrial-urbano provocou, no campo, uma grande migração à zona urbana. O êxodo rural passou a ser ameaça à harmonia, à ordem das cidades e causador de uma possível baixa na produtividade do campo, tornando-se a educação rural preocupação das elites brasileiras.
Ao findar a década de 1920, havia um movimento conhecido como “Movimento Ruralista” que, segundo Tanuri (2000), o caracteriza como uma iniciativa de ajustar os currículos de acordo com o meio social, constituindo-se como um instrumento de fixação do homem no campo.

Estes ideais presentes no movimento ruralista foram encontrados claramente no caderno de memórias de Dona Nair, como segue o exemplo: “A tarefa da educação rural é preparar o homem para o campo, com os conhecimentos de meios físicos e recursos naturais e das atividades agro-pastoris” (Caderno do Curso de treinamento, 1950).

Como a procura por escolas aumentou, a elite viu-se quase que obrigada a abrir mão de seu privilégio – a educação – em favor das demais classes na área urbana. Quanto ao meio rural, nenhuma mudança ocorreu. Somente por volta de 1937, a escola rural foi novamente debatida com a criação da Sociedade Brasileira de Educação Rural, cujo objetivo era expandir o ensino e preservar a arte e o folclore rural.

Para amenizar as falhas do magistério, foi defendida a criação de “escolas normais rurais” que, segundo Tanuri (2000, p.75): “tinha como objetivo transmitir conhecimentos de agronomia e higiene rural”. Embora medidas tenham sido tomadas em relação ao ensino rural, temos que concordar com Leite (1999), que ao julgar o número de analfabetos rurais, constatou que nada mudou.
Em 1942, o então Ministro Gustavo Capanema iniciou reformas que ficaram conhecidas como Leis Orgânicas do Ensino. Esta lei propunha a criação de dois níveis diferenciados para se concluir o magistério. Segundo Amaral (1991, p.46): “a escola normal de 1º Ciclo, que habilitava o “regente de ensino” para atuar principalmente na zona rural e nas periferias urbanas, e a escola normal de 2º Ciclo que habilitava professores primários”. De acordo com a ênfase dada por essa Lei, a maior preocupação era regulamentar o curso de formação de professores ao propor a centralização nacional das diretrizes.

Entretanto o problema fora tratado como econômico, não pensando em resolvê-lo segundo os interesses da população rural, pois não era interesse das elites brasileiras. Quanto à educação foi criado na década de 1940, em Minas Gerais, o Serviço de Orientação Técnica do Ensino Rural, cuja função era organizar o ensino rural e gerenciar cursos para seus professores. A primeira diretora foi à professora Helena Antipoff, vinda da Rússia para o Brasil no ano de 1929, a convite do governo de Minas Gerais, para participar da implantação da Reforma Francisco Campos. Novas técnicas, concepções pedagógicas e psicológicas foram trazidas por outros professores estrangeiros, contudo, havia déficit desse profissional.

Exemplo desta experiência foi na Fazenda do Rosário, a Escola Normal Rural criada em 1949, coordenada por Helena Antipoff,e localizada no município de Ibirité, a 26 Km de Belo Horizonte, funcionando como um centro rural de pesquisa. Desenvolveu-se ali o Curso Normal Regional, que visava à formação de professores para a área rural.

Dessa maneira, o Estado propunha uma política: auxiliar os municípios na tentativa de orientar e fiscalizar as escolas rurais. Uma das respostas a esta política foi a proposta de melhoria salarial aos professores rurais que participassem de cursos de suficiência, treinamento e aperfeiçoamento criados pelo Serviço de Orientação.

Os cursos de suficiência, geralmente, realizados nos municípios sedes do Estado, duravam um mês. O objetivo, como Lourenço Filho (2001, p.89), colocou era “… estimular os mestres rurais na melhoria de seu nível cultural e selecionar elementos para os cursos de treinamento e aperfeiçoamento”. Nos anos de 1948 e 1949, Dona Nair participou do curso intensivo, sendo submetida a provas de suficiência, inserindo-se no curso de Treinamento Regional na escola de Gafanhoto em Divinópolis. Este curso durava de três a quatro meses, em regime de internato, tendo como objetivo habilitar professoras rurais para melhor desempenhar suas funções. As disciplinas estudadas eram: Língua Materna, Aritmética, Ciências Naturais e Higiene.

O espírito de colaboração nos afazeres da Fazenda foi mantido durante todo o curso, promovendo a interação entre professores e alunos através de “clubes”. As aulas ocupavam todo o dia, com pequenos intervalos para descanso, realização dos estudos e deveres. O grupo de alunas era variado. Havia várias normalistas, algumas com o diploma do ginásio e outras leigas. Por mais “conteudistas” que pudessem parecer, as aulas eram mescladas de conteúdo e de experiências.

As medidas tomadas pelo governo, para suprir a falta de professores, favoreceram a formação de Dona Nair. Os interesses do Estado podiam variar, ora evitando o problema do êxodo rural, ora mantendo o status quo. No entanto, parafraseando Werebe (1960, p.379) a Lei de Diretrizes e Bases ignorou pura e simplesmente o problema dos professores leigos, como se tratasse de questão superada ou sem importância. Nem as Leis Orgânicas e nem a LDB/61 trouxeram mudanças, apenas deram continuidade a esta estrutura, deixando mais uma vez de lado a preocupação com a formação de professores primários, visto que eram poucas as que tinham acesso aos cursos.

A prática: “desembaraçando os dedinhos”

Dona Nair guardou as anotações do curso feito em Divinópolis. Estas vêm aos poucos revelar a infinidade de informações educacionais recebidas no curso de treinamento pelo professor Roberval Pompilho Cardoso: “Educação é dar conhecimentos às gerações formadas, acrescentando novos conhecimentos futuros para o bem feliz do Brasil” (Caderno do curso de treinamento, 1950). Assim como o conceito de Escola Rural: “Fixação do homem ao solo, valorizando seu município e o valor da terra”, encaixando nos ideais do movimento ruralista deste período.

Dona Nair conta em suas anotações a sua contratação inicial como professora rural. Após ter-se apresentado ao prefeito Ataliba de Morais, de Brazópolis, ela foi falar com o secretário, senhor Adalberto Lopes, que lhe deu uma vaga orientação de como trabalhar na escola: ensine os alunos a rezar, escrever o nome, fazer continhas e a cantar o Hino Nacional, nada mais e o resto é por sua conta (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951).

Vivia-se ainda o tempo dos coronéis. Para Janotti (1992, p.7), coronelismo é entendido como “poder exercido por chefes políticos sobre parcela ou parcelas do eleitorado, objetivando a escolha de candidatos por eles indicados”. Aprender a “desenhar” o nome, para os políticos locais, já era o suficiente, pois lhes garantia os votos de cabresto necessários para a perpetuação desse tipo de poder. Escolas deste período serviam aos interesses político-eleitorais da prefeitura do município. A nomeação, as contratações de professores e a escolha de escola dependiam de tal controle político.

Dona Nair acabava sendo uma peça desse dispositivo político, embora em suas lembranças diga que não aceitava imposições, arriscando assim até o seu cargo, muito embora tivesse consciência do jogo político. Em sua primeira fase como professora rural, Dona Nair enfrentou vários problemas comuns à época. A situação da escola rural, situadas junto à propriedade do fazendeiro, na maioria das vezes, em locais pouco apropriados e em condições precárias de conservação e higiene, como a falta de água, da fossa, do mobiliário. As matrículas eram feitas de casa em casa. A escola é a Unitária, ou do Mestre Único, onde o professor acaba atendendo alunos de vários níveis na mesma classe, conhecida também como multisseriada.

Embora utilizasse o caderno de seu irmão e de vizinhos para dar aulas, fazia uso de outros livros como “O Pequeno Escolar”, 4º livro. Série Moura Santos, anotado e comentado pelo prof. Máximo de Moura Santos (32ª Edição, São Paulo, Cia Editora Nacional, 1939), e o “Livro de Violeta”, de João Lúcio, (Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1938/1939). Livros que Dona Nair já conhecia, pois foi com eles que estudou. Eles traziam textos com vocabulários, biografias e exercícios com temas gerais, mas sempre visando à aprendizagem. Esses não eram os únicos materiais didáticos utilizados por Dona Nair que recorria a outros como as anotações realizadas nos cadernos do curso de treinamento e cartilhas. Ministrava as disciplinas de Português, Matemática e Religião. Só depois de ter participado de cursos, é que diversificou mais as disciplinas, trabalhando também Estudos Sociais e Ciências. Criava materiais pedagógicos, tanto para ensinar os alunos como para educá-los religiosamente.
Também ela, ex-aluna de classes multisseriadas, estudando com crianças de várias idades, ensinou adotando procedimentos e estratégias específicas. Para os novatos da primeira série iniciava propondo-lhes atividades de desenvolvimento da coordenação psicomotora – mesmo sem saber esta denominação – adotadas ainda hoje na pré-escola. Ela chamava de “exercícios para desembaraçar os dedinhos”:

Para os alunos fracos e novatos passei as vogais no caderninho e tive que ajudá-los segurando a mãozinha para ensinar a escrever. Nessa época não sabia e nunca ouvi falar em coordenação motora. Apelei para a minha imaginação exercícios que desembaraçassem os dedinhos (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951).

Aos alunos que já conheciam os números, Dona Nair solicitava que escrevessem algarismos no caderno, enquanto auxiliava os alunos que apresentavam dificuldades e os novatos a contarem os dedos da mão diversas vezes, passando depois no caderno de cada aluno um desenho com o número indicado. Prestava assistência individualizada aos alunos que apresentassem dificuldades, mas não deixava os demais sem fazer nada. Cada série tinha uma tarefa a ser realizada. Numa espécie de remanejamento, ela conseguia atender todas as séries ali agrupadas, ora passando atividades no quadro ou ditando, ora tomando leitura oral, ora solicitando ajuda dos alunos. A estratégia de trabalho utilizada por Dona Nair segundo De Vargas (2003, p.97), em seus estudos, nomeou como “Delegação de autoridade”. Segundo esta:

“A professora delega tarefas a um aluno que o coloca numa posição ascendente sobre os colegas, permitindo-lhes dar certas explicações a outros alunos, ou realizar tarefas de ensino, como, por exemplo, fazer um ditado ou copiar um dever no quadro.”

Ao solicitar e autorizar um aluno para que ensinasse os demais, Dona Nair não via esta atitude como indisciplina ou como atitude perturbadora e sempre recorria a este método quando precisava.
Ela não poupava recursos para ensinar seus alunos. No decorrer da leitura de seus materiais, foram encontradas diversas técnicas e atividades que utilizava para ministrar suas aulas. Encontramos em um caderno referente à escola do Bairro Boa Vista, em 1949, onde ela e seus alunos criaram um jornal “Tico Tico”. As matérias publicadas acabavam por reunir notícias do cotidiano da escola e da cidade, festas, redações, poemas, cantigas, desenhos, posse do prefeito e outros afins.

Vale ressaltar que a “Língua Pátria”, de declarada importância, ganhava um destaque ainda maior quando as melhores composições eram adicionadas ao jornal. Conforme o que aprendera no curso, Dona Nair registrou: “organizar o jornal convém porque é um meio de comunicação e é lido” (Caderno do curso, 1950). Notificamos que esta prática do jornal perdurou até a sua aposentadoria, já na escola urbana.

Além do jornal, foi inaugurada uma Farmácia Escolar feita por eles mesmos “de caixote em forma de um armário com porta, pregado na parede, tendo vários remédios (comprimidos, gotas e ceras). Nossa farmácia servia até para atender algumas pessoas” (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951). A função da escola não se restringia somente ao ensino estendia à comunidade, servindo de espaço de atendimento a diferentes necessidades locais. Dona Nair também preparava as crianças para a primeira comunhão, para as atividades comemorativas e visitas do prefeito e do padre.

Havia também a Biblioteca Machado de Assis, “uma prateleira de caixote onde estavam alguns livros de histórias, de leitura e os cadernos de desenhos e de provas dos alunos e alguns outros objetos” (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951). Importante “porque ela é um centro de intenso cultivo de instruções no meio rural” (Caderno do curso de treinamento, 1950).
As aulas seguiam seu próprio ritmo, ou melhor, o ritmo dos alunos, da professora, do interesse coletivo. Os alunos aguardavam a chegada da professora, brincando ao redor da escola. Ao chegar, logo eram conduzidos numa espécie de ritual, fazendo a oração todos os dias ao entrar e ao sair. Aos sábados e feriados, as crianças também tinham atividades na escola, como auditórios e atividades com mapas.

A rotina de estudos era entremeada de horas recreativas. Dona Nair se lembrou do arroz doce que as meninas quiseram aprender. Foram até a sua casa levando os ingredientes, e lá sua mãe as ensinou. Os piqueniques não faltavam, pois aprendera no curso de treinamento que as excursões deveriam acontecer, então graças a elas é que os alunos aprenderiam “o amor à natureza, à pátria, além de auxiliar nas demais *disciplinas como a Matemática, a Ciência e o Português” (Caderno do curso de treinamento, 1950).

Ela aproveitava, para ensiná-los, até mesmo quando seu irmão teve queimaduras graves com fogo e álcool, aproveitou para dar aulas de primeiros socorros. Enquanto ela curava, ia também fazendo perguntas sobre o mesmo e explicando como fazia tal curativo. Desta maneira, a professora assumia diversos papéis: era professora, costureira, catequista, enfermeira e até mesmo ajudante sanitária, como ocorreu após uma palestra ministrada pelo serviço de saúde pública, quando foi solicitada para dar os vermífugos às crianças.
Para melhor socializar o homem rural, criou o grêmio da escola rural. Com a criação da cooperativa, os alunos puderam adquirir livros e material escolar por preço mais acessível. Desenvolvia habilidades em aritmética (custo, troco, compra e venda) e permitia cultivar hábitos de responsabilidade, ao participar das atividades, como integrantes do processo.

O Clube Agrícola fora montado, a partir de um terreno cedido nas proximidades da escola. Seus representantes eram alunos eleitos sendo composto de “um presidente, um secretário, um tesoureiro, encarregados do material, das ferramentas e demais auxiliares” (Caderno do curso de treinamento, 1950). Toda a colheita realizada no terreno era anotada em ata pelo secretário e, depois, dividida entre os alunos. Durante as aulas, os dados tornavam-se exercícios de matemática, de ciências e até produção de texto. Esta atividade durou até sua ida para a zona urbana.

Nos anos seguintes, o Clube de Leitura fez parte de suas aulas. Nele, os textos eram lidos pelos alunos. Eram verdadeiras cerimônias realizadas com certo sentido de ritual, em que o civismo se destacava com o canto do Hino Nacional que todos já sabiam. O programa, segundo as anotações objetivava “comemorar as datas cívicas, expor trabalhos das meninas e dos meninos” (Caderno Educação Rural e Saúde, 1950).

O discurso patriótico e a importância do civismo apareciam também nas visitas do inspetor, nas festas e celebrações para as quais eram convidadas autoridades civis e religiosas da cidade, além dos familiares e de toda a comunidade. Regularmente recebiam a visita do inspetor. Sua presença, quando anunciada, era esperada com muito gosto pelas crianças, mas quase sempre chegava sem aviso prévio.

A preocupação com a higiene e com o “mens sana in corpore sano” constituía o contexto higienista daquele período governamental, ao manter a ordem e a moral. A família era o grande alvo dos dirigentes deste projeto, e à mulher competia a responsabilidade da saúde familiar e o controle da sexualidade. Assim, o “pelotão” de saúde era formado na escola com a mesma finalidade com que foi ensinada *a Dona Nair em seu curso: “Poderá ser de cinco a dez meninos eleitos pelos colegas. Encarregados de manter a higiene, fiscalizar, fazer a limpeza em volta da casa, escola” (Caderno do curso de treinamento, 1950).
De 1945 até 1952, Dona Nair atuou como professora de primeira a quarta séries do ensino primário, em salas multisseriadas, em diversas escolas rurais do município de Brazópolis. De 1952 a 1954 passou a residir com a irmã Hilda neste mesmo município, pois seus familiares haviam se mudado para Piranguinho, município vizinho de Brazópolis. Em 1955, reencontra sua família, após um desentendimento com a autoridade local.

Em sua nova cidade, e iniciando a segunda fase como professora urbana, enfrentou novos desafios. Passou a trabalhar como professora particular, pois não conseguiu encontrar vagas nas escolas. Sua tarefa era preparar os alunos para realização do exame de admissão exigido para freqüentar o Ginásio. De acordo com Bittencourt (1990, p.50) “os exames de admissão selecionavam os mais aptos a partir dos onze anos […] além de uma série de exigências burocráticas e de conhecimentos de Português, Aritmética, Geografia, História do Brasil e Ciências Naturais”.

Por volta de 1960, Dona Nair consegue aulas na Escola Estadual Almerinda Valente de Lima, como substituta. Sua colega de trabalho Marina Carneiro confirmou também em entrevista que, “no início, ela pegava substituições, dava conta de tudo muito bem”. Enfrentou o problema de não ser funcionária do Estado e a cada ano seu contrato era renovado.

A aposentadoria de Dona Nair só aconteceu porque ela conseguiu efetivar-se por tempo de serviço. Esta condição acabou por influenciar no tipo de escolha da classe que ela deveria trabalhar durante os anos letivos seguintes, uma vez que as distribuições de aulas eram realizadas beneficiando os efetivos e com mais tempo na casa, concedendo-lhes direitos de escolher primeiro. “As sobras” geralmente eram as classes dos repetentes ou dos alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem. Mas isto não a intimidava.

Em seu arquivo, encontramos um caderno pequeno que guardou uma série de planejamentos datados dos anos de 1973,1974 e 1975, já na escola de Piranguinho. Todos detalhados, com referências a livros didáticos em uso na época. Na escola urbana ela não tinha mais a liberdade de ministrar os conteúdos como em suas escolas rurais. Tinha um programa a cumprir. Entretanto, ela continuou utilizando seu antigo método: agrupar os alunos, delegando tarefas para uns, ficando mais livre para atender aqueles que apresentassem dificuldades.

Em seus planejamentos, sempre há referências aos alunos mais “fracos” e um plano de aula diferenciado para atendê-los. Começando pelos objetivos: para os alunos que não apresentavam dificuldades era “desenvolver a escrita, fixação das palavras”. Para os ‘mais fracos’ era “desenvolver a linguagem oral e escrita através de ditado” (Caderno de planejamento, 1977). Essa diferenciação mostra a grande preocupação educacional de Dona Nair, que acabou por se transformar em sua marca pessoal.

Dona Nair permaneceu nesta escola até se afastar por motivo de saúde e sua aposentadoria, de acordo com o documento da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, ocorreu no ano de 1987.

As práticas pedagógicas de Dona Nair certamente foram vividas por outras professoras, porém o contato com a sua experiência permite refletir sobre os inúmeros profissionais anônimos responsáveis pela formação de homens e mulheres deste país. O que seduz, no estudo específico da memória de Dona Nair, é a trajetória de educadora. Demonstrou capacidade de recriar suas experiências de aluna do Grupo Escolar Coronel Francisco Braz, aperfeiçoamento e sistematização das práticas educativas após sua participação nos cursos de treinamento, como o da Escola do Gafanhoto, além de sua concepção religiosa que deu à profissão o sentido de missão, e teremos aí o “fazer-se” da professora, ao mesmo tempo aprendiz e educadora, sempre em busca da excelência possível no ato de ensinar.

A identidade: a escrita de si

As lembranças da primeira professora, carinhosa, meiga, parece “naturalmente” uma tarefa feminina. As relações de gênero no âmbito educacional e estudos posteriores contribuem para desvendar o conceito “feminino”, construído e transformado ao longo do processo social e histórico.
O gênero é uma construção social, atribuído ao homem e à mulher e não à distinção sexual do macho e da fêmea, como referendou Yannoulas (2001, p. 70):

“A palavra sexo provém do latim sexus e refere-se à condição orgânica (anatômico-fiosiológica) que distingue o macho da fêmea […] A categoria gênero provém do latim genus e refere-se ao código de conduta que rege a organização social das relações entre homens e mulheres. Em outras palavras, o gênero é o modo como as culturas interpretam e organizam a diferença sexual entre homens e mulheres.”

No Brasil, durante o período colonial, os portugueses que aqui chegaram trouxeram seus modelos de comportamento e dominação patriarcal. A educação, por exemplo, continuou sendo função estritamente masculina, exercida principalmente por religiosos “jesuítas” e por homens que estudavam e eram contratados como tutores, pelas pessoas com melhores condições financeiras.
Esse domínio patriarcal foi aperfeiçoado durante anos pelo sistema capitalista em ascensão. Essa sociedade determinava que as mulheres fossem subjugadas pelos homens e restringissem à esfera de sua casa e da igreja.O impacto dessa restrição levou a mulher a se recolher ao âmbito doméstico, à condição de mera reprodutora. Dessa forma, a mulher não precisava ter boa formação, bastava-lhe aprender as primeiras letras e os cálculos aritméticos básicos para assegurar as tarefas do lar. Numa visão muito peculiar, a mulher era apresentada como “pecadora”. Esse pensamento era baseado na explicação bíblica da primeira mulher, Eva, de ter incentivado o primeiro homem, Adão, ao pecado e, por isso, os dois teriam sido expulsos do paraíso.

Até a independência do Brasil, não existiu educação popular, mas depois dela, o ensino, pelo menos nos termos da lei, tornou-se gratuito e público, inclusive para mulheres. Esse discurso tinha caráter demagógico, uma vez que os conteúdos ministrados aos homens diferenciavam em muito aos das mulheres. As moças dedicavam-se à costura, ao bordado e à cozinha, enquanto os homens estudavam geometria. Contudo, apesar do estudo passar a ser um direito garantido por lei, as mulheres não tinham acesso à instrução, exceto aquelas que pertenciam às elites e às classes ascendentes, pois a segregação da mulher continuava presente na sociedade.

Com o advento da República, os líderes influenciados pelas teorias positivistas e burguesas, que julgavam que a mulher estava “naturalmente” dotada da capacidade para cuidar das crianças, consideravam o magistério uma profissão feminina por excelência. Esse pensamento estava aliado à necessidade de formação de professores, tendo em vista que os homens tentavam buscar vantagens financeiras em outras áreas. Assim, as mulheres, sobretudo a partir da segunda década do século XX, começaram a abraçar o magistério, principalmente as que provinham de uma situação financeira precária e as de classe média.

Esse movimento originou o que chamamos “feminização do magistério”. Este conceito é utilizado por Almeida (1998) para se referir à expansão da mão-de-obra feminina em escolas, nos sistemas educacionais, na freqüência à Escola Normal e nos traços culturais que favoreceram o exercício do magistério pelas mulheres. Isto pode ter sido ocasionado pela urbanização e industrialização que acabavam por ampliar as oportunidades de trabalho para o sexo masculino com o surgimento de novas atividades industriais e como conseqüência o abandono do exercício do magistério devido às baixas remunerações.

O magistério passou a ser visto como uma atividade de amor, de entrega e doação e só iriam dedicar-se a ele aqueles que tivessem vocação. Por isso, características como paciência, afetividade e doação foram associadas ao magistério. A tradição religiosa acabou reforçando o magistério como sacerdócio e não como profissão. A professora acabava por ser consagrada “mãe espiritual” e a ocupar o reduto da educação pelos postos mais baixos da hierarquia do sistema.

Tais representações acabaram por exercer um papel ativo na construção do que é ser professora, assim, caberia à mulher o papel de ensinar o respeito à nação, à reprodução e valores, articulando-se, “a missão do lar” à “sagrada missão do magistério”, que, pelas suas características bem pouco profissionais, definiam, baixos salários e avançado grau de subordinação.

Como haviam sido educadas para serem submissas dentro e fora da escola, era-lhes natural serem submissas também perante a hierarquia presente no meio escolar. As mulheres apenas lecionavam. A estruturação da mesma, os cargos administrativos e de liderança, eram geridos pelos homens. Dessa forma, havia um grande controle sobre a atuação das professoras, inclusive sobre sua sexualidade. A escola continuava relegando a mulher a um plano secundário, perpetuando a submissão existente na sociedade patriarcal.

O que se percebeu foi que à medida que aumentava a presença feminina, diminuíam as remunerações, a ocupação passou a ser considerada pouco qualificada e decaiu o prestígio social da profissão. Assim, a docência era considerada uma atividade desvalorizada, conferida a pessoas pouco capacitadas, já que são qualificadas apenas por serem mulheres, com condições naturais para cuidarem das crianças.

Infelizmente, as mulheres acabaram sendo moldadas, aprisionadas, aceitando estes estereótipos considerados normais. Estereótipos rígidos, preconceituosos como diferenças salariais e curriculares que contribuíram com o Estado, a serviço da dominação. Esse processo, que começou na colonização, com a desvalorização e subjugação feminina, continuou na Independência, frisando a diferença da educação por gênero, e se perpetuou na República com a inserção das mulheres nas salas de aulas infantis, sob o comando dos homens, e permaneceu dessa forma durante o restante do século XX.

Dona Nair não teve marido nem filhos. Assumiu ser educadora, como ”uma amiga ou irmã mais velha”, não se apresentava como professora, mestra ou tia: “Não sou e nunca me considerei professora. Confesso que me sentia ofendida quando assim me chamavam” (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951). Com essa instigante frase ela inicia o seu Caderno de Memórias, escrito em 1999. Afirmações como esta se repetem nos documentos. Não seria pretexto um artifício utilizado para receber elogios? Talvez sentimentos de mágoa, antigos ou recentes? Não seria ressentimento remoto devido ao empobrecimento da família, uma vez que os seus avós tinham nome, terras e reconhecimentos? Seu pai abandonara o campo e tornara-se pescador. No entanto, na escola rural ela se considerava dona de si, ciente do ato de educar, ao inserir-se no meio escolar urbano, em Piranguinho, o que lhe sucedeu? Intimidou-se diante das citadas normalistas? Sofreu algum tipo de discriminação? Ou sua pessoa causava inveja às outras por se destacar em suas tarefas?

Estas indagações abrem leituras possíveis, porém, certamente havia alguma diferença em relação a ela. Foi substituta, ficou com classes mais difíceis, em uma cidade pequena onde a normalista era uma figura social importante. Em sua releitura dos fatos aparecem sentimentos de inferioridade e indignação, mas, ao mesmo tempo, deixa aflorar a consciência de que trabalhava melhor do que outras “leigas” como ela. Os entrevistados recordam de Dona Nair como a única capaz de ensinar os alunos “fraquinhos”. Será que a identidade negada não esconde uma outra, “oculta” para ela mesma, que o pesquisador poderá desentranhar de suas memórias e de outros registros? Por que teria ela conservado o seu material pedagógico? Ao ousarmos compreender a sua experiência, encontraremos ali prazer, desafio, aventura, indignação, decepção e saudade.

Longas caminhadas, temporadas em casas “dos outros”, enfrentando situações embaraçosas, conflitos com fazendeiro que colocava o gado dentro da horta da escola, sensação e medo de ser substituída pela normalista ou pela protegida de alguém, foram parte da experiência “extra-classe”. As emoções, desafio e angustias são constitutivos da sua subjetividade. No relato das peripécias de seu trabalho deixava escapar: eu era professora. Uma identidade não explícita, mas possível aos olhos do pesquisador que ali vislumbra o fazer-se de um sujeito numa relação dialética com o seu meio.

A subjetividade aqui supera o isolamento e a ação individual se dá em interação com o meio social e com esquemas de lembranças coletivas. Halbwachs (1990, p.26) afirma que a memória coletiva contém uma função mnêmica passando a ser um fenômeno radical, pois relembrar é experiência social: as lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, não estamos sós, embora outros homens não estejam lá, distinguindo-se materialmente. Tem-se conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem.

O ato de rememorar pode ser um trabalho penoso. Em determinados momentos Dona Nair pára, está cansada, ora se aborrece com algumas lembranças. Como diz Bosi (1994, p. 9): “Pela memória, o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, desloca estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência”. Em sua volta ao passado, ela relata momentos de conflito internos e externos. Tais conflitos são também forjadores de identidade, como afirma Nóvoa (2000, p.16): “a identidade não é um dado adquirido, não é um produto(…) é um lugar de lutas e de conflitos, um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão”.

Narrar a própria vida é o meio mais lúcido que uma pessoa tem de lembrar, é a sua memória. E é nestas lembranças que o passado sobrevive e o sujeito se reconhece como tal. Uma pessoa que narra sua história e missão, com a clareza de Dona Nair, deve ter, mesmo sem nomear, a consciência do que fez e foi. Bérgson (1990) afirma que a memória pode ser compreendida na relação entre corpo e espírito situando-a numa zona de interseção entre eles, pois é através da percepção que o real penetra em nós para se constituir em lembranças. Ao narrar suas memórias, ela confirmava ou re-elaborava a própria identidade. Segundo Ricouer (1998), o simples fato de narrar já é uma experiência que se está perdendo, no sentido benjaminiano.

Dona Nair teceu os fios de sua história onde assumiu seu trabalho como missão, uma caracterização execrada no meio docente hoje. Disse não se considerar professora, mas soube definir com clareza seus objetivos: “apenas cumpria uma missão a mim confiada de ensinar e orientar as crianças para uma vida melhor de enfrentar as dificuldades do futuro” (Caderno de Memórias da atividade pedagógica 1945-1951). Quem cumpre a missão de educar é o quê? Talvez ela negasse o “modelo oficial de professora”. Não importam as razões. Cabe-nos, como disse Benjamin, capturando os “lampejos do passado”, redimir o sujeito de uma história condenada ao esquecimento, não por ele mesmo, mas pelos sujeitos da história que é preciso construir hoje.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Articular diferentes fontes – orais, escritas, visuais – e ainda mais, passado, presente e futuro não está livre de paradoxos e conflitos desde o momento que não é linear. A metodologia abriu possibilidades para a emersão do sujeito face às estruturas e sistemas. Dona Nair desvelou para nós “ouvintes” e “leitores”, reminiscências, seu cotidiano como professora rural e urbana. Sua formação de três meses na fazenda rural Gafanhoto revelou as políticas públicas e o processo educacional vivido por muitas professoras como ela.

Revelou também uma mulher do seu tempo, que gostava de música, de leituras e, que si não foi esposa nem mãe, assumiu outra função “feminina” para a época, tornou-se professora. A diferença é o relato da sua experiência que deixou marcas por onde viveu e nos possibilita, hoje, um olhar sobre a realidade atual do professorado desse período. A não identificação com a professora normalista, não lhe impediu de atuar com competência no ato de ensinar.

Esta experiência pedagógica de Dona Nair insere-se num projeto de Nação, cujas políticas públicas visavam à criação de uma identidade para o Brasil. A Secretaria de Educação de Minas Gerais em parceria com os municípios promoveu cursos para os professores não titulados ou “leigos”. A escola deveria contribuir com o aprendizado e com a Pátria. A professora estava encarregada de levar as “luzes do saber” aos lares mais pobres e humildes. Cabia-lhe despertar inteligências, cultivar vontades sadias e facilitar meios de aprendizagem como noções da nossa língua, abrindo assim caminhos àqueles que tivessem vontade de adquirir maiores conhecimentos.

Dona Nair assumiu a docência como uma missão, concebeu sua vida plasmada pela religião e pelos valores tradicionais da família e da sociedade dos meados do século. A história de vida recompõe a importância da professora “leiga” na formação de homens e mulheres de nossas cidades. A memória abre uma compreensão dialética do universo na medida em que a individualidade abriu espaço à coletividade numa recíproca interpenetração que permitiu a formação de sua identidade.

Do convencional uso de cartilhas até aulas práticas de culinária, horticultura ou primeiros socorros foi utilizado para alfabetizar os alunos. A língua pátria ganhava espaço em seus clubes de leitura, jornal, em suas histórias contadas, e em auditórios montados. As excursões tornavam-se grandes aventuras para aprender ciências, estudos sociais e, até mesmo, a importância das diferentes profissões. A comunidade era o lugar da ação educativa e se fazia mais presente através das festas religiosas e cívicas. Esse seu saber-fazer que nos incitou a querer conhecer de fato quem foi Dona Nair.

Sua expressão escrita, “não me considero professora”, soa desafiadora: o que é ser professor/a hoje? Ela conhecia o seu ofício e o executava, segundo uma missão assumida. O que faz o mestre de hoje? Atender a múltiplas exigências: preparar para o vestibular, treinar o aluno para diferentes formas de avaliação do sistema educacional, preparar para a vida e o mercado de trabalho, formar o cidadão, manter o aluno fora das ruas, ensinar-lhe boas maneiras e suportar estoicamente os desafios da droga e da violência, trabalhar com os fundamentos das ciências ou educar para a “fruição” da vida?
Quem somos nós? As imagens se fundem num emaranhado de teorias e especificações. Anda-se atordoado em busca de referenciais; de escola em escola, sem criar laços, mão de obra barata e rotativa, sob olhares vigilantes dos burocratas da legislação. Dona Nair não tinha titulação, mas sabia “ensinar” e assim era reconhecida, como tantas outras. Os bilhetes de agradecimento encontrados em seu arquivo se lembram da professora. O que acontece, hoje, com o professor que alcança a aposentadoria?

Dona Nair não forjou sua identidade nas lutas sindicais, mas na prática cotidiana de seu ofício. O “saber-fazer” significou mais do que ter o título ou ser sindicalizada dentro da categoria. Incomoda-nos, em sua experiência, o “saber-fazer” porque, mesmo negando, ela sabia que era professora. Faz-nos tomar consciência de que continuamos sujeitos e de que existem brechas e espaços de liberdade por onde ações competentes, planejadas, criativas e subversivas podem penetrar. Não se trata de repetir o passado, mas de retomar os sonhos primeiros e superar tecnicismos e missões a cumprir. Histórias de vida como as de Dona Nair nos permitem investigar e compreender as matrizes dos ideais, dos discursos e das práticas dos professores. O diálogo entre elas e a própria experiência é importante para ressignificar posturas, estabelecer novas metas, configurar significados e recuperar o encanto de educar.

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Três Corações/MG, junho de 2006.

MEMÓRIAS CURTAS

Joaquim Mota de Almeida

Inumeráveis foram as vezes em que me questionei sobre o porquê de minha mania de coletar coisas que para os outros são considerados velharias. Eu tinha nove anos e estava fazendo o primário na escola de Piranguinho. Ela localizava-se nas imediações da Estação e ficava próxima de um sobrado onde morava Dona Nicota Gomes e a sua filha Maria José Gomes. Dona Nicota era viúva do Sr. Leonino Gomes que fora comerciante havia muitos anos passados no andar térreo desse sobrado. Num determinado dia, ao sair da escola, vi na rua em frente a esse sobrado um amontoado de papéis e livros que pertenceram ao comércio do Sr. Leonino. Aproximei-me e percebi que aquele amontoado ali estava para ser queimado. Pedi, então, a Dona Nicota que me desses aqueles livros para guardá-los. Ela me respondeu que não, que era velharia e só ocupava lugar. Nesse instante, a sua filha Maria José perguntou-me para que queria aqueles livros. Simplesmente respondi que iria guardá-los; ela sorriu e me deu aquele amontoado todo. Vim buscar a carrocinha de mão em minha casa e pedi ao Zezinho Monteiro, que trabalhava para os meus pais, que me ajudasse trazer aquela papelada. Quando cheguei em casa com o carrinho abarrotado de papéis e livros velhos, minha mãe estrilou e não os deixou entrar. Meu avô, Joaquim Motta, que estava por perto, prontificou-se a buscar em sua fazenda uma canastra grande para que eu guardasse a papelada.

A outra vez em que levei bronca de minha mãe, por causa de papéis e livros velhos, foi em 1950. Para desocupar lugar, o Sr. Sebastião Pereira Machado, ex-Subdelegado de Polícia de Piranguinho entre 1930 e 1945, retirou de seu escritório os papéis e livros de Ocorrências Policiais para incinerá-los. Pedi-lhe, ele sorriu, perguntou-me se eu pretendia criar um museu e me deu o material. Meu avô, Joaquim Motta, arranjou-me outra canastra e guardei mais uma papelada. Não contendo os anseios por coisas do passado, passei a coletar e arquivar os livros borradores dos estabelecimentos comerciais que existiram em Piranguinho: livros de anotações de algumas fazendas da região, dezenas de anotações particulares e várias fotografias antigas.

O desejo de registrar os acontecimentos de Piranguinho foi despertado em mim quando, em 1957, as professoras da Escola Mista, Dona Maria José Caridade Carneiro e Dona Geraldina Carneiro (Dona Lili), me expuseram que a Escola completaria cinqüenta anos no dia 28 de outubro de 1959 e que elas gostariam de prestar homenagens à fundadora Almerinda Valente de Lima. O problema era que não tinham fotografia dela. Dona Lili havia conseguido uma foto da formatura da primeira turma de alunos da Escola, de 1912. A foto encontrava-se em mau estado de conservação, mas dava para ver os alunos formandos na frente e por detrás três adultos: duas mulheres e um homem. Essas mulheres certamente eram as professoras e uma delas seria a Dona Almerinda. Dona Maria disse-me que havia levado a foto para o fotógrafo Noronha, em Brazópolis, para que ele a ampliasse e a tornasse mais nítida, mas ele não dispunha de recursos para atendê-la. Dona Almerinda morreu em 1914 e não existia mais em Piranguinho alguém que a conhecera, mas seria muito significativa para a história da Escola a fotografia de sua fundadora. Fui, então, incumbido de descobrir quem era a Dona Almerinda e ampliar a sua foto.

Na ocasião eu tinha um cinema em Piranguinho e com freqüência ia a São Paulo para contratar os filmes. Numa dessas idas, levei a foto a uma firma especializada “Fototica”. Ela foi ampliada e projetada numa tela. Observei-a atentamente e saí de lá preocupado para meditar um pouco. A minha preocupação era de dar o veredicto final sobre as duas mulheres na foto e qual seria Dona Almerinda. Voltei novamente a observar a foto, pedi que a ampliasse mais, observei que uma das mulheres trajava um vestido comum de nossa região e os cabelos presos por trás em forma de peruca. A outra trajava um vestido com gola alta, usava brincos e tinha as sobrancelhas aparadas, e isso não era comum em nossa região. Outro detalhe que observei foi que esta última não estava olhando para a máquina fotográfica no instante da foto. Já sabia que Dona Almerinda era uma pessoa viajada e que, antes de ter vindo para Piranguinho, morara no Rio de Janeiro e, provavelmente, era acostumada ser fotografada. Decidi-me por essa última. Mandei ampliar a foto, retocá-la, emoldurá-la e a trouxe para Piranguinho. A partir daí tornou-se o retrato oficial daquela que foi uma grande benfeitora de nossa cidade.

Desde então passei a registrar os acontecidos de Piranguinho, coloquei em seqüência as velhas papeladas que eu havia guardado e continuei coletando ainda mais. Meu avô Joaquim Motta passou-me os livros borradores da antiga fazenda do Capote; meu tio Ildefonso Motta emprestou-me o retrato da primeira Igreja de Piranguinho; o tio Neco Motta deu-me o retrato da segunda igreja construída em 1906, e depois, muitos outros retratos dessa época. Entrevistei inúmeras pessoas de idade que sabiam alguma coisa sobre o início de Piranguinho e muitas delas me surpreenderam com objetos e fotos daquela época. Em 1960, mudei-me para São Paulo e estabeleci-me no comércio com uma mini-fábrica de rádios receptores, mas não deixei de levar comigo as papeladas antigas para transcrevê-las.

Em 1964 aconteceu a Revolução e com isso surgiram as greves, instabilidade comercial e falta de segurança. Esses acontecimentos obrigaram-me transferir a mini-fábrica de rádios para Brazópolis e, com a parceria da “Assumitel”, instalei-a num barracão de uma antiga máquina de beneficiar café do Sr. José Aniceto Gomes. O Sr. José Aniceto já idoso, mas lúcido, praticamente nos fazia companhia o dia todo na fábrica de rádios, com assuntos agradáveis. Vivia de rendas de sua fazenda e de seus imóveis urbanos em Brazópolis. Entendia de máquinas, era um hábil torneiro mecânico e gentilmente nos prestava seus serviços. Num determinado dia, contei-lhe que estava registrando os acontecimentos do início de Piranguinho. Ele sorriu e me perguntou se registrara sobre a represa do engenho de serra; respondi-lhe que registrara o que me haviam contado. Novamente ele sorriu e convidou-me para ir a sua casa à noite. Morava num sobrado datado de 1907, nas imediações da estação ferroviária e logo acima de onde estava instalada a fábrica de rádios. Em sua casa, ele mostrou-me inúmeras fotos da represa do engenho de serra, dos barracões de alojamentos dos trabalhadores, das madeiras sendo serradas, das pilhas de dormentes e da grande mata que circundava a represa. Disse-me que conheceu a represa do engenho desde o seu início em 1882, que ele e seu primo Henrique Braz iam todos os sábados e domingos passar o dia e andar de canoa na represa, que ele fora o primeiro da região a fazer uma canoa de alumínio para ficar leve de transportar até a represa do engenho. Falou que a represa era um lugar muito bonito, cercado por árvores, tinha muitos peixes que eles pescavam de canoa e ali mesmo assavam e comiam. Nos fins de semana e dias-santos muita gente de Brazópolis, de Itajubá e das roças ia passear na represa do engenho. Iam muitas moças bonitas, mas iam muitas que eram de “matar com pedras”. Nesse instante ele se calou e observei que se havia emocionado e estava chorando.

Na noite seguinte voltei a sua casa. Ele concluiu o assunto da noite anterior e depois me disse que o seu tio Chico Braz havia comprado as terras do engenho de serra com a concessão da produção de dormentes. Falou-me sobre a Baronesa Leocádia, que era solteirona, bonitona, fina, elegante e muito rica. Em tom de brincadeira ele disse que era moço de vinte e dois anos, mas se casaria com ela. Contou que no sábado de carnaval de 1889 havia bastante gente se divertindo na represa do engenho quando lá chegaram quatro homens da ferrovia e anunciaram que estava para ser construída uma nova estação no Engenho de Serra. Pediram que todos dessem sugestões para o nome dessa nova estação. Disse-me que nesse dia riu bastante ao ouvir quantas besteiras, quantos nomes bestas foram sugeridos, nomes de bichos e nomes que não representavam nada, e que era preferível continuar o nome Engenho de Serra. No dia seguinte, era o domingo de carnaval e a gentarada divertia-se na represa quando os mesmos homens da ferrovia apareceram e deram tiros pra cima para chamar a atenção de todos. Falaram através de campânula: “é coisa séria dar o nome para a nova estação porque depois não poderá ser mudado. Voltamos a pedir para vocês sugerirem esse nome naquela guarita azul ali ao lado.” Aí sim, o pessoal conversou, trocou idéia e surgiu o nome “Piranguinho”, que em tupi significa peixe pequeno: era o que tinha muito lá, e todo mundo aplaudiu. Disse-me que, em 1899, se associou com o tio Chico Braz para a construção e implantação de máquinas para beneficiar arroz e café em Piranguinho, que foi inaugurada em 1901.

Falou-me sobre Maximiana da Costa Manso, como era, porque o seu tio Chico Braz a mandou para Piranguinho e o que aconteceu depois. Contou-me que foi ele quem projetou e administrou a instalação de água encanada em Piranguinho em 1909 e a inaugurou em 1910. Que o seu tio Chico Braz colocou muitos dos seus primos em Piranguinho: colocou o Manoel Gomes da Rocha para zelar da água, Ursulino Gomes para cuidar do Cartório, João Gomes para zelar da limpeza, e outros mais. “Eu acho que tio Chico Braz só cometeu um grande erro: foi em 1913 quando ele passou as suas terras de aforamentos para serem administradas pelo Padre Herculano daqui de Brazópolis. Tio Chico Braz morreu em 1914 e esse Padre apossou-se de todas essas terras.” Continuou: “aqui não se chamava Brazópolis, chamava-se São Caetano da Vargem Grande”. Já era meia noite e meia do dia 4 de dezembro de 1964 quando me despedi do Sr. José Aniceto; abracei-o, agradeci-o muito e me retirei. Registrei tudo da forma como que me contou. Infelizmente, na década de 1970, um incêndio em sua casa destruiu seus pertences e todo seu acervo histórico sobre a região. O que o Sr. José Aniceto Gomes me contou sobre o início de Piranguinho abriu novos horizontes para os meus próprios registros.

As minhas conversas com os mais velhos permitiram-me não apenas recolher fatos que pude comprovar em arquivos como os da ferrovia, em Cristina, em cartórios e livros das paróquias de Piranguinho e Brazópolis, mas também outras histórias que, em minha saudade, imaginei serem interessantes apenas para mim. Instado pelos integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica, resolvi torná-los públicos agora, para serem utilizados por quem deles se interesse. Dos casos mais recentes, eu próprio fui testemunha ou participei. Às vezes as memórias parecem compor um anedotário, mas se referem a situações que “de fato” interferiram na vida e no sentimento do povo. Começo falando sobre assombrações que assustaram muitos dos antigos moradores dessa cidade, cujos descendentes ainda vivem e podem ou não comprovar o que narro.

Fantasmas são espíritos de pessoas mortas que se manifestam com seus antigos aspectos aos vivos. Comumente os fantasmas se manifestam nos locais de sua existência anterior. Muitos, por convicção, crêem e respeitam a presença e manifestações dos fantasmas. A idéia mais aceita é de que estas estranhas aparições de fantasmas se dão por algumas situações injustas não resolvidas quando em vida e que deveriam ser remediadas antes de partirem para o repouso definitivo. Assombração e fantasma são palavras de muitos significados, usadas em vários contextos. Suas conotações expressam admiração, abalo, medo, pavor e curiosidade que fascinam a todos. Portanto, os fantasmas e as assombrações, em termos metafísicos, ocupam o estágio entre a vida e a vida após a morte. Assim, os fantasmas manifestam um tipo de vida após a morte, proporcionando alívio para a aflição humana de, um dia, deixar de existir. Para aqueles que temem a morte, a visão de fantasmas serve de consolo já que prova a sobrevivência do espírito e, de certa forma, deixa aberta a possibilidade de uma futura dimensão da vida. Além de qualquer crença na sua existência sobrenatural, os fantasmas expressam em muito a natureza humana. Não abandonam as antigas lembranças e comportamentos, pois suas características mais importantes são as memórias. Os fantasmas são projeções temidas, porém desejadas, por expressarem a segunda chance que todos desejam.

Em Piranguinho foram registradas várias ocorrências de fantasmas. Na época do engenho de serra e do advento da ferrovia, entre 1882 e 1904, os trabalhos nos desaterros e aterros dos leitos das linhas eram feitos manualmente por muitos trabalhadores braçais e a terra era transportada em zorras puxadas por bois e cavalos. Devido ao grande número de trabalhadores, ocorriam muitos acidentes, às vezes fatais. A ferrovia mantinha uma farmácia com ambulatório nas imediações dos trabalhos para atendimento aos acidentados menos graves. Como não havia cemitério nessa região, os acidentados fatais eram sepultados nas imediações da projetada linha férrea. Durante muitos anos, as pessoas diziam ver fantasmas caminhando, em diferentes horas da noite, pela linha férrea, entre o pontilhão onde existia o engenho de serra até a ponte de ferro sobre o Rio Sapucaí. Em 1948, os moradores pediram ao padre de Brazópolis que encomendasse as almas daqueles infelizes para que eles tivessem paz. O padre atendeu aos pedidos e, seguido por uma multidão, simbolicamente transladou os restos mortais desses fantasmas de onde foram enterrados para o cemitério local. Desde então, afirmaram os moradores, os fantasmas desapareceram.

Ficou famoso o caso do “Fantasma da Baronesa”, ocorrido entre os anos 1907 e 1918. Nessa época, com freqüência, entre as 16:00 e 22:00 horas, o fantasma da “Baronesa” Leocádia de Lourenço era visto caminhando com a sua bengala pela linha férrea próximo ao engenho de serra e ali permanecia mesmo com o tráfego dos trens ou da presença de pessoas. Esse relato foi feito por várias pessoas idôneas, que testemunharam o fenômeno. Entre elas se encontram: Dona Júlia Cândida, Dona Negrinha esposa do Sr. José Pedro da Silva; Sr. Antonio Gomes e Sr. Francisco Corrêa. Dona Leocádia de Lourenço era proprietária dessas terras e tinha participação na produção do engenho de serra. Ela morava em sua fazenda dos Mourões, no município de Itajubá, e mandara construir uma barca no Rio Sapucaí para sua travessia. Com freqüência vinha passar o dia no engenho de serra para acompanhar a produção. Esse percurso entre sua fazenda e o engenho era feito a cavalo ou de liteira. Em 1888, ela vendeu essas terras juntamente com a concessão do engenho ao Coronel Francisco Braz Pereira Gomes e nessa ocasião fez construir uma ampla e requintada casa para sua residência na praça central em Itajubá. Em 1901, essa nova casa passou a ser sua residência permanente. Sua fazenda e suas terras eram administradas por um administrador de sua inteira confiança que lhe foi indicado pelo seu falecido pai Augusto Caetano de Lourenço. A “Baronesa” Leocádia, que era solteira, adoeceu em 1903 e fez o testamento deixando seus bens para serem divididos entre os negros que eram seus escravos e que permaneceram a seu serviço após 1888, sem exceção. Faleceu em março de 1905, em Itajubá, e não deixou família. Seu sepultamento se deu no cemitério daquela cidade. Seu desejo não foi cumprido; o testamento foi negado aos beneficiários e acabou sendo destruído pelo incêndio ocorrido no Fórum de Itajubá.

Esses fenômenos tornam-se oportunidades para investigarmos fatos passados. Alguns deles ocorrem ainda hoje. Desde há muito tempo ocorre um fenômeno interessante na Rua de Baixo (Gregório Motta) e na Rua da Ponte de Zinco (Paulo Carneiro). Esse fenômeno vem sido observado por muitos desde a década de 1920 e na atualidade já foi presenciado por muitos moradores dessas ruas. Em certas noites, ouvem-se tropéis de cavalos sem nada ser visto, geralmente após as 22 horas, mas já foi observado por muitos entre as 19 e 23 horas. Em outubro de 1982, tive a oportunidade de observar o fenômeno pela primeira vez às 22:30 aproximadamente. Eu estava em casa, um sobrado na Rua Gregório Motta, 32, e comigo estava meu empregado João da Silva (Pampinha). Estávamos conversando quando ouvimos persistentes tropéis de cavalos na rua em frente. Subimos para o andar de cima da casa e saímos à janela; nada víamos, mas continuávamos a ouvir os tropéis. João da Silva ficou receoso e afastou-se da janela; eu permaneci a observar. O som era semelhante ao de vários cavalos a galope que estariam a uns quarenta metros de minha casa. Pareciam estacionados naquele lugar, mas lentamente se deslocavam pela rua. Fiquei aguardando passarem em frente a minha casa. Tive receio, mas pude controlá-lo; nada vi além de ouvir os sons dos tropéis.

Já tinha ouvido muita gente falar desse fenômeno, inclusive meu pai, meu avô Joaquim Motta, tio Chico Almeida, Sebastião Machado e o antigo morador da Rua de Baixo, Miguel Januário, mas nenhum deles dissera como o fenômeno se apresentava. Nessa noite pude observá-lo e constatar a sua veracidade. Sempre julguei os comentários como frutos da imaginação ou superstições. O curioso desse fenômeno é que não se sabe quando ele se manifestará; acontece, quando menos se espera. Baseando-me na experiência possível, que se pode manifestar no tempo e no espaço através da intuição sensível e segundo as leis do entendimento, equipei-me com câmera fotográfica, filmes de infravermelho, gravador de som e fiquei na expectativa para fotografá-lo e gravar os sons dos tropéis. Procurei indagar dos atuais moradores da Rua Gregório Motta, se já tinham ouvido, à noite, algo estranho e semelhante nessa rua. Muitos disseram que não e poucos disseram que sim inclusive o Sr. José Simplício, morador nessa rua por mais de dez anos. Ele afirmou que por duas vezes esteve para se levantar a fim de afugentar uns cavalos que ficavam troteando em frente a sua casa. Perguntei-lhe porque não se levantou para ver o que era. Respondeu-me que era quase meia-noite e estava chovendo nas duas vezes, e quando ia se levantar, os cavalos saíram trotando rua abaixo.

Mais algum tempo se passou quando novamente ouvi os tropéis: foi num sábado após às 22 horas. Havia quermesse da festa de Santa Isabel e tinha bastante gente na praça. Em frente a minha casa morava o Comandante do Destacamento Policial de Piranguinho, Sargento Venturelli. Na janela, preparei a câmera fotográfica e o gravador de som. Os tropéis vieram se aproximando lentamente em minha direção; pus o gravador a gravar e iniciei a bater fotos com filme de infravermelho. Os tropéis passaram em frente e tomaram a esquerda em direção à atual Rua Paulo Carneiro. Logo em seguida, o Sargento Venturelli saiu na janela, viu-me e perguntou se eu sabia quem estava trotando nos cavalos aqui na frente. Respondi-lhe que no dia seguinte comentaria com ele. O filme foi revelado e nada registrou, mas os sons foram gravados.

Interessei-me pelo fenômeno e passei a investigar sua origem. Sem abordar o fato, entrevistei alguns moradores antigos de Piranguinho: Agostinho Honório, Luiz Ferreira e José Pinto de Oliveira (Barão). Perguntei-lhes se sabiam de algum acontecimento marcante do passado nas ruas de Baixo e na da Ponte de Zinco e que envolvesse cavalos. O Sr. Luiz Ferreira respondeu-me que ainda era um menino de onze anos, em 1918, quando aconteceu um acidente na Rua de Baixo no qual morreu o cavaleiro arrastado por cavalos. Existiam, em Piranguinho, desde há muito tempo, vários mercadores de cavalos e burros. Eles negociavam animais nos currais que existiam nas imediações da Estação Ferroviária. Um desses mercadores se chamava Manoel Augusto Siqueira, que morava próximo da ponte de zinco (onde atualmente se encontra o barracão da Prefeitura) e conduzia os animais presos uns aos outros por cabrestos de sua casa até aos currais na Estação. De lá, para sua casa, ele os conduzia da mesma forma. Trazendo-os de volta, numa noite de agosto de 1918, ao passar pela Rua de Baixo, os animais estouraram e saíram a galope pela rua abaixo. Ele ficou preso no cabresto do cavalo em que estava montado e foi arrastado e mutilado. Partes de seu corpo foram encontradas na Rua de Baixo e na Rua da Ponte de Zinco. Os pedaços foram recolhidos num saco e sepultados nessa mesma noite. Após ter ouvido o relato do Sr. Luiz Ferreira, perguntei-me: haveria relação entre o fenômeno dos tropéis de cavalos e esse acidente?

No final de setembro de 1991, às 21:30 aproximadamente, os tropéis foram novamente observados na Rua Gregório Motta. Nessa oportunidade, foi presenciado também pelos soldados militares Paulino da Silva Oliveira e José Luiz Dias dos Santos. Por saber do que se tratava, observei-o com mais naturalidade, mas os demais ficaram atônitos e em silêncio até que tudo acabasse. Logo em seguida, comentamos sobre o acontecido. Paulino e José Luiz Dias foram até a Rua Paulo Carneiro na expectativa de saberem aonde esses tropéis iriam, mas nada conseguiram.

Antes de abandonar lembranças que beiram o sobrenatural, quero registrar aqui dois casos muito comentados nos velhos tempos. O primeiro diz respeito à famosa pedra da Laje. Contavam que, em 1908, no local onde atualmente se localiza o Bairro Laje, havia um sítio de propriedade de Jorge Gonçalves da Silva, viúvo que morava com os filhos João e Lucas. O filho mais velho, Lucas, planejou matar o pai para se tornar dono absoluto do sítio. Para realizar seu intento, pegou uma espingarda carregada com chumbos grossos e, de madrugada, foi aguardar de tocaia sobre uma pedra a passagem de seu pai. Quando seu pai se aproximava conduzindo as vacas leiteiras, para garantir a pontaria do tiro, ajoelhou-se numa laje de pedra. No instante em que puxou o gatilho, seu joelho direito e os dedos do pé cravaram-se na pedra. O tiro não atingiu o pai, mas o atirador ali ficou inerte, agonizante até a morte. Desde então esse fenômeno passou a atrair visitantes curiosos, cientistas e religiosos. O fluxo de visitantes era tanto que os administradores do ramal ferroviário de Piranguinho a Paraisópolis fizeram construir, em 1916, um ponto de trem próximo ao local, que recebeu o nome de Parada Henrique Braz. Eu mesmo, quando na escola, participei de uma excursão organizada por Dona Maria José Caridade e pude colocar meu joelho e meu pé nas marcas famosas. A pedra da laje deixou de ser visitada quando, em 1958, foi soterrada pela construção da rodovia MG-295.

O segundo fato está relacionado a um misterioso profeta. No ano de 1919, veio passar temporada em Piranguinho um homem desconhecido na região que se apresentou como Sebastião Mello. Aqui permaneceu por mais de cinco anos e nesse período demonstrou ser um qualificado arquiteto e pintor de telas embora não exercesse mais essas atividades. Era pessoa culta e comunicativa, razão pela qual conquistou a amizade e a simpatia de muitos moradores. Seu português era clássico, sabia o francês e dominava o latim. Seus assuntos eram elucidativos e relacionados ao social, normas de vida e princípios religiosos que partiam do Alcorão. Seu assunto preferido era o futuro, por isso apelidaram-no de Profeta. Por fazer severas críticas às imposições do Papa Gregório XIII e à alteração do calendário ocorrido em 1582, acabou provocando também a antipatia dos muitos moradores e do pároco de Brazópolis. Suas previsões foram comprovadas com o passar dos tempos e as que mais marcaram foram: 1) no início da década de 1920 haveria escassez na agricultura devido à prolongada seca que assolaria todo o país; 2) nessa mesma década a maioria dos fazendeiros do país faliria com as suas lavouras; 3) aconteceria um levante revolucionário com a participação de todos os estados e esse levante mudaria o conceito do Brasil; 4) por questões políticas, Minas Gerais teria que se defender com luta armada; 5) antes da metade do século, aconteceria uma grande guerra que envolveria o mundo todo.

De suas previsões, a primeira aconteceu no ano de 1922, quando o Brasil sofreu a maior seca até então registrada na sua história, e houve escassez na agricultura. A segunda previsão aconteceu no ano de 1929 quando houve a crise do café devido à quebra da Bolsa de Nova York, e muitos fazendeiros do Brasil quebraram. A terceira aconteceu em outubro de 1930 com o movimento político-militar que derrubou o presidente Washington Luiz, levando ao poder Getúlio Vargas, e, radicalmente, o projeto sócio-econômico do Brasil foi modificado. A quarta aconteceu nos meses de julho a outubro de 1932, com a revolução constitucionalista, e Minas Gerais teve que travar luta armada para impedir a invasão dos paulistas em seu território. A quinta previsão, por fim, aconteceu nos anos de 1939 a 1945, com a segunda guerra mundial desencadeada na Europa, da qual o Brasil participou. Sobre esse personagem, Sebastião Mello, ninguém soube dizer de onde era, de onde veio e nem para onde foi. Soube-se que era uma pessoa de relativa posse financeira, por ficar hospedado na Pensão de Dona Maria Cândida durante todo esse tempo, pagando pontualmente sua hospedagem.

Desses casos todos, quero destacar a insistência da “Baronesa” em continuar visitando os lugares em que viveu. Ela me faz pensar no papel das mulheres na construção de nossa cidade. Poderia falar de Dona Almerinda e de tantas outras, mas recordo aqui o que meu avô falava daquela mulher forte que quase caiu no esquecimento total. Não nos esqueçamos que, além de mulher – o que já não conta muito para os livros de história –, era negra. Segundo o meu avô, Joaquim Pereira Motta Sobrinho, quando, em 1901, Maximiana da Costa Manso liderou a construção de pau-a-pique da primeira igreja católica em Piranguinho, ela poderia tê-la construída pomposamente de tijolos e coberta com telhas, pois dispunha do apoio do Coronel Francisco Braz Pereira Gomes para fazer o que fosse preciso no arraial. Mas Maximiana determinou que fossem os próprios negros, ex-escravos, que construíssem sua igreja, pois assim se sentiriam orgulhosos de realizar uma obra para eles mesmos. Não nos esqueçamos que a imagem de São Benedito para essa igreja foi esculpida em madeira também por um descendente de escravo chamado Candinho Siqueira da Cruz.

Alguns outros personagens foram responsáveis pela formação de certos costumes em nossa cidade, pelo menos durante algum tempo. No início de 1900, mudou-se cá, vindo de São Bento do Sapucaí, Daniel José Pedro (Danielzinho) com sua família. Ele era fogueteiro e estabeleceu-se no comércio com uma mini-indústria de fogos de artifícios. Diariamente, ele fazia estourar alguns de seus fogos para testá-lo e assim os moradores contraíram a mania de soltar foguetes por quaisquer motivos. Soltavam foguetes quando começava a construção de uma casa e soltavam também quando a terminava. Soltavam foguetes em aniversários, nos casamentos e nos batizados. Soltavam foguetes nas festas religiosas, nas procissões e nos dias santos. Soltavam foguetes nas competições esportivas e soltavam também quando Piranguinho recebia visitas ilustres: era um constante e desvairado foguetório. Os novos moradores, que para cá se mudaram em 1922, profundamente irritados, solicitaram intervenção policial para que se diminuísse o entusiasmo dos fogueteiros. Para atender a solicitação foi destacado para cá, em 1923, um Cabo da Polícia Militar, chamado Gervásio Medeiros. O cabo tentou coibir o uso de foguetes, mas a proibição não foi acatada e aumentou ainda mais o foguetório. Cabo Gervásio ficou no Distrito apenas uma semana e, ao partir, foguetes estouraram por cima do trem como despedida.

A mania de foguetes continuou até quando foi deflagrada a revolução de 1930 e o Exército proibiu terminantemente quaisquer estouros. Danielzinho fogueteiro morreu em 1944 e deixou a mini-indústria para o filho José Benedito da Silva (José Daniel) e a nora Emiliana Maria da Silva. José Daniel, que se tornou sacristão da paróquia, continuou com o ofício do pai juntamente com sua esposa e os filhos Luiz Floriano, Lamaneres (Nésio), Isabel e Vanda da Silva. A mini-indústria foi extinta na segunda metade da década de 1950.

As duas Revoluções, no início dos anos 1930, misturam-se na cabeça dos mais velhos. A proximidade de São Paulo e a presença de soldados aqui trouxeram medo à população, mas também provocaram fatos que durante muito tempo fizeram parte da memória do povo. O Exército havia colocado sua tropa dentro de Piranguinho e conta-se que, um dia, ocorreu uma confusão danada. Na madrugada de 22 de agosto, alguém fez uma brincadeira de mau gosto para assustar os soldados. Uma bateria de bombas estourou no pontilhão da estrada de ferro, próximo ao atual Marco Zero. Ao investigar o fato, um grupo de soldados pensou que a tropa paulista estava atacando e disparou contra outro grupo. Estava escuro e, no tiroteio, três soldados da mesma tropa foram mortos. Somente muito tempo depois se ouviu dizer que fora o Ernesto da Maria Caetana quem havia estourado as bombas no pontilhão.

Uma outra história aparece no JORNAL DE PIRANGUINHO (Órgão Oficial da Intendência Municipal) com a data de 1º de Maio de 1963 – número 9, impresso na última página do Jornal BRAZOPOLIS (Órgão Oficial dos Poderes Municipais) de 12 de maio de 1963, número 2.004. Alguém recorda ali: “Voltou-nos à memória, então, o dia histórico em que Piranguinho foi palco de um combate militar. Foi em 1930, num dia do outubro fatídico. Em nossa cidade de Piranguinho havia alguns voluntários armados de revólveres e de espingardas de caça. Foi quando surgiu do outro lado da ponte da Rede, um trem militar, conduzindo soldados do Exército. Dali há (sic) pouco retumbava um tiroteio medonho. O Sr. Garrido, construtor da Igreja, estava trabalhando pacificamente, trepado no último andaime. Ao ouvir assoviar, sinistramente, as primeiras balas, não teve tempo de procurar um refúgio melhor, deitou-se aí mesmo no andaime, protegido pela grossura dos muros e esperou acabar o tiroteio. Não durou muito. No final, a Igreja tinha tomado algumas balas que riscaram seus tijolos, sem causar dano de monta.”

A ferrovia e seus trens também deixaram histórias. Em 1902, ocorreu o descarrilamento da locomotiva de número 98 no Km 105, nas imediações da fazenda do Capote. O aterro do leito da linha férrea cedeu e a locomotiva caiu numa lagoa próxima. Todos os esforços das pessoas que estavam por perto e dos trabalhadores da fazenda para evitar que ela afundasse foram inúteis; o fundo da lagoa era de argila e areia movediça. Os técnicos da ferrovia tentaram recuperá-la, mas decidiram abandona-la e lá ela permanece até então. Segundo os depoimentos das pessoas que colaboraram fornecendo laços e cabrestos para amarrar a locomotiva à espera do socorro da Ferrovia, esta lagoa encontra-se na direção reta da casa da fazenda do Capote ao Rio Sapucaí. Depois desse incidente, os encarregados da ferrovia alteraram o curso da linha férrea instalando-a próximo à Capela do Capote.

Outro caso de descarrilamento proporcionou uma boa história de suspense e mistério, um enredo a ser apresentado em quatro atos. Conforme relatos dos antigos moradores, na noite de 02 de agosto de 1902, nas imediações do quilômetro 101 da ferrovia entre Piranguinho e Pimenteiras, um trem que transportava valores da Companhia Inglesa Seleers, empreiteira da construção da ferrovia nesse trecho do Sul de Minas, descarrilou. Os valores destinavam-se aos pagamentos de seus empregados e das desapropriações das terras no curso da linha férrea. Nessa noite chovia torrencialmente e, por força das circunstâncias, o trem aí teve que pernoitar. Sem que os encarregados do transporte percebessem, esses valores que estavam acondicionados em quatro malas de couro foram furtados. O Comando Policial Militar de Três Corações foi acionado e intensas buscas foram realizadas nos leitos dos rios, lagoas, matas e nada foi encontrado. Permaneceu na região por mais de vinte dias, vistoriou todas as casas, tulhas, cisternas, fossas, quintais, plantações, e interrogou a população. O registro policial cita que os valores contidos nessas malas eram em libras esterlinas e pesavam aproximadamente oitenta e seis quilos. Pelo peso e o formato das malas seria necessário quatro pessoas no mínimo para transportá-las. A ocorrência foi arquivada.

Anos depois, em meados de 1942, muitos moradores das imediações do quilometro 101 afirmaram ter encontrado um homem desconhecido na região, alto, loiro, aparentando sessenta anos, de pouca prosa e de palavreado estrangeiro. Outros tantos moradores afirmavam terem visto esse mesmo homem rondando as Santas Cruzes existentes nas imediações. As pessoas que conversaram com o desconhecido relataram que ele lhes mostrara algumas moedas parecidas ser de ouro e lhes perguntara se conheciam dessas moedas. Os relatos causaram muitos comentários associando esse desconhecido ao furto do trem no quilômetro 101. Depois desses comentários, o desconhecido não mais foi visto na região.

No final de setembro de 1945, Oscar Bibiano da Cruz, morador de Piranguinho, casado, pedreiro e conhecido na região, afirmou ter sido contratado por um senhor idoso, loiro e estrangeiro para lhe prestar um serviço extra após a hora de seu trabalho. Na noitinha de 29 de setembro, ele acompanhou esse senhor para lhe prestar o tal serviço que ele nunca especificou. Ao chegarem ao lugar determinado, apercebeu-se de que se tratava de algo que estava enterrado. Já estava escuro e ele só dispunha no momento de um lápis e um pedaço de papel de saco de cimento; fez então o esboço do local e retornou para sua casa. No dia seguinte, à noite, no armazém de Maurício Gomes da Rocha, ele comentou o fato com amigos e lhes mostrou o esboço que havia feito. O fato espalhou-se como sendo o mapa do esconderijo dos valores roubados do trem no quilômetro 101. No dia primeiro de outubro aconteceriam as eleições para Presidente da República entre os candidatos Eurico Gaspar Dutra e Brigadeiro Eduardo Gomes. Quando Oscar Bibiano, eleitor em Brazópolis, viajou para lá, sua casa foi arrombada e o esboço que fizera do suposto escondido, desapareceu. A ocorrência foi registrada na Delegacia de Polícia, na presença do Subdelegado Sebastião Pereira Machado. Aconteceu que Oscar Bibiano teve morte súbita e suspeita, diagnosticada como causada por intoxicação alimentar, logo no início de outubro. Seis meses depois, o esboço reapareceu em mãos de alguém e foi apreendido pelo então Subdelegado de Polícia João Carvalho de Castro (João Soldado). Acabou sendo arquivado juntamente com a ocorrência do arrombamento da casa do falecido. Nessa ocasião, os moradores de Piranguinho iam até a Delegacia para ver e conhecer o tão comentado esboço do esconderijo.

Em 1958, eu, João Aparício e Harley de Almeida nos propusemos decifrar o tal esboço. Consideramos que ele fora feito à noite, com pouca luminosidade e quem o esboçara era pedreiro e dispunha de um pedaço de papel de saco de cimento e lápis do tipo carpinteiro. Certamente não necessitaria de maiores detalhes por ser ele mesmo que iria desenterrar o que estava ali escondido. Partindo-se dessa hipótese, admitimos que um dos desenhos desse esboço fosse de uma Santa Cruz no alto de uma estrada. O outro desenho com o escrito “oliu” certamente seria uma árvore de Óleo Pardo comum nessa região. O desenho com o escrito “Per” poderia ser uma árvore Pereira. O desenho com uma seta apontando para um círculo ligado a um outro círculo menor, provavelmente seria uma pedra maior próxima a uma outra pedra menor demarcando o local do esconderijo. Na época desse acontecimento, existiam várias Santas Cruzes nas imediações de Piranguinho. A mais próxima delas localizava-se no início da estrada para a fazenda dos Neves; uma outra encontrava-se no fim da reta da estrada de ferro, próxima do sítio do Sr. José Pedro; outra localizava-se na estrada para a fazenda dos Rennós; outra na estrada para o Capote; outra no início da estrada para Itajubá e outras duas se encontravam na estrada para o Mato Dentro.

Consideramos que estas Santas Cruzes, construídas desde antes de 1900, sempre nas margens das estradas e nos pontos mais altos para serem avistadas de todos os lados, eram locais apropriados para se esconder o “tesouro”. Seus terrenos, medindo quatro braças de frente por sete braças de fundo, cercados com arame farpado, eram considerados sagrados e neles se sepultavam os defuntos das fazendas próximas. Apesar de nossas brilhantes deduções e de intrincados esforços, não conseguimos identificar o local. Os valores roubados nunca foram encontrados, mas não descarto a possibilidade de continuarem escondidos nalgum lugar nessa região.

Pensando no passado, não resisto à tentação de fazer uma comparação com o presente. A atual população piranguinhense desfruta dos avanços tecnológicos conquistados nos últimos trinta anos, mas muitos já se esqueceram como era difícil a vida nos velhos tempos. De 1910 a meados da década de setenta, havia um único telefone em Piranguinho. Ele era público, acionado por manivela e dependia de telefonista para fazer as ligações. A central telefônica ficava em Itajubá e de lá partia uma única linha que interligava Piranguinho, São José do Alegre e Pedralva, de forma que, quando uma dessas localidades estava utilizando o telefone, as demais tinham que aguardar. Uma ligação telefônica de Piranguinho para outra localidade próxima demorava de uma a duas horas. Ligações telefônicas para lugares distantes eram mais demoradas e apresentavam ruídos interferentes que dificultavam as comunicações.

A energia elétrica, que abastecia a localidade desde 1910 até meados da década de sessenta, era fornecida pela Companhia Sul Mineira de Eletricidade de Itajubá, e a usina geradora era a de São Bernardo, nas imediações de Piranguçu. Havia um único e insuficiente transformador distribuidor de energia elétrica para o abastecimento de toda Piranguinho, de forma que, durante o dia, quando se ligavam os motores das máquinas beneficiadoras de arroz, o abastecimento elétrico residencial era insuficiente para fazer funcionar um rádio-receptor. Aos domingos e feriados, o fornecimento elétrico era interrompido entre 6 e 13 horas, a fim de racionar a água da represa que acionava a usina geradora. Nenhuma residência possuía geladeira ou chuveiro elétrico. Os fogões eram à lenha e muitos deles eram adaptados com serpentinas para aquecimento central de água, a fim de abastecer chuveiros e banheiros. O abastecimento de água encanada existia desde 1910. Era municipal e tornou-se insuficiente a partir da década de cinqüenta, em virtude do crescimento populacional e do aumento de consumo. Para contornar a escassez de água, a maioria das casas possuía cisternas.

Na década de cinqüenta, já em minha juventude, recordo os entretenimentos noturnos da moçada: ver os trens de passageiros na estação, reunir-se no jardim da praça para conversar e ouvir músicas pelo alto-falante do cinema, ouvir rádio-novela ou ler livros. Havia um cine-teatro, onde eram exibidos filmes nas quartas-feiras, sábados e domingos, se não faltasse energia elétrica. Muitos jovens trabalhavam durante o dia e outros tantos cursavam o ginasial em Itajubá e em Brazópolis. Eles iam para os estudos nos trens da madrugada e voltavam nos trens da tarde ou da noite.

O primeiro receptor de televisão foi implantado no final da década. Era novidade e muita gente vinha conhecê-lo. Na época, só existiam duas emissoras de televisão no Brasil: TV Tupi de São Paulo e TV Rio do Rio de Janeiro. As transmissões eram de meio período por dia e em preto e branco. A TV Tupi era a única que alcançava Piranguinho e, para captá-la, foi necessária a implantação de antenas especiais no pico dos Dias e antena rômbica no receptor. Mesmo assim, a recepção era instável em dias normais; quando chovia, ventava ou relampejava, o sistema apresentava pane e o sinal era interrompido.

O assunto predominante da rapaziada era o presidente ambicioso que governava o Brasil, cujo slogan era realizar em cinco anos o que não foi realizado em 50. O seu governo estava realizando obras faraônicas, mas também estava contraindo dívidas faraônicas; até mesmo havia lançado mão dos recursos do INPS. Numa época em que o Brasil era carente de estrutura básica para seu crescimento industrial, carente de energia elétrica, de meios de comunicação, de educação e de assistência à saúde, o governo, sem abalizar as conseqüências, estava construindo Brasília num lugar onde não havia estrada, água, nem energia elétrica. Os materiais eram transportados por aviões sem considerar os altos custos; ainda mais, ele havia abandonado as necessárias conservações do sistema ferroviário do país. Seu governo durou até 31 de janeiro de 1961 e os que o sucederam enfrentaram altas dívidas, inflação galopante e o povo descontente.

Nessa época eu já conversava muito com os mais velhos e recolhia a papelada velha que hoje compõe o meu arquivo pessoal. Sem muita formação histórica, sentia que uma cidade é formada por seu povo e suas memórias. Por isso, encerro estas lembranças com um pouco de nostalgia, na esperança de que o conhecimento do passado ainda seja útil para a formação das pessoas.

Ai que saudades das festas de outrora em Piranguinho! Havia festas de São Sebastião, de Nossa Senhora Aparecida e de Santa Isabel. Havia as barracas da festa e cada uma delas tinha seu nome e sua cor. As moças e rapazes que trabalhavam nessas barracas eram uniformizados com suas cores. Havia concursos de bonecas e as candidatas eram selecionadas entre as meninas mais comunicativas e engraçadinhas de Piranguinho. A Igreja era decorada com flores e outras tantas ornamentações pelas moças e senhoras da Liga Católica: Inácia Pedroso, Nicota Carneiro, Fia Moreira, Isabel Colorado Motta, Júlia Vilas Boas, Nicota Gomes, Maria José Gomes, Nuria de Almeida, Zizica de Almeida, Ciloca Machado, Terezinha Antunes e Samaritana Antunes.

Essas festas eram realizadas nos primeiros domingos do mês e nove dias de antecedência havia novenas a noite com rezas de terços pelo “Sô Danielzinho”. Durante a novena, as barracas da festa, montadas ao lado da Igreja, funcionavam e a praça ficava animada com muita gente. Nós, garotada, brincávamos no jardim e balançávamos nas barquinhas dos parques de diversões que aqui se instalavam nessas ocasiões. No domingo da festa, a gente já acordava no raiar do dia com som da banda de música fazendo alvorada. A gente levantava cedinho, vestia roupa nova, calçava sapatos também novinhos e saía para ver a banda de música e as barraquinhas que se instalavam na praça. Encontrava os colegas de escola e, juntos, visitávamos todas as barraquinhas. Iniciávamos pela que vendia brinquedos, ioiôs, bilboquês, joguinhos, quebra-cabeças e relógios-fantasias de pulso. Era grande a variedade de produtos que essas barraquinhas vendiam, nelas se encontravam artigos religiosos, material de costura, adornos femininos, perfumes, bijuterias, chapéus, meias, relógios, ferramentas de carpintarias e agrícolas. Havia barraquinhas de pastéis feitos na hora, de jogos de roletas, de jogos de dados, de fura-fura e de sorteios.

A cerimônia religiosa iniciava às 8 horas com celebração da Missa pelo Padre Joaquim de Oliveira Noronha (Quinzinho). Às 10 horas iniciava-se o leilão no coreto todo enfeitado com bandeirolas coloridas e cartuchos com quitandinhas e doces. Os leiloeiros eram os senhores Alípio da Silva e Benedito da Silva (Sô Garcia). Os assados de leitoas e frangos eram os primeiros a serem leiloados; depois eram as roscas, pães folhados com chocolate, cartuchos e prendas. O desenrolar do leilão era abrilhantado pelo som da banda de música. Os leilões de gado e cabritos realizavam-se às 14 horas nos mangueiros cedidos por Joaquim Pereira Motta Sobrinho e Sebastião Pereira Machado. Às 15:30 horas realizava-se a procissão dos fiéis conduzindo os andores pelas ruas centrais; o andor de São Benedito ia na frente da procissão, em seguida era o de Menino Jesus, por último era o do santo festeiro e no fim da procissão ia a banda de música. O que nós, garotada, gostávamos mesmo era de acompanhar o “Sô” Danielzinho bem na frente da procissão, soltando os seus foguetes de vara. O encerramento da festa se dava com queima de fogos pirotécnicos e a banda de música tocando o dobrado “Até outra vez”.

Pensando bem, é difícil acreditar que tudo mudou e que estejamos vivos até hoje! Nos últimos anos houve uma desmedida explosão de inovações, e tendências… As mercadorias dos armazéns e os remédios não tinham lacres especiais de segurança e nem data de validade, e ninguém morreu por isso! A gente bebia água de chuva, de poço, da torneira e tinha boa saúde! Nossos intestinos nunca se encheram de bichos estranhos… No máximo, a gente tomava purgante contra vermes e fortificava com óleo de fígado de bacalhau! Se a gente gripasse, se curava com chás de alho e alguns comprimidos… Os vírus não eram tão contaminadores e resistentes! A gente construía os brinquedos e se divertia com eles!

Na escola, a gente tinha que saber a tabuada de cor e salteada, resolver as quatro operações fundamentais sem calculadora! As professoras eram dedicadas e exigentes, não davam moleza… Castigavam se fosse necessário e não eram recriminadas por isso! A gente saía de casa e brincava o dia todo, nossos pais nem sempre sabiam onde estávamos, mas tinham a certeza de que não estávamos usando drogas!

A gente comia muitas frutas do mato, brincava na poeira e nas palhas do arroz, tomava chuva e pisava na lama… Mas ninguém ficava doente e nem contraía alergia… Nem se falava em alergia!A gente dividia uma garrafa de guaraná entre dois ou três colegas; bebíamos no próprio bico e sem gelo… Ninguém se contaminava com isso! A gente nadava no rio e bebia de sua água… Eles não eram poluídos pelos esgotos… Nem se conhecia micose! Nossas iniciativas eram “nossas”, mas as conseqüências também, e ninguém se escondia atrás do outro! Nossos pais nos colocavam de castigo e nos batiam se desobedecêssemos às regras… Mas nenhum deles era preso por isso! A gente sabia e obedecia; quando nossos pais diziam “Não” era “Não” mesmo!

A gente ganhava brinquedos no Natal e no aniversário, e não todas as vezes que queríamos… Nossos pais nos davam presentes por amor e não por dever! Não existia gravador de fitas, não tinha televisão, nem videocassete, nem computador, nem Internet… Tínhamos bons amigos e bons livros! A gente ia à casa dos amigos, entrava e conversava… sozinhos num mundo sem medo e sem maldade! A gente levantava cedinho para ver e ouvir a passarada cantar na praça… Não existia o mata-mato que envenena as sementeiras que a passarinhada come!

A gente ficava nas beiras das matinhas para ver os coelhos do mato transitarem e brincarem… Não envenenavam as matinhas e nem as queimavam! Aos 17 e 19 anos, a gente procurava o primeiro contato sexual em uma zona de meretrício, e sem camisinha… Ninguém se contaminava com doenças sexuais… AIDS não existia! A gente namorava, mas era somente namorar! A gente ia a casamentos, mas com a certeza que o primeiro filho daquele casal só nasceria depois de nove meses! A mãe da gente era “Mãe” mesmo… Não agredia a gente no seu útero com ultra-som para saber o nosso sexo!

A gente veio de uma geração que produziu inventores, artistas, amantes da música, das artes e da cultura. Tínhamos liberdade, sucesso, algumas vezes problemas e desilusões, mas tínhamos responsabilidade e sabíamos resolver tudo isso… sozinhos. Se você também é um destes sobreviventes… Parabéns! Você curtiu os anos mais felizes da sua vida.

MEMÓRIAS CURTAS

Joaquim Mota de Almeida

Inumeráveis foram as vezes em que me questionei sobre o porquê de minha mania de coletar coisas que para os outros são considerados velharias. Eu tinha nove anos e estava fazendo o primário na escola de Piranguinho. Ela localizava-se nas imediações da Estação e ficava próxima de um sobrado onde morava Dona Nicota Gomes e a sua filha Maria José Gomes. Dona Nicota era viúva do Sr. Leonino Gomes que fora comerciante havia muitos anos passados no andar térreo desse sobrado. Num determinado dia, ao sair da escola, vi na rua em frente a esse sobrado um amontoado de papéis e livros que pertenceram ao comércio do Sr. Leonino. Aproximei-me e percebi que aquele amontoado ali estava para ser queimado. Pedi, então, a Dona Nicota que me desses aqueles livros para guardá-los. Ela me respondeu que não, que era velharia e só ocupava lugar. Nesse instante, a sua filha Maria José perguntou-me para que queria aqueles livros. Simplesmente respondi que iria guardá-los; ela sorriu e me deu aquele amontoado todo. Vim buscar a carrocinha de mão em minha casa e pedi ao Zezinho Monteiro, que trabalhava para os meus pais, que me ajudasse trazer aquela papelada. Quando cheguei em casa com o carrinho abarrotado de papéis e livros velhos, minha mãe estrilou e não os deixou entrar. Meu avô, Joaquim Motta, que estava por perto, prontificou-se a buscar em sua fazenda uma canastra grande para que eu guardasse a papelada.

A outra vez em que levei bronca de minha mãe, por causa de papéis e livros velhos, foi em 1950. Para desocupar lugar, o Sr. Sebastião Pereira Machado, ex-Subdelegado de Polícia de Piranguinho entre 1930 e 1945, retirou de seu escritório os papéis e livros de Ocorrências Policiais para incinerá-los. Pedi-lhe, ele sorriu, perguntou-me se eu pretendia criar um museu e me deu o material. Meu avô, Joaquim Motta, arranjou-me outra canastra e guardei mais uma papelada. Não contendo os anseios por coisas do passado, passei a coletar e arquivar os livros borradores dos estabelecimentos comerciais que existiram em Piranguinho: livros de anotações de algumas fazendas da região, dezenas de anotações particulares e várias fotografias antigas.

O desejo de registrar os acontecimentos de Piranguinho foi despertado em mim quando, em 1957, as professoras da Escola Mista, Dona Maria José Caridade Carneiro e Dona Geraldina Carneiro (Dona Lili), me expuseram que a Escola completaria cinqüenta anos no dia 28 de outubro de 1959 e que elas gostariam de prestar homenagens à fundadora Almerinda Valente de Lima. O problema era que não tinham fotografia dela. Dona Lili havia conseguido uma foto da formatura da primeira turma de alunos da Escola, de 1912. A foto encontrava-se em mau estado de conservação, mas dava para ver os alunos formandos na frente e por detrás três adultos: duas mulheres e um homem. Essas mulheres certamente eram as professoras e uma delas seria a Dona Almerinda. Dona Maria disse-me que havia levado a foto para o fotógrafo Noronha, em Brazópolis, para que ele a ampliasse e a tornasse mais nítida, mas ele não dispunha de recursos para atendê-la. Dona Almerinda morreu em 1914 e não existia mais em Piranguinho alguém que a conhecera, mas seria muito significativa para a história da Escola a fotografia de sua fundadora. Fui, então, incumbido de descobrir quem era a Dona Almerinda e ampliar a sua foto.

Na ocasião eu tinha um cinema em Piranguinho e com freqüência ia a São Paulo para contratar os filmes. Numa dessas idas, levei a foto a uma firma especializada “Fototica”. Ela foi ampliada e projetada numa tela. Observei-a atentamente e saí de lá preocupado para meditar um pouco. A minha preocupação era de dar o veredicto final sobre as duas mulheres na foto e qual seria Dona Almerinda. Voltei novamente a observar a foto, pedi que a ampliasse mais, observei que uma das mulheres trajava um vestido comum de nossa região e os cabelos presos por trás em forma de peruca. A outra trajava um vestido com gola alta, usava brincos e tinha as sobrancelhas aparadas, e isso não era comum em nossa região. Outro detalhe que observei foi que esta última não estava olhando para a máquina fotográfica no instante da foto. Já sabia que Dona Almerinda era uma pessoa viajada e que, antes de ter vindo para Piranguinho, morara no Rio de Janeiro e, provavelmente, era acostumada ser fotografada. Decidi-me por essa última. Mandei ampliar a foto, retocá-la, emoldurá-la e a trouxe para Piranguinho. A partir daí tornou-se o retrato oficial daquela que foi uma grande benfeitora de nossa cidade.

Desde então passei a registrar os acontecidos de Piranguinho, coloquei em seqüência as velhas papeladas que eu havia guardado e continuei coletando ainda mais. Meu avô Joaquim Motta passou-me os livros borradores da antiga fazenda do Capote; meu tio Ildefonso Motta emprestou-me o retrato da primeira Igreja de Piranguinho; o tio Neco Motta deu-me o retrato da segunda igreja construída em 1906, e depois, muitos outros retratos dessa época. Entrevistei inúmeras pessoas de idade que sabiam alguma coisa sobre o início de Piranguinho e muitas delas me surpreenderam com objetos e fotos daquela época. Em 1960, mudei-me para São Paulo e estabeleci-me no comércio com uma mini-fábrica de rádios receptores, mas não deixei de levar comigo as papeladas antigas para transcrevê-las.

Em 1964 aconteceu a Revolução e com isso surgiram as greves, instabilidade comercial e falta de segurança. Esses acontecimentos obrigaram-me transferir a mini-fábrica de rádios para Brazópolis e, com a parceria da “Assumitel”, instalei-a num barracão de uma antiga máquina de beneficiar café do Sr. José Aniceto Gomes. O Sr. José Aniceto já idoso, mas lúcido, praticamente nos fazia companhia o dia todo na fábrica de rádios, com assuntos agradáveis. Vivia de rendas de sua fazenda e de seus imóveis urbanos em Brazópolis. Entendia de máquinas, era um hábil torneiro mecânico e gentilmente nos prestava seus serviços. Num determinado dia, contei-lhe que estava registrando os acontecimentos do início de Piranguinho. Ele sorriu e me perguntou se registrara sobre a represa do engenho de serra; respondi-lhe que registrara o que me haviam contado. Novamente ele sorriu e convidou-me para ir a sua casa à noite. Morava num sobrado datado de 1907, nas imediações da estação ferroviária e logo acima de onde estava instalada a fábrica de rádios. Em sua casa, ele mostrou-me inúmeras fotos da represa do engenho de serra, dos barracões de alojamentos dos trabalhadores, das madeiras sendo serradas, das pilhas de dormentes e da grande mata que circundava a represa. Disse-me que conheceu a represa do engenho desde o seu início em 1882, que ele e seu primo Henrique Braz iam todos os sábados e domingos passar o dia e andar de canoa na represa, que ele fora o primeiro da região a fazer uma canoa de alumínio para ficar leve de transportar até a represa do engenho. Falou que a represa era um lugar muito bonito, cercado por árvores, tinha muitos peixes que eles pescavam de canoa e ali mesmo assavam e comiam. Nos fins de semana e dias-santos muita gente de Brazópolis, de Itajubá e das roças ia passear na represa do engenho. Iam muitas moças bonitas, mas iam muitas que eram de “matar com pedras”. Nesse instante ele se calou e observei que se havia emocionado e estava chorando.

Na noite seguinte voltei a sua casa. Ele concluiu o assunto da noite anterior e depois me disse que o seu tio Chico Braz havia comprado as terras do engenho de serra com a concessão da produção de dormentes. Falou-me sobre a Baronesa Leocádia, que era solteirona, bonitona, fina, elegante e muito rica. Em tom de brincadeira ele disse que era moço de vinte e dois anos, mas se casaria com ela. Contou que no sábado de carnaval de 1889 havia bastante gente se divertindo na represa do engenho quando lá chegaram quatro homens da ferrovia e anunciaram que estava para ser construída uma nova estação no Engenho de Serra. Pediram que todos dessem sugestões para o nome dessa nova estação. Disse-me que nesse dia riu bastante ao ouvir quantas besteiras, quantos nomes bestas foram sugeridos, nomes de bichos e nomes que não representavam nada, e que era preferível continuar o nome Engenho de Serra. No dia seguinte, era o domingo de carnaval e a gentarada divertia-se na represa quando os mesmos homens da ferrovia apareceram e deram tiros pra cima para chamar a atenção de todos. Falaram através de campânula: “é coisa séria dar o nome para a nova estação porque depois não poderá ser mudado. Voltamos a pedir para vocês sugerirem esse nome naquela guarita azul ali ao lado.” Aí sim, o pessoal conversou, trocou idéia e surgiu o nome “Piranguinho”, que em tupi significa peixe pequeno: era o que tinha muito lá, e todo mundo aplaudiu. Disse-me que, em 1899, se associou com o tio Chico Braz para a construção e implantação de máquinas para beneficiar arroz e café em Piranguinho, que foi inaugurada em 1901.

Falou-me sobre Maximiana da Costa Manso, como era, porque o seu tio Chico Braz a mandou para Piranguinho e o que aconteceu depois. Contou-me que foi ele quem projetou e administrou a instalação de água encanada em Piranguinho em 1909 e a inaugurou em 1910. Que o seu tio Chico Braz colocou muitos dos seus primos em Piranguinho: colocou o Manoel Gomes da Rocha para zelar da água, Ursulino Gomes para cuidar do Cartório, João Gomes para zelar da limpeza, e outros mais. “Eu acho que tio Chico Braz só cometeu um grande erro: foi em 1913 quando ele passou as suas terras de aforamentos para serem administradas pelo Padre Herculano daqui de Brazópolis. Tio Chico Braz morreu em 1914 e esse Padre apossou-se de todas essas terras.” Continuou: “aqui não se chamava Brazópolis, chamava-se São Caetano da Vargem Grande”. Já era meia noite e meia do dia 4 de dezembro de 1964 quando me despedi do Sr. José Aniceto; abracei-o, agradeci-o muito e me retirei. Registrei tudo da forma como que me contou. Infelizmente, na década de 1970, um incêndio em sua casa destruiu seus pertences e todo seu acervo histórico sobre a região. O que o Sr. José Aniceto Gomes me contou sobre o início de Piranguinho abriu novos horizontes para os meus próprios registros.

As minhas conversas com os mais velhos permitiram-me não apenas recolher fatos que pude comprovar em arquivos como os da ferrovia, em Cristina, em cartórios e livros das paróquias de Piranguinho e Brazópolis, mas também outras histórias que, em minha saudade, imaginei serem interessantes apenas para mim. Instado pelos integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisa Histórica, resolvi torná-los públicos agora, para serem utilizados por quem deles se interesse. Dos casos mais recentes, eu próprio fui testemunha ou participei. Às vezes as memórias parecem compor um anedotário, mas se referem a situações que “de fato” interferiram na vida e no sentimento do povo. Começo falando sobre assombrações que assustaram muitos dos antigos moradores dessa cidade, cujos descendentes ainda vivem e podem ou não comprovar o que narro.

Fantasmas são espíritos de pessoas mortas que se manifestam com seus antigos aspectos aos vivos. Comumente os fantasmas se manifestam nos locais de sua existência anterior. Muitos, por convicção, crêem e respeitam a presença e manifestações dos fantasmas. A idéia mais aceita é de que estas estranhas aparições de fantasmas se dão por algumas situações injustas não resolvidas quando em vida e que deveriam ser remediadas antes de partirem para o repouso definitivo. Assombração e fantasma são palavras de muitos significados, usadas em vários contextos. Suas conotações expressam admiração, abalo, medo, pavor e curiosidade que fascinam a todos. Portanto, os fantasmas e as assombrações, em termos metafísicos, ocupam o estágio entre a vida e a vida após a morte. Assim, os fantasmas manifestam um tipo de vida após a morte, proporcionando alívio para a aflição humana de, um dia, deixar de existir. Para aqueles que temem a morte, a visão de fantasmas serve de consolo já que prova a sobrevivência do espírito e, de certa forma, deixa aberta a possibilidade de uma futura dimensão da vida. Além de qualquer crença na sua existência sobrenatural, os fantasmas expressam em muito a natureza humana. Não abandonam as antigas lembranças e comportamentos, pois suas características mais importantes são as memórias. Os fantasmas são projeções temidas, porém desejadas, por expressarem a segunda chance que todos desejam.

Em Piranguinho foram registradas várias ocorrências de fantasmas. Na época do engenho de serra e do advento da ferrovia, entre 1882 e 1904, os trabalhos nos desaterros e aterros dos leitos das linhas eram feitos manualmente por muitos trabalhadores braçais e a terra era transportada em zorras puxadas por bois e cavalos. Devido ao grande número de trabalhadores, ocorriam muitos acidentes, às vezes fatais. A ferrovia mantinha uma farmácia com ambulatório nas imediações dos trabalhos para atendimento aos acidentados menos graves. Como não havia cemitério nessa região, os acidentados fatais eram sepultados nas imediações da projetada linha férrea. Durante muitos anos, as pessoas diziam ver fantasmas caminhando, em diferentes horas da noite, pela linha férrea, entre o pontilhão onde existia o engenho de serra até a ponte de ferro sobre o Rio Sapucaí. Em 1948, os moradores pediram ao padre de Brazópolis que encomendasse as almas daqueles infelizes para que eles tivessem paz. O padre atendeu aos pedidos e, seguido por uma multidão, simbolicamente transladou os restos mortais desses fantasmas de onde foram enterrados para o cemitério local. Desde então, afirmaram os moradores, os fantasmas desapareceram.

Ficou famoso o caso do “Fantasma da Baronesa”, ocorrido entre os anos 1907 e 1918. Nessa época, com freqüência, entre as 16:00 e 22:00 horas, o fantasma da “Baronesa” Leocádia de Lourenço era visto caminhando com a sua bengala pela linha férrea próximo ao engenho de serra e ali permanecia mesmo com o tráfego dos trens ou da presença de pessoas. Esse relato foi feito por várias pessoas idôneas, que testemunharam o fenômeno. Entre elas se encontram: Dona Júlia Cândida, Dona Negrinha esposa do Sr. José Pedro da Silva; Sr. Antonio Gomes e Sr. Francisco Corrêa. Dona Leocádia de Lourenço era proprietária dessas terras e tinha participação na produção do engenho de serra. Ela morava em sua fazenda dos Mourões, no município de Itajubá, e mandara construir uma barca no Rio Sapucaí para sua travessia. Com freqüência vinha passar o dia no engenho de serra para acompanhar a produção. Esse percurso entre sua fazenda e o engenho era feito a cavalo ou de liteira. Em 1888, ela vendeu essas terras juntamente com a concessão do engenho ao Coronel Francisco Braz Pereira Gomes e nessa ocasião fez construir uma ampla e requintada casa para sua residência na praça central em Itajubá. Em 1901, essa nova casa passou a ser sua residência permanente. Sua fazenda e suas terras eram administradas por um administrador de sua inteira confiança que lhe foi indicado pelo seu falecido pai Augusto Caetano de Lourenço. A “Baronesa” Leocádia, que era solteira, adoeceu em 1903 e fez o testamento deixando seus bens para serem divididos entre os negros que eram seus escravos e que permaneceram a seu serviço após 1888, sem exceção. Faleceu em março de 1905, em Itajubá, e não deixou família. Seu sepultamento se deu no cemitério daquela cidade. Seu desejo não foi cumprido; o testamento foi negado aos beneficiários e acabou sendo destruído pelo incêndio ocorrido no Fórum de Itajubá.

Esses fenômenos tornam-se oportunidades para investigarmos fatos passados. Alguns deles ocorrem ainda hoje. Desde há muito tempo ocorre um fenômeno interessante na Rua de Baixo (Gregório Motta) e na Rua da Ponte de Zinco (Paulo Carneiro). Esse fenômeno vem sido observado por muitos desde a década de 1920 e na atualidade já foi presenciado por muitos moradores dessas ruas. Em certas noites, ouvem-se tropéis de cavalos sem nada ser visto, geralmente após as 22 horas, mas já foi observado por muitos entre as 19 e 23 horas. Em outubro de 1982, tive a oportunidade de observar o fenômeno pela primeira vez às 22:30 aproximadamente. Eu estava em casa, um sobrado na Rua Gregório Motta, 32, e comigo estava meu empregado João da Silva (Pampinha). Estávamos conversando quando ouvimos persistentes tropéis de cavalos na rua em frente. Subimos para o andar de cima da casa e saímos à janela; nada víamos, mas continuávamos a ouvir os tropéis. João da Silva ficou receoso e afastou-se da janela; eu permaneci a observar. O som era semelhante ao de vários cavalos a galope que estariam a uns quarenta metros de minha casa. Pareciam estacionados naquele lugar, mas lentamente se deslocavam pela rua. Fiquei aguardando passarem em frente a minha casa. Tive receio, mas pude controlá-lo; nada vi além de ouvir os sons dos tropéis.

Já tinha ouvido muita gente falar desse fenômeno, inclusive meu pai, meu avô Joaquim Motta, tio Chico Almeida, Sebastião Machado e o antigo morador da Rua de Baixo, Miguel Januário, mas nenhum deles dissera como o fenômeno se apresentava. Nessa noite pude observá-lo e constatar a sua veracidade. Sempre julguei os comentários como frutos da imaginação ou superstições. O curioso desse fenômeno é que não se sabe quando ele se manifestará; acontece, quando menos se espera. Baseando-me na experiência possível, que se pode manifestar no tempo e no espaço através da intuição sensível e segundo as leis do entendimento, equipei-me com câmera fotográfica, filmes de infravermelho, gravador de som e fiquei na expectativa para fotografá-lo e gravar os sons dos tropéis. Procurei indagar dos atuais moradores da Rua Gregório Motta, se já tinham ouvido, à noite, algo estranho e semelhante nessa rua. Muitos disseram que não e poucos disseram que sim inclusive o Sr. José Simplício, morador nessa rua por mais de dez anos. Ele afirmou que por duas vezes esteve para se levantar a fim de afugentar uns cavalos que ficavam troteando em frente a sua casa. Perguntei-lhe porque não se levantou para ver o que era. Respondeu-me que era quase meia-noite e estava chovendo nas duas vezes, e quando ia se levantar, os cavalos saíram trotando rua abaixo.

Mais algum tempo se passou quando novamente ouvi os tropéis: foi num sábado após às 22 horas. Havia quermesse da festa de Santa Isabel e tinha bastante gente na praça. Em frente a minha casa morava o Comandante do Destacamento Policial de Piranguinho, Sargento Venturelli. Na janela, preparei a câmera fotográfica e o gravador de som. Os tropéis vieram se aproximando lentamente em minha direção; pus o gravador a gravar e iniciei a bater fotos com filme de infravermelho. Os tropéis passaram em frente e tomaram a esquerda em direção à atual Rua Paulo Carneiro. Logo em seguida, o Sargento Venturelli saiu na janela, viu-me e perguntou se eu sabia quem estava trotando nos cavalos aqui na frente. Respondi-lhe que no dia seguinte comentaria com ele. O filme foi revelado e nada registrou, mas os sons foram gravados.

Interessei-me pelo fenômeno e passei a investigar sua origem. Sem abordar o fato, entrevistei alguns moradores antigos de Piranguinho: Agostinho Honório, Luiz Ferreira e José Pinto de Oliveira (Barão). Perguntei-lhes se sabiam de algum acontecimento marcante do passado nas ruas de Baixo e na da Ponte de Zinco e que envolvesse cavalos. O Sr. Luiz Ferreira respondeu-me que ainda era um menino de onze anos, em 1918, quando aconteceu um acidente na Rua de Baixo no qual morreu o cavaleiro arrastado por cavalos. Existiam, em Piranguinho, desde há muito tempo, vários mercadores de cavalos e burros. Eles negociavam animais nos currais que existiam nas imediações da Estação Ferroviária. Um desses mercadores se chamava Manoel Augusto Siqueira, que morava próximo da ponte de zinco (onde atualmente se encontra o barracão da Prefeitura) e conduzia os animais presos uns aos outros por cabrestos de sua casa até aos currais na Estação. De lá, para sua casa, ele os conduzia da mesma forma. Trazendo-os de volta, numa noite de agosto de 1918, ao passar pela Rua de Baixo, os animais estouraram e saíram a galope pela rua abaixo. Ele ficou preso no cabresto do cavalo em que estava montado e foi arrastado e mutilado. Partes de seu corpo foram encontradas na Rua de Baixo e na Rua da Ponte de Zinco. Os pedaços foram recolhidos num saco e sepultados nessa mesma noite. Após ter ouvido o relato do Sr. Luiz Ferreira, perguntei-me: haveria relação entre o fenômeno dos tropéis de cavalos e esse acidente?

No final de setembro de 1991, às 21:30 aproximadamente, os tropéis foram novamente observados na Rua Gregório Motta. Nessa oportunidade, foi presenciado também pelos soldados militares Paulino da Silva Oliveira e José Luiz Dias dos Santos. Por saber do que se tratava, observei-o com mais naturalidade, mas os demais ficaram atônitos e em silêncio até que tudo acabasse. Logo em seguida, comentamos sobre o acontecido. Paulino e José Luiz Dias foram até a Rua Paulo Carneiro na expectativa de saberem aonde esses tropéis iriam, mas nada conseguiram.

Antes de abandonar lembranças que beiram o sobrenatural, quero registrar aqui dois casos muito comentados nos velhos tempos. O primeiro diz respeito à famosa pedra da Laje. Contavam que, em 1908, no local onde atualmente se localiza o Bairro Laje, havia um sítio de propriedade de Jorge Gonçalves da Silva, viúvo que morava com os filhos João e Lucas. O filho mais velho, Lucas, planejou matar o pai para se tornar dono absoluto do sítio. Para realizar seu intento, pegou uma espingarda carregada com chumbos grossos e, de madrugada, foi aguardar de tocaia sobre uma pedra a passagem de seu pai. Quando seu pai se aproximava conduzindo as vacas leiteiras, para garantir a pontaria do tiro, ajoelhou-se numa laje de pedra. No instante em que puxou o gatilho, seu joelho direito e os dedos do pé cravaram-se na pedra. O tiro não atingiu o pai, mas o atirador ali ficou inerte, agonizante até a morte. Desde então esse fenômeno passou a atrair visitantes curiosos, cientistas e religiosos. O fluxo de visitantes era tanto que os administradores do ramal ferroviário de Piranguinho a Paraisópolis fizeram construir, em 1916, um ponto de trem próximo ao local, que recebeu o nome de Parada Henrique Braz. Eu mesmo, quando na escola, participei de uma excursão organizada por Dona Maria José Caridade e pude colocar meu joelho e meu pé nas marcas famosas. A pedra da laje deixou de ser visitada quando, em 1958, foi soterrada pela construção da rodovia MG-295.

O segundo fato está relacionado a um misterioso profeta. No ano de 1919, veio passar temporada em Piranguinho um homem desconhecido na região que se apresentou como Sebastião Mello. Aqui permaneceu por mais de cinco anos e nesse período demonstrou ser um qualificado arquiteto e pintor de telas embora não exercesse mais essas atividades. Era pessoa culta e comunicativa, razão pela qual conquistou a amizade e a simpatia de muitos moradores. Seu português era clássico, sabia o francês e dominava o latim. Seus assuntos eram elucidativos e relacionados ao social, normas de vida e princípios religiosos que partiam do Alcorão. Seu assunto preferido era o futuro, por isso apelidaram-no de Profeta. Por fazer severas críticas às imposições do Papa Gregório XIII e à alteração do calendário ocorrido em 1582, acabou provocando também a antipatia dos muitos moradores e do pároco de Brazópolis. Suas previsões foram comprovadas com o passar dos tempos e as que mais marcaram foram: 1) no início da década de 1920 haveria escassez na agricultura devido à prolongada seca que assolaria todo o país; 2) nessa mesma década a maioria dos fazendeiros do país faliria com as suas lavouras; 3) aconteceria um levante revolucionário com a participação de todos os estados e esse levante mudaria o conceito do Brasil; 4) por questões políticas, Minas Gerais teria que se defender com luta armada; 5) antes da metade do século, aconteceria uma grande guerra que envolveria o mundo todo.

De suas previsões, a primeira aconteceu no ano de 1922, quando o Brasil sofreu a maior seca até então registrada na sua história, e houve escassez na agricultura. A segunda previsão aconteceu no ano de 1929 quando houve a crise do café devido à quebra da Bolsa de Nova York, e muitos fazendeiros do Brasil quebraram. A terceira aconteceu em outubro de 1930 com o movimento político-militar que derrubou o presidente Washington Luiz, levando ao poder Getúlio Vargas, e, radicalmente, o projeto sócio-econômico do Brasil foi modificado. A quarta aconteceu nos meses de julho a outubro de 1932, com a revolução constitucionalista, e Minas Gerais teve que travar luta armada para impedir a invasão dos paulistas em seu território. A quinta previsão, por fim, aconteceu nos anos de 1939 a 1945, com a segunda guerra mundial desencadeada na Europa, da qual o Brasil participou. Sobre esse personagem, Sebastião Mello, ninguém soube dizer de onde era, de onde veio e nem para onde foi. Soube-se que era uma pessoa de relativa posse financeira, por ficar hospedado na Pensão de Dona Maria Cândida durante todo esse tempo, pagando pontualmente sua hospedagem.

Desses casos todos, quero destacar a insistência da “Baronesa” em continuar visitando os lugares em que viveu. Ela me faz pensar no papel das mulheres na construção de nossa cidade. Poderia falar de Dona Almerinda e de tantas outras, mas recordo aqui o que meu avô falava daquela mulher forte que quase caiu no esquecimento total. Não nos esqueçamos que, além de mulher – o que já não conta muito para os livros de história –, era negra. Segundo o meu avô, Joaquim Pereira Motta Sobrinho, quando, em 1901, Maximiana da Costa Manso liderou a construção de pau-a-pique da primeira igreja católica em Piranguinho, ela poderia tê-la construída pomposamente de tijolos e coberta com telhas, pois dispunha do apoio do Coronel Francisco Braz Pereira Gomes para fazer o que fosse preciso no arraial. Mas Maximiana determinou que fossem os próprios negros, ex-escravos, que construíssem sua igreja, pois assim se sentiriam orgulhosos de realizar uma obra para eles mesmos. Não nos esqueçamos que a imagem de São Benedito para essa igreja foi esculpida em madeira também por um descendente de escravo chamado Candinho Siqueira da Cruz.

Alguns outros personagens foram responsáveis pela formação de certos costumes em nossa cidade, pelo menos durante algum tempo. No início de 1900, mudou-se cá, vindo de São Bento do Sapucaí, Daniel José Pedro (Danielzinho) com sua família. Ele era fogueteiro e estabeleceu-se no comércio com uma mini-indústria de fogos de artifícios. Diariamente, ele fazia estourar alguns de seus fogos para testá-lo e assim os moradores contraíram a mania de soltar foguetes por quaisquer motivos. Soltavam foguetes quando começava a construção de uma casa e soltavam também quando a terminava. Soltavam foguetes em aniversários, nos casamentos e nos batizados. Soltavam foguetes nas festas religiosas, nas procissões e nos dias santos. Soltavam foguetes nas competições esportivas e soltavam também quando Piranguinho recebia visitas ilustres: era um constante e desvairado foguetório. Os novos moradores, que para cá se mudaram em 1922, profundamente irritados, solicitaram intervenção policial para que se diminuísse o entusiasmo dos fogueteiros. Para atender a solicitação foi destacado para cá, em 1923, um Cabo da Polícia Militar, chamado Gervásio Medeiros. O cabo tentou coibir o uso de foguetes, mas a proibição não foi acatada e aumentou ainda mais o foguetório. Cabo Gervásio ficou no Distrito apenas uma semana e, ao partir, foguetes estouraram por cima do trem como despedida.

A mania de foguetes continuou até quando foi deflagrada a revolução de 1930 e o Exército proibiu terminantemente quaisquer estouros. Danielzinho fogueteiro morreu em 1944 e deixou a mini-indústria para o filho José Benedito da Silva (José Daniel) e a nora Emiliana Maria da Silva. José Daniel, que se tornou sacristão da paróquia, continuou com o ofício do pai juntamente com sua esposa e os filhos Luiz Floriano, Lamaneres (Nésio), Isabel e Vanda da Silva. A mini-indústria foi extinta na segunda metade da década de 1950.

As duas Revoluções, no início dos anos 1930, misturam-se na cabeça dos mais velhos. A proximidade de São Paulo e a presença de soldados aqui trouxeram medo à população, mas também provocaram fatos que durante muito tempo fizeram parte da memória do povo. O Exército havia colocado sua tropa dentro de Piranguinho e conta-se que, um dia, ocorreu uma confusão danada. Na madrugada de 22 de agosto, alguém fez uma brincadeira de mau gosto para assustar os soldados. Uma bateria de bombas estourou no pontilhão da estrada de ferro, próximo ao atual Marco Zero. Ao investigar o fato, um grupo de soldados pensou que a tropa paulista estava atacando e disparou contra outro grupo. Estava escuro e, no tiroteio, três soldados da mesma tropa foram mortos. Somente muito tempo depois se ouviu dizer que fora o Ernesto da Maria Caetana quem havia estourado as bombas no pontilhão.

Uma outra história aparece no JORNAL DE PIRANGUINHO (Órgão Oficial da Intendência Municipal) com a data de 1º de Maio de 1963 – número 9, impresso na última página do Jornal BRAZOPOLIS (Órgão Oficial dos Poderes Municipais) de 12 de maio de 1963, número 2.004. Alguém recorda ali: “Voltou-nos à memória, então, o dia histórico em que Piranguinho foi palco de um combate militar. Foi em 1930, num dia do outubro fatídico. Em nossa cidade de Piranguinho havia alguns voluntários armados de revólveres e de espingardas de caça. Foi quando surgiu do outro lado da ponte da Rede, um trem militar, conduzindo soldados do Exército. Dali há (sic) pouco retumbava um tiroteio medonho. O Sr. Garrido, construtor da Igreja, estava trabalhando pacificamente, trepado no último andaime. Ao ouvir assoviar, sinistramente, as primeiras balas, não teve tempo de procurar um refúgio melhor, deitou-se aí mesmo no andaime, protegido pela grossura dos muros e esperou acabar o tiroteio. Não durou muito. No final, a Igreja tinha tomado algumas balas que riscaram seus tijolos, sem causar dano de monta.”

A ferrovia e seus trens também deixaram histórias. Em 1902, ocorreu o descarrilamento da locomotiva de número 98 no Km 105, nas imediações da fazenda do Capote. O aterro do leito da linha férrea cedeu e a locomotiva caiu numa lagoa próxima. Todos os esforços das pessoas que estavam por perto e dos trabalhadores da fazenda para evitar que ela afundasse foram inúteis; o fundo da lagoa era de argila e areia movediça. Os técnicos da ferrovia tentaram recuperá-la, mas decidiram abandona-la e lá ela permanece até então. Segundo os depoimentos das pessoas que colaboraram fornecendo laços e cabrestos para amarrar a locomotiva à espera do socorro da Ferrovia, esta lagoa encontra-se na direção reta da casa da fazenda do Capote ao Rio Sapucaí. Depois desse incidente, os encarregados da ferrovia alteraram o curso da linha férrea instalando-a próximo à Capela do Capote.

Outro caso de descarrilamento proporcionou uma boa história de suspense e mistério, um enredo a ser apresentado em quatro atos. Conforme relatos dos antigos moradores, na noite de 02 de agosto de 1902, nas imediações do quilômetro 101 da ferrovia entre Piranguinho e Pimenteiras, um trem que transportava valores da Companhia Inglesa Seleers, empreiteira da construção da ferrovia nesse trecho do Sul de Minas, descarrilou. Os valores destinavam-se aos pagamentos de seus empregados e das desapropriações das terras no curso da linha férrea. Nessa noite chovia torrencialmente e, por força das circunstâncias, o trem aí teve que pernoitar. Sem que os encarregados do transporte percebessem, esses valores que estavam acondicionados em quatro malas de couro foram furtados. O Comando Policial Militar de Três Corações foi acionado e intensas buscas foram realizadas nos leitos dos rios, lagoas, matas e nada foi encontrado. Permaneceu na região por mais de vinte dias, vistoriou todas as casas, tulhas, cisternas, fossas, quintais, plantações, e interrogou a população. O registro policial cita que os valores contidos nessas malas eram em libras esterlinas e pesavam aproximadamente oitenta e seis quilos. Pelo peso e o formato das malas seria necessário quatro pessoas no mínimo para transportá-las. A ocorrência foi arquivada.

Anos depois, em meados de 1942, muitos moradores das imediações do quilometro 101 afirmaram ter encontrado um homem desconhecido na região, alto, loiro, aparentando sessenta anos, de pouca prosa e de palavreado estrangeiro. Outros tantos moradores afirmavam terem visto esse mesmo homem rondando as Santas Cruzes existentes nas imediações. As pessoas que conversaram com o desconhecido relataram que ele lhes mostrara algumas moedas parecidas ser de ouro e lhes perguntara se conheciam dessas moedas. Os relatos causaram muitos comentários associando esse desconhecido ao furto do trem no quilômetro 101. Depois desses comentários, o desconhecido não mais foi visto na região.

No final de setembro de 1945, Oscar Bibiano da Cruz, morador de Piranguinho, casado, pedreiro e conhecido na região, afirmou ter sido contratado por um senhor idoso, loiro e estrangeiro para lhe prestar um serviço extra após a hora de seu trabalho. Na noitinha de 29 de setembro, ele acompanhou esse senhor para lhe prestar o tal serviço que ele nunca especificou. Ao chegarem ao lugar determinado, apercebeu-se de que se tratava de algo que estava enterrado. Já estava escuro e ele só dispunha no momento de um lápis e um pedaço de papel de saco de cimento; fez então o esboço do local e retornou para sua casa. No dia seguinte, à noite, no armazém de Maurício Gomes da Rocha, ele comentou o fato com amigos e lhes mostrou o esboço que havia feito. O fato espalhou-se como sendo o mapa do esconderijo dos valores roubados do trem no quilômetro 101. No dia primeiro de outubro aconteceriam as eleições para Presidente da República entre os candidatos Eurico Gaspar Dutra e Brigadeiro Eduardo Gomes. Quando Oscar Bibiano, eleitor em Brazópolis, viajou para lá, sua casa foi arrombada e o esboço que fizera do suposto escondido, desapareceu. A ocorrência foi registrada na Delegacia de Polícia, na presença do Subdelegado Sebastião Pereira Machado. Aconteceu que Oscar Bibiano teve morte súbita e suspeita, diagnosticada como causada por intoxicação alimentar, logo no início de outubro. Seis meses depois, o esboço reapareceu em mãos de alguém e foi apreendido pelo então Subdelegado de Polícia João Carvalho de Castro (João Soldado). Acabou sendo arquivado juntamente com a ocorrência do arrombamento da casa do falecido. Nessa ocasião, os moradores de Piranguinho iam até a Delegacia para ver e conhecer o tão comentado esboço do esconderijo.

Em 1958, eu, João Aparício e Harley de Almeida nos propusemos decifrar o tal esboço. Consideramos que ele fora feito à noite, com pouca luminosidade e quem o esboçara era pedreiro e dispunha de um pedaço de papel de saco de cimento e lápis do tipo carpinteiro. Certamente não necessitaria de maiores detalhes por ser ele mesmo que iria desenterrar o que estava ali escondido. Partindo-se dessa hipótese, admitimos que um dos desenhos desse esboço fosse de uma Santa Cruz no alto de uma estrada. O outro desenho com o escrito “oliu” certamente seria uma árvore de Óleo Pardo comum nessa região. O desenho com o escrito “Per” poderia ser uma árvore Pereira. O desenho com uma seta apontando para um círculo ligado a um outro círculo menor, provavelmente seria uma pedra maior próxima a uma outra pedra menor demarcando o local do esconderijo. Na época desse acontecimento, existiam várias Santas Cruzes nas imediações de Piranguinho. A mais próxima delas localizava-se no início da estrada para a fazenda dos Neves; uma outra encontrava-se no fim da reta da estrada de ferro, próxima do sítio do Sr. José Pedro; outra localizava-se na estrada para a fazenda dos Rennós; outra na estrada para o Capote; outra no início da estrada para Itajubá e outras duas se encontravam na estrada para o Mato Dentro.

Consideramos que estas Santas Cruzes, construídas desde antes de 1900, sempre nas margens das estradas e nos pontos mais altos para serem avistadas de todos os lados, eram locais apropriados para se esconder o “tesouro”. Seus terrenos, medindo quatro braças de frente por sete braças de fundo, cercados com arame farpado, eram considerados sagrados e neles se sepultavam os defuntos das fazendas próximas. Apesar de nossas brilhantes deduções e de intrincados esforços, não conseguimos identificar o local. Os valores roubados nunca foram encontrados, mas não descarto a possibilidade de continuarem escondidos nalgum lugar nessa região.

Pensando no passado, não resisto à tentação de fazer uma comparação com o presente. A atual população piranguinhense desfruta dos avanços tecnológicos conquistados nos últimos trinta anos, mas muitos já se esqueceram como era difícil a vida nos velhos tempos. De 1910 a meados da década de setenta, havia um único telefone em Piranguinho. Ele era público, acionado por manivela e dependia de telefonista para fazer as ligações. A central telefônica ficava em Itajubá e de lá partia uma única linha que interligava Piranguinho, São José do Alegre e Pedralva, de forma que, quando uma dessas localidades estava utilizando o telefone, as demais tinham que aguardar. Uma ligação telefônica de Piranguinho para outra localidade próxima demorava de uma a duas horas. Ligações telefônicas para lugares distantes eram mais demoradas e apresentavam ruídos interferentes que dificultavam as comunicações.

A energia elétrica, que abastecia a localidade desde 1910 até meados da década de sessenta, era fornecida pela Companhia Sul Mineira de Eletricidade de Itajubá, e a usina geradora era a de São Bernardo, nas imediações de Piranguçu. Havia um único e insuficiente transformador distribuidor de energia elétrica para o abastecimento de toda Piranguinho, de forma que, durante o dia, quando se ligavam os motores das máquinas beneficiadoras de arroz, o abastecimento elétrico residencial era insuficiente para fazer funcionar um rádio-receptor. Aos domingos e feriados, o fornecimento elétrico era interrompido entre 6 e 13 horas, a fim de racionar a água da represa que acionava a usina geradora. Nenhuma residência possuía geladeira ou chuveiro elétrico. Os fogões eram à lenha e muitos deles eram adaptados com serpentinas para aquecimento central de água, a fim de abastecer chuveiros e banheiros. O abastecimento de água encanada existia desde 1910. Era municipal e tornou-se insuficiente a partir da década de cinqüenta, em virtude do crescimento populacional e do aumento de consumo. Para contornar a escassez de água, a maioria das casas possuía cisternas.

Na década de cinqüenta, já em minha juventude, recordo os entretenimentos noturnos da moçada: ver os trens de passageiros na estação, reunir-se no jardim da praça para conversar e ouvir músicas pelo alto-falante do cinema, ouvir rádio-novela ou ler livros. Havia um cine-teatro, onde eram exibidos filmes nas quartas-feiras, sábados e domingos, se não faltasse energia elétrica. Muitos jovens trabalhavam durante o dia e outros tantos cursavam o ginasial em Itajubá e em Brazópolis. Eles iam para os estudos nos trens da madrugada e voltavam nos trens da tarde ou da noite.

O primeiro receptor de televisão foi implantado no final da década. Era novidade e muita gente vinha conhecê-lo. Na época, só existiam duas emissoras de televisão no Brasil: TV Tupi de São Paulo e TV Rio do Rio de Janeiro. As transmissões eram de meio período por dia e em preto e branco. A TV Tupi era a única que alcançava Piranguinho e, para captá-la, foi necessária a implantação de antenas especiais no pico dos Dias e antena rômbica no receptor. Mesmo assim, a recepção era instável em dias normais; quando chovia, ventava ou relampejava, o sistema apresentava pane e o sinal era interrompido.

O assunto predominante da rapaziada era o presidente ambicioso que governava o Brasil, cujo slogan era realizar em cinco anos o que não foi realizado em 50. O seu governo estava realizando obras faraônicas, mas também estava contraindo dívidas faraônicas; até mesmo havia lançado mão dos recursos do INPS. Numa época em que o Brasil era carente de estrutura básica para seu crescimento industrial, carente de energia elétrica, de meios de comunicação, de educação e de assistência à saúde, o governo, sem abalizar as conseqüências, estava construindo Brasília num lugar onde não havia estrada, água, nem energia elétrica. Os materiais eram transportados por aviões sem considerar os altos custos; ainda mais, ele havia abandonado as necessárias conservações do sistema ferroviário do país. Seu governo durou até 31 de janeiro de 1961 e os que o sucederam enfrentaram altas dívidas, inflação galopante e o povo descontente.

Nessa época eu já conversava muito com os mais velhos e recolhia a papelada velha que hoje compõe o meu arquivo pessoal. Sem muita formação histórica, sentia que uma cidade é formada por seu povo e suas memórias. Por isso, encerro estas lembranças com um pouco de nostalgia, na esperança de que o conhecimento do passado ainda seja útil para a formação das pessoas.

Ai que saudades das festas de outrora em Piranguinho! Havia festas de São Sebastião, de Nossa Senhora Aparecida e de Santa Isabel. Havia as barracas da festa e cada uma delas tinha seu nome e sua cor. As moças e rapazes que trabalhavam nessas barracas eram uniformizados com suas cores. Havia concursos de bonecas e as candidatas eram selecionadas entre as meninas mais comunicativas e engraçadinhas de Piranguinho. A Igreja era decorada com flores e outras tantas ornamentações pelas moças e senhoras da Liga Católica: Inácia Pedroso, Nicota Carneiro, Fia Moreira, Isabel Colorado Motta, Júlia Vilas Boas, Nicota Gomes, Maria José Gomes, Nuria de Almeida, Zizica de Almeida, Ciloca Machado, Terezinha Antunes e Samaritana Antunes.

Essas festas eram realizadas nos primeiros domingos do mês e nove dias de antecedência havia novenas a noite com rezas de terços pelo “Sô Danielzinho”. Durante a novena, as barracas da festa, montadas ao lado da Igreja, funcionavam e a praça ficava animada com muita gente. Nós, garotada, brincávamos no jardim e balançávamos nas barquinhas dos parques de diversões que aqui se instalavam nessas ocasiões. No domingo da festa, a gente já acordava no raiar do dia com som da banda de música fazendo alvorada. A gente levantava cedinho, vestia roupa nova, calçava sapatos também novinhos e saía para ver a banda de música e as barraquinhas que se instalavam na praça. Encontrava os colegas de escola e, juntos, visitávamos todas as barraquinhas. Iniciávamos pela que vendia brinquedos, ioiôs, bilboquês, joguinhos, quebra-cabeças e relógios-fantasias de pulso. Era grande a variedade de produtos que essas barraquinhas vendiam, nelas se encontravam artigos religiosos, material de costura, adornos femininos, perfumes, bijuterias, chapéus, meias, relógios, ferramentas de carpintarias e agrícolas. Havia barraquinhas de pastéis feitos na hora, de jogos de roletas, de jogos de dados, de fura-fura e de sorteios.

A cerimônia religiosa iniciava às 8 horas com celebração da Missa pelo Padre Joaquim de Oliveira Noronha (Quinzinho). Às 10 horas iniciava-se o leilão no coreto todo enfeitado com bandeirolas coloridas e cartuchos com quitandinhas e doces. Os leiloeiros eram os senhores Alípio da Silva e Benedito da Silva (Sô Garcia). Os assados de leitoas e frangos eram os primeiros a serem leiloados; depois eram as roscas, pães folhados com chocolate, cartuchos e prendas. O desenrolar do leilão era abrilhantado pelo som da banda de música. Os leilões de gado e cabritos realizavam-se às 14 horas nos mangueiros cedidos por Joaquim Pereira Motta Sobrinho e Sebastião Pereira Machado. Às 15:30 horas realizava-se a procissão dos fiéis conduzindo os andores pelas ruas centrais; o andor de São Benedito ia na frente da procissão, em seguida era o de Menino Jesus, por último era o do santo festeiro e no fim da procissão ia a banda de música. O que nós, garotada, gostávamos mesmo era de acompanhar o “Sô” Danielzinho bem na frente da procissão, soltando os seus foguetes de vara. O encerramento da festa se dava com queima de fogos pirotécnicos e a banda de música tocando o dobrado “Até outra vez”.

Pensando bem, é difícil acreditar que tudo mudou e que estejamos vivos até hoje! Nos últimos anos houve uma desmedida explosão de inovações, e tendências… As mercadorias dos armazéns e os remédios não tinham lacres especiais de segurança e nem data de validade, e ninguém morreu por isso! A gente bebia água de chuva, de poço, da torneira e tinha boa saúde! Nossos intestinos nunca se encheram de bichos estranhos… No máximo, a gente tomava purgante contra vermes e fortificava com óleo de fígado de bacalhau! Se a gente gripasse, se curava com chás de alho e alguns comprimidos… Os vírus não eram tão contaminadores e resistentes! A gente construía os brinquedos e se divertia com eles!

Na escola, a gente tinha que saber a tabuada de cor e salteada, resolver as quatro operações fundamentais sem calculadora! As professoras eram dedicadas e exigentes, não davam moleza… Castigavam se fosse necessário e não eram recriminadas por isso! A gente saía de casa e brincava o dia todo, nossos pais nem sempre sabiam onde estávamos, mas tinham a certeza de que não estávamos usando drogas!

A gente comia muitas frutas do mato, brincava na poeira e nas palhas do arroz, tomava chuva e pisava na lama… Mas ninguém ficava doente e nem contraía alergia… Nem se falava em alergia!A gente dividia uma garrafa de guaraná entre dois ou três colegas; bebíamos no próprio bico e sem gelo… Ninguém se contaminava com isso! A gente nadava no rio e bebia de sua água… Eles não eram poluídos pelos esgotos… Nem se conhecia micose! Nossas iniciativas eram “nossas”, mas as conseqüências também, e ninguém se escondia atrás do outro! Nossos pais nos colocavam de castigo e nos batiam se desobedecêssemos às regras… Mas nenhum deles era preso por isso! A gente sabia e obedecia; quando nossos pais diziam “Não” era “Não” mesmo!

A gente ganhava brinquedos no Natal e no aniversário, e não todas as vezes que queríamos… Nossos pais nos davam presentes por amor e não por dever! Não existia gravador de fitas, não tinha televisão, nem videocassete, nem computador, nem Internet… Tínhamos bons amigos e bons livros! A gente ia à casa dos amigos, entrava e conversava… sozinhos num mundo sem medo e sem maldade! A gente levantava cedinho para ver e ouvir a passarada cantar na praça… Não existia o mata-mato que envenena as sementeiras que a passarinhada come!

A gente ficava nas beiras das matinhas para ver os coelhos do mato transitarem e brincarem… Não envenenavam as matinhas e nem as queimavam! Aos 17 e 19 anos, a gente procurava o primeiro contato sexual em uma zona de meretrício, e sem camisinha… Ninguém se contaminava com doenças sexuais… AIDS não existia! A gente namorava, mas era somente namorar! A gente ia a casamentos, mas com a certeza que o primeiro filho daquele casal só nasceria depois de nove meses! A mãe da gente era “Mãe” mesmo… Não agredia a gente no seu útero com ultra-som para saber o nosso sexo!

A gente veio de uma geração que produziu inventores, artistas, amantes da música, das artes e da cultura. Tínhamos liberdade, sucesso, algumas vezes problemas e desilusões, mas tínhamos responsabilidade e sabíamos resolver tudo isso… sozinhos. Se você também é um destes sobreviventes… Parabéns! Você curtiu os anos mais felizes da sua vida.

PASSARO, Rosimeyre Maria dos Santos. Resgatando a Construção do Currículo para o Ensino de História no I Congresso Mineiro de Educação (1983-84). 2005. 200 p. (Dissertação – Mestrado em Educação). Universidade Vale do Rio Verde – UNINCOR – Três Corações – MG.1

Palavras chaves: Educação – História – Currículo

No final dos anos 70 e início dos anos 80, a História ensinada passou por mudanças significativas. Este trabalho tem como objetivo analisar as mudanças no ensino de História no de 10 e 20 graus e a prática docente atual. Compreender a construção curricular e suas implicações no atual ensino de História, visto que, muitos alunos ainda conservam uma aversão a esta disciplina escolar. Para uma análise mais criteriosa foi necessário resgatar as origens da reforma curricular no I Congresso Mineiro de Educação (1983/84).

A metodologia utilizada nesta pesquisa é de natureza qualitativa, pois trabalho com um objeto de pesquisa e sujeitos envolvidos no processo de mudanças na educação em um dado momento histórico. Como forma de ampliar minha reflexão e entender as aproximações entre o Congresso e suas influências na concepção do ensino de História, inicio retomando a minha trajetória de formação e a trajetória da disciplina nos diversos momentos na educação. A análise documental contextualizada me permitiu perceber a articulação entre o poder do Estado e a comunidade escolar para organização do Congresso, os embates e as decisões que originaram do evento.

Relacionar as propostas para o ensino de História com o material didático utilizado por nós professores. Esclarecer através da fala dos Professores os anseios por mudanças no ensino, suas reflexões e esperanças depositada no diálogo que se estabeleceu junto à comunidade escolar durante o Congresso.

Entrevista com a professora Felícia

Os caminhos das fontes

A professora Felícia Eugênia de Abreu Couto fala ao NEPHIS sobre suas pesquisas a respeito da História de Itajubá. Aponta, ainda, os caminhos por percorridos pelos historiadores empenhados em realizar uma boa pesquisa e em elucidar as lacunas históricas presentes na historiografia de Itajubá e região. Suas interpretações e comentários sobre as diversas fontes disponíveis são destaques desta entrevista concedida gentilmente ao NEPHIS.

“Antes de comentarmos qualquer aspecto da História de Itajubá é importante lembrar do grande número de material historiográfico que já se produziu, e que serve de referência para uma pesquisa histórica mais ampla, envolvendo a região em um contexto histórico a partir do qual poderemos fazer as devidas associações. Entre eles podemos citar: os livros sobre Itajubá, escritos por Armelim Guimarães, e o almanaque organizado por seu pai quando do centenário de Itajubá; o Almanaque“Eu Sei Tudo”, publicado em Portugal, por volta de 1933; outras publicações em revistas, etc. Em seguida podemos destacar as fontes locais, tais como os Livros de registros da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Soledade e os livros de registro da Igreja Matriz da cidade de Delfim Moreira (antiga Itajubá). Além deles é bom salientar que, em 1950, quando a diocese de Pouso Alegre comemorou seus 50 anos, foi produzida, com a participação de historiadores (leigos em sua maioria) uma obra comemorativa na qual estão registrados aspectos históricos de todos os municípios que faziam parte dela (Diocese). Estes relatos contavam mais os aspectos da tradição de cada uma destas localidades do que realmente se constituíam em uma pesquisa histórica bem fundamentada, porém servem-nos como referência e caminho inicial para pesquisa.

Quanto às fontes que são constituídas pelos livros de registro da Igreja Matriz de Itajubá e os livros de Tombo de várias Igrejas da região, é bom que se faça uma ressalva . No caso de Itajubá, nós não temos um Livro do Tombo completo, do século XIX. O Livro do Tombo que existe foi aberto em Agosto de 1889 pelo Bispo de São Paulo (Itajubá fazia parte da Diocese de São Paulo, pois a Diocese criada em Minas, durante o Império, foi a de Mariana e, de acordo com a divisão das capitanias, o território que hoje compreende o Estado de Minas, tinha uma parte, aquela que ficava à margem direita do rio Sapucaí, ligada a São Paulo) D. Lino Deodato e, nesta data, ele fez uma retrospectiva dos acontecimentos ocorridos desde o início da primeira paróquia de Itajubá, de acordo com o que ouviu e leu nas anotações do “Padre Fundador” Lourenço da Costa Moreira.“ O que eu vi, o que me contaram eu estou fazendo a anotação neste livro do Tombo”, assim diz o bispo.

A maior parte dos registros que existem na Igreja está no livro de Óbito de Escravos que está bem datado. Neste livro existem duas anotações que são importantes para se fazer datações posteriores. O primeiro registro é sobre a pendenga jurídica envolvendo o padre Lourenço e a comunidade de “Itajubá Velho”, no início dos anos 1830. Deste registro constam os nomes dos depoentes envolvidos no caso, seus endereços, as datas em que prestaram depoimento e o local onde se realizaram as entrevistas, etc. Este registro foi feito aqui, na vila de Itajubá, pelas autoridades de Campanha, pois como a pendenga vinha se desenrolando por mais de uma década, as autoridades civis resolveram ouvir os envolvidos. Estas anotações marcam o final do processo e este registro acabou sendo feito aqui, no único livro oficial existente na época. É bom que nos lembremos que a questão girava em torno de haver o Padre Lourenço “abandonado sua paróquia” e vindo residir na “Boa Vista do Itajubá”, tendo trazido, sem a aprovação de seus antigos paroquianos, os paramentos e os instrumentos necessários para as missas, para o novo arraial.

O segundo registro, feito pelo Padre Lourenço, nos anos 1851-52, realizado como se fosse no Livro do Tombo oficial, embora ainda se trate do mesmo livro de registro de Óbito de Escravos, trata de sua chegada à região. Por que esta segunda datação é importante para a pesquisa? Porque, ao assumir o Gabinete da Conciliação (início dos anos 1850), Diogo de Vasconcelos foi incumbido pelo Imperador de criar uma “Lei de Terras” para resolver a questão da posse das terras no Império que havia continuado a adotar as “Ordenações Afonsinas e Filipinas”que perduraram por todo o período Colonial e junto com isto (surge) a questão dos posseiros e dos sesmeiros quanto à posse legal das propriedades que vinham sendo ocupadas desde o período do Brasil Colônia. Assim, o ministro, como bom político mineiro, fez um primeiro documento que levou ao conhecimento das câmaras municipais da Província, que tiveram tempo de realizar a legalização das sesmarias e posses posteriores.

A Lei de Terras de 1850, que disciplinaria sobre a posse das terras do Império, afirmava que toda a posse ocorrida antes de 1820 estaria legalizada, desde que o posseiro pudesse comprovar sua presença na terra com documentos ou registros anteriores a 1820. A questão em Minas Gerais era muito grave, devido ao grande número de posseiros e à grande quantidade de lotes retalhados pelas lavras, que eram pequenos lotes, (bem diferentemente do nordeste, onde as grandes sesmarias se preservaram como grandes fazendas de gado ou de cana de açúcar, garantindo a característica da produção que privilegiava o latifúndio). Em Minas Gerais, com suas inúmeras lavras e com lotes menores, a questão era muito mais complexa. Havia ainda um grande número de posseiros, cuja chegada e ocupação era indefinida; muitos tinham ocupado terras ao lado dos caminhos (nos “pousos”) e, muitos com uma ocupação relativamente recente, como era o caso da região do entorno do Rio Sapucaí.

Com a preocupação de evitar derramamento de sangue e, buscando evitar a extensão dos conflitos pela posse da terra, estipulou-se que as provas aceitas para comprovação da chegada de pessoas nas terras seriam os documentos da Igreja. Como a ocupação de Minas Gerais ocorreu ao longo do século XVIII, então esta documentação de chegada de colonos deveria estar nas igrejas locais. Sendo assim, o Império passaria a aceitar o que estivesse lavrado nos registros paroquiais como documentos oficiais para a legitimação de posse dos que estivessem residindo nas terras por mais de trinta anos. Por isso temos um registro feito pelo Padre Lourenço, entre os anos 1851-52, no Livro dos Escravos, com um caráter oficial, resolvendo a questão da posse da terra por aqui (note-se que o registro do “Padre Fundador”, criando a história da fundação do núcleo urbano, é feito a posteriori).

Pois bem, voltemos à história contada no livro de Óbitos de Escravos, pelo Padre Lourenço: ele faz uma narrativa muito bem fundamentada, porque este é um documento legal, do qual se enviará uma cópia ao Rio de Janeiro, às autoridades imperiais, para garantir a posse da terra para os moradores da recém criada Vila (em 1849 ocorreu a criação da Vila da Boa Vista de Itajubá, ou Itajubá Novo, independente de Campanha). Fora de qualquer outra questão, a legalização das terras da vila estava sendo necessária, pois era fundamental definir quem eram os legítimos proprietários-moradores (e detentores das terras da vila) e quem poderia garantir que estes moradores não iriam perder a posse da terra, depois de feito todo o processo para a instalação da Vila? O “Padre Fundador” era o único capaz de afirmar quem com ele estava, quando da fundação do povoado (é bom lembrar que durante os anos 1830-1850, em função do processo contra o Padre Lourenço e a condenação imposta de devolver os paramentos e materiais à antiga Paróquia, a população de Itajubá “Novo” se afastou do “Padre Fundador”que construiu sua residência afastada do centro do novo povoado e foi substituído no comando da paróquia por um novo vigário, só sendo reconduzido ao cargo como pároco coadjutor quando da necessidade do registro no livro “oficial”, para a legalização da posse das terras do novo burgo).

Nunca foi tão forte a história do vencedor, pois ao relatar, num documento oficial, a justificativa das ações dos que estavam no momento constituindo a vila, o padre Lourenço oficializava a situação dos posseiros frente à nova legalidade imposta pela Lei de Terras de 1850, garantindo que todos eles constituíam o núcleo de fundadores.

A crítica histórica da narrativa de Padre Lourenço

Então, o que vai narrar o padre Lourenço, no início de 1851-52? Vai dizer que no começo de 1819, no mês de janeiro, impedido de vir assumir seu cargo na capela da Soledade de Itajubá – da qual havia recebido do Rei o direito de tornar-se “Vigário Colado”, confirmado pelo Bispo de São Paulo –, em função da morte de seu pai, pároco de Guaratinguetá falecido em meados do mês, necessitava, como herdeiro, acertar as contas e outras pendências (havia um engenho e um grande número de escravos, além da irmã, como co-herdeira e, talvez a mãe, como meeira). Em função disso, ele teve que aguardar, em Guará, até o mês de fevereiro, quando tudo foi legalizado, para tomar posse como vigário colado da paróquia da Soledade do Itajubá (Paróquia recém-criada pelo rei, pois antes toda esta região fazia parte da Paróquia de Guaratinguetá).
Chegando ao local, verificou que a povoação era muito pobre, com as atividades econômicas estagnadas e a mineração decadente. Reuniu, então, a população das “Minas Novas do Itajubá” ou do “Descampado da Soledade do Itajubá”, e, eles decidiram que ele estaria encarregado de procurar uma nova terra onde seria possível uma vida melhor para a comunidade.
Alguns dias depois, já de posse de informações sobre um bom local para o novo núcleo, reuniu então na Igreja as pessoas que deveriam partir com ele, na noite do dia 18 de março de 1819, e todos decididos, tomaram as embarcações para descerem o rio Santo Antônio, um pequeno afluente do Rio Sapucaí, em busca do novo local. Junto com padre Lourenço, oitenta famílias se movimentaram, segundo seu relato.

Na madrugada do dia 19, eles chegam no que hoje é denominado Porto Velho, uma planície que ele vai chamar de Boa Vista. Após caminharem um pouco (ou subirem a elevação em frente ao porto), encontraram o local ideal, onde montaram uma capelinha de pau-a-pique para demarcarem sua chegada e rezaram a primeira missa, agradecendo a Deus pelo sucesso da empreitada. Após a missa o padre determinou que todos deviam aguardá-lo, pois ele iria em busca dos sesmeiros da região. Neste ponto fica a impressão, no texto, de que os sesmeiros eram seus conhecidos (seja pela visita anterior, quando buscava um local para o seu grupo, seja por terem com ele comerciado, enquanto representante do engenho do pai, em busca de fornecedores de mercadorias para o comércio no caminho real).
Continuando, ele os convenceu a fazer a doação de terras para a capelinha de São José (Fábrica da Igreja), a quem ela havia sido dedicada, ficando o padre encarregado de dividir as terras doadas entre seus companheiros de aventura, estabelecendo com quem ficariam os lotes e faria também o arruamento do novo núcleo. Este é o documento de fé, lavrado pelo padre Lourenço.

Agora se faz necessária uma leitura a contrapelo, tendo em vista o contexto histórico nacional e local, onde os fatos se associam e as atuações do padre Lourenço são importantes, não devendo se perder de vista suas relações na Corte, no ano de 1818. A importância do ano de 1818, que foi um período conturbado para o Império do Brasil, foi também o ano da confirmação de D. João VI como rei e o início do longo período de mudanças sucessivas no comando político do Império.

Para a análise crítica das fontes é possível se amparar nos escritos de Armelim Guimarães, como uma fonte primária fantástica de informações, embora correndo-se o risco de esbarrar em interpretações histórico-filosóficas (são muitos os casos em que durante a exposição dos acontecimentos, Armelim se põe a “filosofar”ou a fazer afirmações dentro de suas crenças ou de suposições “datadas”, de sua vivência e de sua época). Em muitos casos a transcrição de documentos originais é útil para uma interpretação histórica coerente.

Usando uma visão simplista e confiando nas palavras do padre Lourenço, Armelim Guimarães, em sua narrativa, é levado pelos documentos como se a história apresentada fosse fielmente iniciada em março de 1819, e não um relato feito 32 anos depois. Ele não põe em dúvida o relato nem faz uma crítica quanto à data do documento.

Ele busca os motivos que levaram o padre Lourenço a escrever este documento em 1819. Para isso ele conta os acontecimentos ocorridos em 1818: começa falando da ida do padre Lourenço à Corte, possivelmente instigado pelo pai, solicitar ali um cargo de vigário em Soledade de Itajubá, que nem era paróquia na época. Tudo isso embasado em documentos que Armelim Guimarães conseguiu levantar, referentes ao padre Lourenço e sua nomeação para a Soledade de Itajubá, graças às suas boas relações (de Armelim) com correspondentes fora da cidade, seja em Guaratinguetá, São Paulo, Rio de Janeiro e Portugal. Muitas cópias de documentos são importantes para se montar um quebra-cabeças da situação vivida pelo padre Lourenço em 1818.

A negociação na Corte (Rio de Janeiro) consome metade do ano de 1818. Os objetivos desta negociação seriam garantir a situação de Lourenço, filho do Pároco de Guaratinguetá, que era herdeiro de um moinho de cana e de muitos escravos. Entretanto Guaratinguetá não possuía cana de açúcar, era apenas um ponto de moagem e venda, por causa do caminho real. E sendo um herdeiro rico, com uma escravaria e um ponto de venda, é possível imaginar a seguinte situação: a luta pela paróquia logo seria intensa e permanecer em Guaratinguetá, longe dos produtores (como era o caso de Pedra Branca) não seria possível. Então, a necessidade de estabelecer outro ponto como base para seus negócios levou o Padre Lourenço a buscar a criação da Paróquia e a escolha recaiu sobre a região do rio Sapucaí, região produtora de cana, algodão, trigo e fumo. Justificando todo seu esforço para convencer o Rei a fazer a divisão da paróquia de Guaratinguetá, de modo a atender seus anseios em permanecer próximo a uma grande região produtora é que levaram Lourenço da Costa Moreira a lutar na Corte.

Essa era a jogada, delimitar uma área que Lourenço conhecia bem por seus contatos com os sesmeiros, garantindo sua permanência próxima aos produtos que ele poderia vender via Guaratinguetá e criar uma nova e próspera paróquia sob seu controle. Entretanto não seriam estes os argumentos a convencer o Rei da necessidade de se criar uma nova paróquia numa região erma. Era necessário partir de uma base, uma capela que mesmo estando isolada, seria capaz de absorver recursos para se auto-sustentar e encampar as demais populações do vale do Sapucaí. Por isso sua ida a Soledade para assumir como vigário seria uma mera formalidade, pois logo que chegou, tratou de se transferir para uma nova capela criada às margens do Rio Sapucaí, Boa Vista do Sapucaí, em homenagem a São José, com doação do terreno pelos seus conhecidos, os sesmeiros (possivelmente seus fornecedores de mercadorias).

A transferência de Soledade para Boa Vista

As “Minas Novas de Itagybá” não ficam na Delfim Moreira de hoje. Mapas antigos encontrados na Igreja Matriz de Delfim, nos dão conta de que a localização exata das minas é desconhecida, deixando como referência apenas a descrição do encontro de dois riachos no alto de uma montanha que foram desviados para se garimpar ouro de aluvião. Estes pequenos afluentes vão formar o rio Lourenço velho.

Somente a povoação com aqueles que habitavam as minas era conhecida como Soledade. Este relato está no Livro do Tombo, em Delfim Moreira, encadernado no meio deste livro, pois eram folhas soltas. Num papel muito frágil com letra roxa constam estas anotações, e numa escrita belíssima, pois os padres daquela época, em sua maioria (aqueles que tinham formação), haviam concluído seus estudos na Universidade de Coimbra.

Em todo tempo, nestes primeiros registros, vai se encontrar anotações sobre a capela da Soledade, ou o altar móvel da Soledade (primeiramente o registro de um padre visitador, contando sobre o altar móvel). Segue o registro descrevendo como o local era um lugar miserável, com as pessoas passando privações terríveis na esperança de achar ouro, contudo sem atentar para a situação daquela área de mineração ser insustentável, pois o veio estava esgotado.

Neste segundo registro a visão que se tem é a de que a comunidade se reuniu e pediu ao padre viajante uma imagem para ser a padroeira do local. Não chegando nem mesmo a definir qual seria o santo, e por sugestão deste padre foi escolhida como “padroeira” Nossa Senhora da Soledade, protetora do lugar ermo, isolado e triste. E nesta mesma reunião fica decidida a encomenda da imagem a Portugal. Passado um longo período e por relato de um outro padre, pois a letra muda, temos finalmente a chegada da imagem de Nossa Senhora da Soledade à região em um altar móvel.

O porquê do altar móvel, na minha opinião, se baseia no fato de que além de ser mais fácil de se transportar montanha acima e abaixo, o grupo de pessoas que habitavam as minas era tão pequeno que não havia meios com que se construir uma capela permanente e a imagem ficava de casa em casa, daí a necessidade do altar ser móvel.
Até a construção de uma capela permanente, os registros fazem somente referências ao povoado como Soledade. O nome de Itagybá aparece dez anos depois, devido a um pequeno progresso do lugarejo, com uma população já um pouco maior e com necessidade de serem identificados como moradores das Minas Novas do Itagybá (as “Minas Novas” compreendiam um região bastante ampla no alto da Mantiqueira).

A população cresceu mas não chegou a 50 almas, era um povo obstinado que não queria abandonar o local. É somente no final do século XVIII que podemos observar nos registros a chegada de outras pessoas que não estão mais ligadas à mineração e estas vão estabelecer a “fábrica da capelinha”, e vão se dedicar à criação de gado e a agricultura, possivelmente num novo local, rio abaixo.
São estas as pessoas com as quais o padre Lourenço irá se encontrar (em 1819?), proprietários de terras que criam gado e se dedicam à agricultura e se beneficiam do arrendamento das terras da Igreja. De cara ele não vai gostar desta gente e a briga começa justamente com o sujeito que arrendou da fábrica da capela as terras para colocar o gado.

Após inúmeras correspondências às autoridades de Campanha e de argumentos de lado a lado, em 1831, um juiz vai ouvir as partes e fazer uma inquirição legal. Isto prova que este sujeito não veio com o padre para Boa Vista, questionava suas maluquices em querer tirar de Soledade a sede da Paróquia e está se sentindo prejudicado e ofendido pelas atitudes do padre Lourenço.
Entretanto, em referências anteriores neste mesmo processo, temos a narrativa desta mesma pessoa se queixando da situação provocada pelo padre Lourenço. Ele fala que várias vezes havia interpelado o padre sobre a perda do uso das terras e que havia mais de 20 anos alugava as terras da capela e continuava depositando em juízo, em Campanha, o valor do arrendamento das terras da Fábrica. Por sua vez o padre Lourenço se defendeu dizendo que este pagava muito pouco, arrastando esta briga, possivelmente por toda a década de 1820.
As dificuldades encontradas para se estabelecer a paróquia foram imensas, pois afinal demorou mais de dez anos para se concretizar tal empreitada, e a demora não se deveu única e exclusivamente às brigas locais. Os contatos e as negociações realizados em 1818, não resistiram às mudanças ocorridas ao longo dos anos 1820.

Em 1831, a negociação ainda se arrasta por aqui, envolvendo uma triangulação: Boa Vista de Itajubá, Campanha e a Corte do Rio de Janeiro. Os sesmeiros locais, interessados em desenvolver novos negócios e antevendo a ampliação do comércio através de um novo caminho recém aberto, o caminho hoje desconhecido do Pitu, (a tendência é que a Soledade iria ficar isolada como rota e perderia a importância estratégica na ligação comercial com Guaratinguetá e consequentemente com o litoral) levaram os moradores da Soledade do Itajubá, ou Itajubá Velho, a se revoltarem contra o Padre Lourenço, especialmente quando ele tentou acabar com a paróquia e quis, inclusive, levar a imagem da padroeira para a nova paróquia.

Em 1851, quando o padre Lourenço escreveu oficialmente no Livro dos Escravos, ele salvaguardou os interesses dos moradores dos anos 1850, mas não pode escrever todo o desenrolar dos fatos fielmente como o ocorrido. Sendo assim lançou mão de uma metáfora: contando sobre uma grande viagem (como um novo Moisés), descreve a vinda de um povo quase perdido na pobreza de um local atrasado, levado por ele para uma boa terra, um grande povo que faz jus a esta terra, agora reivindicada, no seu tempo presente.

Não pode escrever que o ano de 1818 foi de negociações na Corte, o de 1819 foi o de negociações na região envolvendo os sesmeiros; mas olhando os registros em Delfim Moreira descobri que o padre Lourenço somente assina os documentos das “desobrigas” na Igreja, e que, em março (no dia 19) de 1819, ele estava realizando batizado em Soledade. Por isso a imprecisão que fica, da imprecisão sobre as datas apresentadas em sua história escrita durante os anos 1850. Ele não podia contar com fidelidade os fatos, mas também precisava ser o mais próximo possível da realidade. E o melhor caminho é o da parábola, pois nela o narrador pode prescindir do tempo real, e ser mais vago na datação. O que poderia ser mais singelo? Ao descrever que “na véspera do dia dedicado ao meu santo de devoção, São José, reuni o povo de Soledade para virmos a esta terra e na manhã seguinte celebramos uma missa ao meu santo de devoção”. Olhando deste ângulo, o leitor não tem dúvidas sobre as intenções do padre Lourenço em dedicar uma nova capela a São José. Entretanto o historiador deve interpretar estes fatos sob a luz do contexto de 1850, onde a Vila de Itajubá está em formação, investimentos pesados estão sendo feitos e, para as autoridades imperiais, a população deve estar calcada em uma história convincente sobre suas origens. A datação do início do povoamento pode ser vaga, mas as intenções de se fixar e colonizar a terra devem ser precisas. Então para a população residente na Vila em 1850, as oitenta famílias ora moradoras do povoado que pretende o status de vila, vieram com padre Lourenço em março de 1819 e permanecem na região desde então. Oitenta famílias em êxodo em 1819 é um absurdo que por si só já desmontaria a versão descrita. Se Soledade tivesse oitenta famílias, seria uma paróquia tão próspera que rivalizaria com Ouro Preto, capital da Capitania e depois da Província, na região do ouro e o padre Lourenço não teria condições sequer de cogitar uma mudança de sede para a paróquia, se ela fosse tão próspera.

A consolidação da Vila

Em 1832, com a finalização do processo para a criação da paróquia, o que se verifica é a continuidade do processo iniciado em 1818. Os anos 1830 são de grande agitação no país inteiro, muitos membros do governo português e famílias nobres havia voltado para Portugal, os mandatários na Corte eram outros e a possibilidade da criação de uma nova paróquia, tendo como padroeiro São José, era nula. Em face disto, embora já estivesse funcionando uma capela em Boa Vista do Sapucaí, com atividades independentes de Soledade e com uma prosperidade crescente, para quem estivesse lendo os autos do processo, no Rio de Janeiro, não saberia fazer esta distinção. A solução estava na retomada do processo, esta paróquia se chama Soledade de Itajubá, tem como padroeira Nossa Senhora da Soledade e mudou de sede. E depois de tanto tempo seus habitantes solicitam o reconhecimento como uma legítima paróquia nesta nova sede!

Estranhamente depois de 1832, e do incidente da luta na ponte, do encontro entre as populações das duas paróquias em luta pela posse da padroeira, o padre Lourenço sai de cena, tanto de Soledade como de Itajubá novo. É compreensível que em Soledade sua posição estivesse abalada diante da população desde 1829, quando parou de ir fazer as desobrigas, as relações estariam bem azedas. Mas quase que ao mesmo tempo foi posto de lado também em Boa Vista e, com relação a isto há apenas hipóteses. A mais provável é a tendência do Padre Lourenço de querer controlar a população do mesmo modo que exercia o controle desde que os havia atraído para a nova paróquia. É bom lembrar que os anos 1830 eram outros e os mandatários também. A influência política do Padre Lourenço minguaram e ele se viu superado como líder local.

A análise do início do povoamento de Itajubá deve então ser feita ao longo de um período entrecortado por três fases distintas: a negociação de 1818-19, a consolidação da paróquia em 1832 e a criação da Vila em 1848-1849. Todos estes períodos costurados em uma metáfora muito bem elaborada pelo padre Lourenço, que apesar de estar exilado do outro lado do rio Sapucaí, e, poucos anos antes de sua morte, consegue legitimar a posse da terra para todos os moradores da Vila recém criada. O “mito do Padre Fundador” ficou estabelecido através do documento criado por ele, para legitimar o direito dos moradores da vila, diante da Corte, com a nova Lei de Terras, tão forte se tornou este mito, que até hoje perdura no imaginário e na documentação que foi repetindo as palavras do Padre Lourenço sem fazer nenhuma crítica. Se falarmos na “Grande Marcha” do Moisés do Sapucaí…Bem, aí então, teríamos um verdadeiro desmontar da história. Mas os documentos estão aí para serem estudados, investigados, cotejados e comparados, inseridos numa perpectiva mais ampla e global. Eis o desafio para cada um de vocês, estudiosos da história e futuros historiadores.”

LIMA, Rosana Meire. “Não me considero professora”: formação e práticas escolares nas memórias de Nair Mendonça Martins (Minas Gerais 1945 a 1990) 2006.78 p. (Dissertação – Mestrado em Educação). Universidade Vale do Rio Verde – UNINCOR – Três Corações – MG.

Palavras chaves: Formação de Professores, Memória, Identidade

Este trabalho analisa a formação de professores a partir das memórias de Nair Mendonça Martins que atuou em escolas rurais e urbanas de Minas Gerais entre os anos 1945 e 1990. O estudo faz uso das tendências metodológicas dos trabalhos sobre memória e formação de professores. As experiências de Dona Nair Mendonça Martins, professora de ensino primário nas cidades de Brazópolis e Piranguinho, foram reconstituídas a partir de fontes orais, escritas e visuais que possibilitaram também repensar o trabalho docente e sua contribuição para a formação da sociedade brasileira.

A pesquisa teve como objetivos: identificar elementos do processo de sua formação, reconhecer traços constitutivos de sua identidade como professora e analisar as políticas educacionais da época. A metodologia, com enfoque qualitativo, procurou reconstruir sua trajetória profissional contextualizando-a por meio da pesquisa bibliográfica e delineando-a através de entrevistas semi-estruturadas com amigos e companheiras de profissão, consulta aos cadernos de formação, ao diário de alunos, ao caderno de memórias, além de outros documentos de seu arquivo pessoal. As múltiplas atividades escolares, desenvolvidas conforme a orientação da política educacional do período em foco, revelam o dinamismo de uma mulher que ancorava sua ação nos valores tradicionais da família, da pátria e da religião.

A formação da professora rural, através dos cursos de treinamento, expõe principalmente as concepções de nação, de cidadania e de educação vigentes nos anos cinqüenta e permitem construir um esboço de uma face do Brasil cujo período industrial ainda dava passos tímidos. Vislumbra-se, assim, a situação conflitiva experimentada pela professora não titulada diante da professora normalista. Esse drama pessoal e coletivo ocorria dentro do jogo clientelista dos velhos coronéis da política local. Nesse contexto, Dona Nair fez-se professora e tornou-se uma alfabetizadora reconhecidamente competente. Por tudo isso, seu arquivo pessoal constitui uma importante fonte para estudos sobre a formação de professores no sul de Minas.

Debruçar sobre os documentos para recompor as práticas escolares daquele tempo não significa apenas lançar um olhar sobre o passado. Se memória é um termo que chama a atenção para a relação entre o passado e o presente, é muito mais este que, na atual conjuntura, se volta para aquele perguntando desesperadamente: o que é ser professor?